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Ricardo III, para ver estas terça, quinta e sexta-feiras, é uma criação da mítica Schaubühne, numa encenação de Ostermeier do lendário texto de Shakespeare. A violência pode ser sexy.
Se é para começar, que seja em festa. Abaixo a imposição que dita que os confetis, as flûtes e o respectivo champanhe só ao final dizem respeito. Isso é que era doce. Em Ricardo III – peça de Shakespeare e aqui espectáculo da mítica companhia alemã Schaubühne, que o Teatro Nacional D. Maria II acolhe estas terça, quinta e sexta-feira, com encenação de um dos mais importantes criadores de teatro do nosso tempo, Thomas Ostermeier – arranca-se com tudo a que se tem direito: uma celebração meio punk-rock diante de um castelo feito de andaimes, escadas e pilares que tanto podiam servir uma sessão de pole dance, como uma saída rápida de um quartel de bombeiros.
Apanham-se as canas e depressa estamos no monólogo de arranque, aquele em que Ricardo deixa claras as suas intenções. A sua sede de poder é infinita: vai matar familiares, conspirar contra tudo e todos até ter a coroa de rei na cabeça. O Rei Eduardo IV, doente, não durará.
No fundo, quem à sua frente se colocar – eventualmente basta estar de lado – vai cair, vai sucumbir à farsa de Ricardo, corcunda, meio coxo, renegado e com um sentimento profundo de injustifiça. Só que este Ricardo, isto é, o actor que o faz, a construção da personagem, é tudo menos a imagem que temos de Ricardo: “Uma coisa importante foi o casting. Decidi ter o Lars Eidinger a fazer de Ricardo III porque ele é charmoso, bonito, muito divertido e as pessoas gostam muito dele. Era importante para mim que o Ricardo não fosse o clássico vilão, feio, mau para as pessoas, pouco atraente, esse contraste entre as coisas maléficas que faz e a sua aparência”, conta Thomas Ostermeier.
É, de facto, impossível não ficarmos seduzidos por este Ricardo. Até porque – com recurso a um microfone nada apelativo esteticamente, que cai do tecto, que chega a servir para lá se empoleirar e sobrevoar as cabeças da audiência – o público, ou seja, nós, somos os interlocutores, os confidentes do plano maquiavélico do futuro rei. E essa relação com o público, essa dimensão de atracção por um bandido como este, é praticamente incontrolável. E isto, como Ostermeier explica, relaciona-se com o conceito de vice, que era um personagem típico do teatro medieval britânico que tanto representa o mal como a fortuna: “Estas figuras entravam sempre em palco pela audiência, e a sua linguagem era sempre muito popular, próxima do público. Isso era muito importante para mim. Quis que o público pudesse, tanto quanto possível, simpatizar com Ricardo, quase como se o público o seguisse, quisesse o seu sucesso, quase como se o público pudesse rever-se em algumas das suas atitudes, mas sendo, obviamente, civilizado o suficiente para não o praticar nas suas vidas”.
Estamos, portanto, perante uma rara oportunidade de ver um espectáculo da Schaubühne, desta envergadura, que nos atirará, como a todos em cena, para a lama. Que vamos a ver e nem é mau sítio para se estar.
TNDMII. Ter 18.00. Qui-Sex 19.00. 12-25€.
De William Shakespeare
Encenação Thomas Ostermeier
Com Bernardo Arias Porras, Carolin Haupt, Christoph Gawenda, David Ruland, Jenny König, Lars Eidinger, Moritz Gottwald, Robert Beyer, Thomas Bading, Thomas Witte
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