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ProjectoMAP – Mapa de Artistas de Portugal
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Uma cartografia da arte portuguesa no Museu Berardo

O ProjectoMAP – Mapa de Artistas de Portugal faz dez anos e mostra as coordenadas do seu trabalho no Museu Colecção Berardo a partir de dia 23.

Por Maria Monteiro
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Em 1969, o artista suíço Daniel Spoerri foi convidado a fazer uma exposição individual nas Kunsthallen de Berna e Dusseldorf. Reformulou a proposta e mandou-a para trás, expressando a vontade de expor com os três amigos e também artistas André Thomkins, Karl Gertsner e Dieter Roth. Os curadores Harald Szeemann e Karl Ruhrberg não só acederam ao pedido, como convidaram amigos de cada artista e amigos dos amigos a apresentar os seus trabalhos ao mesmo tempo. Freunde – Friends – Fründ, conhecida como “exposição-avalanche” na imprensa local, começou por ser a montra de um núcleo próximo de amigos, mas rapidamente se tornou no catálogo vivo do panorama artístico local. Chegou a acolher mais de 400 peças de cerca de 50 artistas, como Josef Albers, Joseph Beuys, George Brecht, Christo ou Marcel Duchamp.

Mais de 40 anos depois, esta exposição fracturante inspirou quatro curadores a criar o ProjectoMAP – Mapa de Artistas de Portugal, com o objectivo de investigar, compreender e mapear o panorama artístico contemporâneo, tendo por base um sistema de ligações pessoais ou profissionais entre os artistas. Em 2010, Alda Galsterer, Felipa Almeida, Moritz Elbert e Verónica de Mello convidaram quatro artistas de diferentes gerações e contextos a integrar o projecto. De seguida, cada um deles foi desafiado a escolher outros dois, e assim sucessivamente, até alcançar os mais de 360 nomes do presente.

“O mapa é uma base de dados da cena artística que pode estimular a produção de crítica e pensamento sobre ela”, afirma Verónica de Mello, que assina com Alda Galsterer a curadoria de ”ProjectoMAP 2010-2020. Mapa ou Exposição”, no Museu Colecção Berardo entre 23 de Setembro e 10 de Janeiro. A “exposição almanáquica”, assim chamada pelas curadoras, marca os 10 anos do MAP e resume o trabalho que têm desenvolvido no estudo e cartografia dos artistas plásticos activos em Portugal.

De natureza assumidamente relacional, o MAP destaca-se pela sua subjectividade, mas rejeita a visão da arte como um clube de acesso reservado. Antes confia aos artistas a diversidade da selecção com base em “afinidades electivas”, termo cunhado por Goethe. “Eles são muito criteriosos, tanto escolhem a mulher ou o vizinho, artistas consagrados que já não estão vivos ou desconhecidos”, explica Verónica de Mello.

O resultado é um lote heterogéneo que permite “entender o tecido dos artistas que vivem e trabalham em Portugal e como eles estão interligados”, reitera Alda Galsterer. O próprio grafismo do mapa interactivo reflecte a horizontalidade das suas ligações. “Quando clico sobre um nome emergente, ele tem a mesma centralidade no ecrã de um Cabrita”, observa.

Apesar de ser sobretudo digital, o MAP é fruto de “relações criadas com os artistas no terreno”, em visitas aos ateliês, exposições, curadorias ou entrevistas. A exposição dos dez anos reúne obras de 64 artistas que espelham a diversidade de idades, meios e linguagens da arte contemporânea portuguesa. Alberto Carneiro, Helena Almeida, Nikias Skapinakis, Paula Rego, Joana Vasconcelos, Julião Sarmento, Fernanda Fragateiro, Alexandre Estrela, Vhils ou Wasted Rita são alguns exemplos.

“Interessou-nos seleccionar peças que fossem muito representativas da obra de cada um”, nota Verónica de Mello. Além das obras, a exposição reúne documentos sobre a história e metodologia do projecto, relatos na primeira pessoa, catálogos e 18 entrevistas inéditas a artistas, curadores, galerias, leiloeiros e académicos. 

Tendo em conta a “densidade e complexidade” da exposição, vai haver um QR Code em todos os objectos, incluindo entrevistas, para que ela seja vivida “entre o espaço real e virtual como a lógica do próprio mapa”. “Em vez de Netflix, podemos chegar a casa e pôr a dar a entrevista que começámos a ver no museu”, explicam.

Na última década, o MAP tem-se empenhado na internacionalização da arte portuguesa, marcando presença em eventos como a Bienal de Veneza ou a Pinta Miami. Igualmente fulcral é a criação de mais oportunidades para mulheres artistas. “Há um enorme equilíbrio de género na arte portuguesa mas as instituições não convidam tanto mulheres a expor”, nota Verónica de Mello. “O mapa pode ajudar a abrir-lhes portas”.

A exposição inclui um programa paralelo com visitas guiadas e um ciclo de cinema do realizador Luís Alves de Matos sobre artistas portugueses. O próximo passo é reunir estes dez anos em livro, “uma espécie de almanaque que depois pode perdurar no tempo”.

Museu Colecção Berardo. Praça do Império (Belém, Lisboa). Seg-Dom 10.00-19.00. 5€.

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