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Uma carta aberta ao prato redondo

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Ah, o nosso querido e amado prato redondo. O frisbee sedentário. A circunferência frágil e quebradiça de onde brotam as nossas refeições.

Adoramos a sua forma perfeita, com o rebordo ligeiramente subido; comovemo- -nos com o tilintar reconfortante da loiça e respeitamos a maneira como, depois de uns minutos no micro-ondas, o prato fica a escaldar enquanto a comida permanece fria.

É uma estrutura perfeita, a base sobre a qual se construiu toda a gastronomia ocidental. Até agora.

A hegemonia do círculo está ameaçada. Nas últimas duas décadas assistimos à invasão de outras formas geométricas: o bárbaro prato quadrado, a deselegante travessa rectangular, o arrogante pires hexagonal. Ou, pior ainda, a ardilosa ardósia.

Um jantar num restaurante da moda pode transformar-se rapidamente numa aula de preparação para o exame nacional de geometria descritiva. Há pratos de todas as formas e feitios, loiças assimétricas e comida servida em objectos que não foram feitos para servir comida – sopas em jarros, batatas fritas em canecas, saladas em tábuas, sobremesas em vasos.

Haverá uma grande escassez de loiças? Um embargo ao uso das formas redondas? Ou uma adesão repentina e eufórica a desportos como o Tiro aos Pratos?

O Provedor do Lisboeta só não vai mais longe na sua indignação porque, como já se percebeu, é o tipo de pessoa que não parte um prato.

O Provedor do Lisboeta é um vigilante dos hábitos e manias dos alfacinhas e de todos aqueles que se comportam como nabos e repolhos nesta cidade. Se está arreliado com alguma coisa e quer ver esse assunto abordado com isenção e rigor, escreva ao provedorprovedor@timeout.com

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