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Uma carta aberta ao saco que está a ocupar um banco no autocarro

Escrito por
O Provedor
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Ali vai ele, confortavelmente sentado, a ocupar um banco inteiro: um saco. Um saco que deve conter o segredo para a vida eterna, uma parte do Santo Graal ou os restos da Arca da Aliança.

Uma bolsa de plástico que guarda uma relíquia de tal forma valiosa que não pode viajar ao colo do seu proprietário ou ainda – pasme-se! – aos pés do seu dono. Esta preciosidade está a ocupar um lugar inteiro de um autocarro cheio ou vai refastelado no seu próprio assento de metro. Sempre que um passageiro de pernas cansadas se aproxima, o dono do saco é acometido por uma espécie de cegueira súbita, ignorando por completo a presença de um ser da mesma espécie que se quer sentar.

O mesmo fenómeno repete-se com mochilas, sacos de ginástica, malas e malões. Dúvida: será que o assento está ocupado pelo Homem Invisível e o saco contém uma muda de roupa? Outra dúvida: por que é que o Homem Invisível precisa de uma muda de roupa? Uma última questão: o Homem Invisível anda todo nu?

Os donos destas sacas viajantes expressam de forma ruidosa o seu melindre quando lhes é pedido que retirem o objecto da sua adoração para que uma pessoa se sente. Esse mal-estar é acompanhado quase sempre por um longo suspiro, um ligeiro revirar de olhos e uma série de gestos bruscos. Quando o saco viaja do lado da janela – um saco curioso gosta sempre de ver as vistas – aí o processo de remoção é longo e ruidoso. Como se de uma amputação se tratasse.

Não sabemos ao certo o que contém tão valiosa saca. Mas sabemos o que não cabe lá dentro: boas maneiras.

O Provedor do Lisboeta é um vigilante dos hábitos e manias dos alfacinhas e de todos aqueles que se comportam como nabos e repolhos nesta cidade. Se está indignado com alguma coisa e quer ver esse assunto abordado com isenção e rigor, escreva ao provedor: provedor@timeout.com

Carta aberta ao cavalheiro estacionado em segunda fila

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