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'Uma Dança das Florestas' para celebrar os 10 anos do Teatro Griot

O Teatro Griot celebra dez anos e volta a Wole Soyinka, dramaturgo nigeriano e Nobel da Literatura. Falámos com a encenadora Zia Soares sobre ‘Uma Dança das Florestas’.

Joana Moreira
Escrito por
Joana Moreira
Jornalista
Palco, Teatro, Uma Dança das Florestas, Zia Soares, Wole Soyinka
©Mónica de MirandaUma Dança das Florestas, Zia Soares
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O novo espectáculo do Teatro Griot abre o ano no São Luiz, em Lisboa, com um princípio conturbado: a estreia foi adiada dois dias por terem sido detectados casos de covid-19 na equipa artística. Uma Dança das Florestas, do dramaturgo nigeriano Wole Soyinka, estreia-se a 14 de Janeiro, sexta-feira, e conta com uma sessão extra no dia 18. A peça, do primeiro autor africano a ser galardoado com o Nobel da Literatura, em 1986, é uma “metáfora botânica devoradora do sentido do mundo”, lê-se na nota de imprensa do Teatro Municipal. O espectáculo, com encenação e dramaturgia de Zia Soares, idealiza um continente livre do colonialismo europeu, tecendo críticas aos políticos e elites africanas. É o regresso do Teatro Griot ao autor depois de A Raça Forte (2013), numa altura em que a companhia celebra dez anos de existência, continuando a apostar na formação de novos públicos. “É tão importante para nós apresentarmo-nos aqui na sala Luís Miguel Cintra, do Teatro Municipal da capital do país, como é apresentarmo-nos na Moita, como é no Vale da Amoreira ou na Quinta do Mocho”, atenta Zia Soares. “Não há e não pode haver pluralidade nas artes performativas se isso não atinge o público”, garante a directora artística do Teatro Griot. A companhia tem desenvolvido desde 2014 um projecto de intervenção, com oficinas de artes performativas e workshops em bairros onde vivem maioritariamente comunidades negras. “Faz com que estas comunidades negras se consigam aproximar do teatro através do trabalho que vamos desenvolvendo em conjunto”, diz Soares, que rejeita os rótulos de “trabalho social” ou “teatro comunitário”. Pelo contrário: “é uma reflexão activa das temáticas que nos importam reflectir nas artes performativas e, naturalmente, na vida”.

Passada uma década desde o primeiro espectáculo do Teatro Griot, porquê esta peça agora? O que a entusiasma neste texto?
Ser uma visão do mundo. Entusiasma-me que ele tenha um certo humor que até hoje, nos espectáculos que a companhia tem feito ao longo destes anos, não tinha tido ainda. Tem um humor muito próprio, muito interessante. O espectáculo constrói-se num lugar, que é uma floresta. E esta floresta pode ser uma floresta em muitos sítios deste mundo, e nesse lugar cruzam-se seres extraordinários. Mortos que parecem estar vivos, vivos que parecem estar mortos, espíritos da floresta, divindades, semidivindades, e essa convergência de seres, que também são convergências de tempos, provoca situações que nos fazem questionar. Que nos fazem questionar as diferenças entre aquilo que é ser humano e que é ser divino. Todas estas personagens, todos estes seres que coabitam pelo espectáculo, todos encerram neles próprios o bem, o mal, o entre o bem e o mal, o positivo e o negativo. Não há esta diferenciação de que o divino é o bom e o humano é aquele que pode falhar.

Palco, Teatro, Uma Dança das Florestas, Zia Soares, Wole Soyinka
©Mónica de Miranda

Há complexidade.
Sim, há uma complexidade muito grande nisso. Há uma palavra e um conceito muito importante que atravessa este espectáculo, e que se foi revelando ao longo da própria construção, que é o tempo. Tudo isto é tempo. Isto é uma construção de um mundo que é feita em tempo. Não é no tempo, é em tempo. As personagens são tempos, a floresta é um tempo. A cena é tempo, são tudo mutações de tempo, que se interpelam e que convergem em espaços que são abertos pelo próprio tempo. Tudo é tempo aqui. E tudo só acontece porque tem um determinado tempo. Seja ele o tempo da fala, seja ele o tempo do movimento. Seja ele o tempo do sónico, do verbal, do não verbal. O tempo da ancestralidade, o tempo da colonização. O tempo da independência, o tempo da pós-independência. De facto, cada vez estou mais segura, dentro daquilo que é possível estar segura dentro da criação artística, de que isto são mutações de tempos.

Ao texto original de Wole Soyinka junta textos seus. O que é que a peça ganha com esta nova roupagem? Como é que entrelaçou estes dois discursos?
Não sei se pode falar em ganhos [risos]. O que sei é que é muito difícil trabalhar um espectáculo sem que possa ouvir as minhas coisas através das minhas palavras também. Pode parecer um bocadinho arrogante e egoísta, ainda por cima conspurcar um texto de um Nobel da Literatura, quem sou eu. Mas, ao mesmo tempo, também [é importante] dizer que, quando se faz teatro, o texto, as palavras, a música, a luz, não pertencem só à pessoa que os criou. Isso vai pertencendo a outras pessoas. Mesmo as minhas palavras que estão aqui em alguns momentos, e não são muitos, misturadas com as do Wole Soyinka, quando estão na boca dos actuantes e dos performers do espectáculo elas são deles, e eles têm toda a possibilidade de fazerem delas o que entenderem, porque em última instância são eles, esses performers, que vão estar na cena, são eles que vão estar no palco, e são eles que vão criar o mundo a que o espectador vai ter a possibilidade de assistir. O que eu faço com os performers é construir o mundo com eles. Depois quando o mundo é apresentado a outros, já não tenho interferência. Há sempre a possibilidade perigosíssima de um actor chegar na cena e fazer o que bem entender com aquilo. Eu própria como actriz. Isso é um risco, é um risco muito grande que não deve ser minimizado. Que deve ser apresentado também e colocado à disposição das actrizes e dos actores que sobem à cena. Portanto esta coisa de este texto e estas palavras pertencerem a uma pessoa... não acredito nisso.

A peça foi apresentada pela primeira vez durante as celebrações da independência da Nigéria, em 1960. Como é apresentá-la em Portugal, em 2022?
A peça trata de questões que são actuais, que são universais e que permanecem ao longo do tempo, que são as questões do poder, são as questões da morte, da vida, a questão do nascimento ou do renascimento. As questões da expiação. São questões que se mantêm. Ao mesmo tempo é curioso estarmos a atravessar este tempo pandémico. Neste espectáculo que foi escrito provavelmente no final dos anos 50, para estrear em 60, há uma personagem que é morta pelo imperador justamente porque começa uma doença de contágio rápido, que é o pensamento, o pensamento crítico. Tomara nós que nesta altura pudéssemos todos morrer do contágio da doença de pensamento crítico, do que de um vírus que é esta covid. Achei muito interessante que isto coabitasse, sem pensar nisso, porque a peça já tinha sido escolhida antes de a pandemia se instalar.

A história colonial e o seu questionamento têm ganhado cada vez mais espaço na criação artística recente. É um tema urgente, e no teatro também?
Este tema é urgente para mim desde sempre. Vivo há 47 anos em Portugal e em Lisboa e durante estes 47 anos este mundo em que eu vivo é um mundo desajustado a mim. É um mundo que me obriga constantemente a criar estratégias para sobreviver nele. Seja porque tenho fronteiras e barreiras físicas ou simbólicas. Justamente por ser uma mulher e por ser negra. Já é urgente há muito tempo. Talvez para algumas pessoas isso comece a ser urgente. Talvez pessoas que nunca tiveram de se incomodar com isso porque o mundo estava ajustado a elas, talvez porque o contexto internacional esteja muito mais aberto, desde logo encabeçado pelos EUA com o movimento Black Lives Matter, e com o George Floyd. Houve aqui uma abertura de olhos também consequência deste movimento que foi contagiando o resto do mundo. Essa urgência sempre lá esteve e é pertinente, claro que é, e é importante. É anacrónico até que não se faça.

São Luiz Teatro Municipal (Lisboa). 14-23 Jan. Ter- Sáb 20.00, Dom 17.30. 12€-15€

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