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“Toca” e (não) foge: vamos ao teatro falar sobre a gravidez

Toca
João P. Nunes

A Escola de Mulheres acolhe a nova criação de UmColectivo, companhia que Cátia Terrinca sediou em Elvas. Toca é um grito sobre a necessidade de se falar de gravidez.

Uma luz vermelha anuncia um amontoado de plantas invasoras, as ervas daninhas rejeitadas por todos os jardineiros, e palha. Mal se vê. Pelo menos até começar a mover-se, ganhar vida, até de lá emergir o esconderijo de uma mulher que, em voz off, reflecte sobre a gravidez e a condição de mãe – material para o filho recuperar quando casar, fizer 18 anos ou for pai. Toca é o novo espectáculo do UmColectivo – estrutura que Cátia Terrinca e Ricardo Boléo (este último tendo já partido para outras paragens) fundaram em 2013 – e é para ser visto quarta e quinta-feira na Escola de Mulheres.

Neste caso, o real sobe a palco: Terrinca foi mesmo mãe. Uma gravidez não planeada e revelada pouco antes de rumar, durante mês e meio, ao festival Mindelact, em Cabo Verde, aonde foi apresentar uma performance que acabou por ser minada pela boa nova. “A única coisa que tinha vontade de fazer – porque passei um mês horrível, dos demónios, em Cabo Verde, a vomitar de manhã à noite, enjoava com todos os cheiros – era falar sobre isto, até porque isto te deixa num sítio bastante particular, que é estares a viver a coisa que te apetece viver em pleno, mas teres que responder a solicitações externas, e isso põe-te em zonas filosóficas e morais difíceis de resolver”, diz.

A sua realidade alterou por completo Casa Partida, a tal performance, na qual utilizou várias gravações, ficheiros de áudio em que pensava sobre a condição que agora vivia, uma condição, obviamente, difícil de guardar em qualquer gaveta por mais sistemas de alarmes que nela estejam embutidos. E esses ditos, prosa-poética, filosofia de mãe, mulher sozinha consigo, também cabem nesta Toca.

Quando nos é possível vislumbrar melhor, vemo-la nua, libertando-se do esconderijo, livrando-se das folhas que a emaranhavam, tudo para o  filho. Estamos num mundo meio sinistro, com algo de nativo, vermelho, que podia bem imaginar-se como aquilo que todos vivemos na gestação, o lugar que todos sabemos impossível de recordar. É um registo profundamente intimista, pessoal, que aborda a perda de individualidade por parte da mulher agora mãe. Uma canção de embalar assim, como esta, é pois urgente que seja cantada, claro que é. “É uma exposição muito violenta. Este espectáculo é das coisas mais minhas que já fiz, não sei ainda se é necessário. Mas sei que é muito importante que as mulheres falem sobre as coisas que os homens não entendem; se os homens engravidassem já se tinha falado muito mais da gravidez. E porque há, de facto, muita coisa nojenta na gravidez, daí que muitos homens desmaiem no trabalho de parto, é violento, mesmo”, admite.

É estar cá dentro lá fora.

Criação e interpretação Cátia Terrinca
Sonoplastia Diogo Arouca Rodrigues
Iluminação João P. Nunes

Escola de Mulheres. Qua-Qui 21.30. 6-12€.

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