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Pedro Coquenão
Duarte Drago

Uma exposição, um musical e uma rádio entram na Casa Independente

Por
Francisca Dias Real
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A Casa Independente transforma-se num Alojamento Artístico Local durante Fevereiro. Batida (aka Pedro Coquenão) é o responsável pelas mudanças.

Um rádio antigo e uma Bíblia vão atrelados à bagagem que Pedro Coquenão vai levando para o andar de cima da Casa Independente, onde o artista luso-angolano vai ter a cama feita durante um mês. Servem-lhe de inspiração – não são para ver, nem tocar, nem opinar, ao contrário de tudo o resto, que estará sob o olhar indiscreto de todos. Alojamento Artístico Local (AAL) é uma exposição, um musical e uma rádio. Entre neste albergue sem tocar à campainha a partir de terça-feira, 4 de Fevereiro, até dia 29.

À porta, não há uma placa a dizer “AL”, mas a epidemia do alojamento local e a especulação imobiliária são o ponto de partida para esta residência artística na Casa Independente. “Arranjei maneira de viver um mês no centro da cidade sem pagar renda, com a diferença de que vou interferir numa casa que recebe todo o tipo de públicos”.

“Uma casa como esta pode estar muito próxima de um museu. O esbater de fronteiras agrada-me e é o que quero fazer aqui”, explica Pedro, que assina como Batida tudo o faz: produção musical, rádio, vídeo, dança e artes visuais e plásticas. E a ideia é que a intervenção toque em todos esses ofícios e que seja feita em todo este edifício do Intendente.

Interessa-lhe tornar a arte democrática e “diluir aquilo que nos impede de chegar a alguma coisa”. Pedro, que nasceu no Huambo e cresceu em Lisboa, não esconde o simbolismo do nome vincado da exposição: “Neon Colonialismo”. “Qual é a ideia?”, pergunta, tal como já o tinha feito Dino D’ Santiago, sobre esta Nova Lisboa. O artista tem muitas opiniões, mas não as impõe.

Duarte Drago

“Será uma ideia puramente estética? Será uma ideia de criar uma construção política e social nova em cima do que tem existido na cidade? É suposto esquecer todo o passado?”, interroga-se, dizendo que quer fazer levantar sobrancelhas com a palavra colonialismo e os seus restos tóxicos que se mascaram debaixo da língua, das nacionalidades ou de monumentos e odes a grandes feitos da História.

Exemplo disso é uma réplica do Padrão dos Descobrimentos, que foi buscar ao acervo do Museu de Lisboa – de onde também trouxe várias obras de António Costa Pinheiro –, e que contrapõe com obras suas, questionando significados. “Artisticamente é preciso pôr as peças em perspectiva e ver se a tua peça num contexto diferente muda de significado. A melhor contribuição para uma tradição é aceitar as actualizações”, explica.

Esta peça estará na Galeria da Junta de Freguesia de Arroios, mesmo ao lado, para onde se estende a exposição. Na Casa, há peças espalhadas por todo o lado, com destaque para a maior, logo à entrada – “é bom dar às pessoas logo o que elas querem ver e fotografar. Só continua quem é curioso”, provoca.

O contexto em que apresenta cada pedaço do seu AAL é sempre diferente daquele que seria de esperar. Na parte musical, IKOQWE, assiste-se de pé, pode-se dançar e beber. O espectáculo nasce das conversas entre Iko (Ikonoklasta, ou Luaty Beirão) e Coqwe (Coquenão). Temas essenciais da vida como a água, a mobilidade ou a sanidade mental são abordados, e remisturados com recolhas sonoras feitas em África entre as décadas de 1920 e 1970, pelo etnomusicólogo britânico Hugh Tracey, às quais teve acesso. Com a colaboração de bailarinos como Piny, Sani, André e Gonçalo Cabral, o musical acontece todas as sextas e sábados a partir das 23.00 (estreia no dia 7 e custa 7€).“O musical dignifica todas as artes”, afirma. “Pode-se ver o musical, ver a exposição ou ouvir a rádio. Há uma escolha, para não ser daqueles buffets em que tudo sabe ao mesmo”.

Duarte Drago

Pedro Coquenão nunca largou a rádio. Ainda bem. Neste AAL leva à Casa e à frequência 88.4FM uma rádio Normal – igual a todas as outras. “Mas o que é que é normal? Vai ser 24h por dia? Claro. E vai estar lá sempre gente? Claro que não. Numa rádio normal não está lá sempre gente.” Com licença temporária, a antena vai espreitar numa das janelas e terá emissão para toda a praceta do Largo do Intendente e nalgumas salas da Casa.

Tudo aquilo que se enquadra no parâmetro social do que é normal vai acontecer, e Pedro propõe-se a esse exercício: desconstruir o que pode ser ou não normal. “O normal é-nos imposto como uma coisa à qual temos de corresponder, e isso irrita-me. Estamos o tempo todo a perguntar ‘Achas normal? Achas normal?’ e confundimos o que é normal com o politicamente correcto ou o justo”, diz.

Os convidados são pessoas próximas, que fazem parte do seu círculo: é o caso dos bailarinos do musical, artistas convidados da exposição e, claro, o próprio Luaty.

Casa: Ter-Qui 17.00-00.00 (grátis), Sex-Sáb 17.00-02.00; Musical: Sex-Sáb 23.00, 7€; Galeria: Seg-Sex 09.30-18.00 (grátis).

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