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Televisão, Séries, Crime, Vanda (2022)
©OptoGabriela Barros em Vanda

Uma série de ‘true crime’ à portuguesa

‘Vanda’, da Opto, reescreve a história real de Dulce Cardoso, a “viúva negra” portuguesa que assaltava bancos com uma pistola de brincar.

Escrito por
Hugo Torres
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A televisão portuguesa não escapa ao actual apetite pelo true crime. Esta quinta-feira, a Opto estreia uma série de oito episódios inspirada na história de uma das mais peculiares criminosas nacionais, Dulce Cardoso, que entre Abril de 2011 e Outubro de 2012 assaltou 11 dependências bancárias da Grande Lisboa. O Banif era o seu alvo dilecto, porque sentia que este banco tinha ficado com dinheiro que era seu, através da seguradora Açoreana. Não por acaso, o Banif foi a primeira vítima e acabou por ser a última, após uma 12.a incursão falhada à sucursal deste banco na Avenida da República. Foi então detida, e depois julgada e condenada a sete anos e meio de prisão. Dulce era cabeleireira na Costa da Caparica e era tão desconcertantemente amadora como eficaz. Actuava sozinha, vestida de negro, o que lhe valeu a alcunha de “viúva negra” na imprensa da altura, e as únicas armas de que dispunha eram perucas, óculos de sol, um xaile e uma pistola de plástico.

Vanda parte daqui, para ir além da realidade. É uma obra de ficção, apesar de a criadora e argumentista, Patrícia Müller (Madre Paula, A Generala) ter andado atrás de Dulce Cardoso desde a sentença em tribunal, no final de 2013, para contar a sua história. A pedido da própria, para tentar proteger os seus de um renovado interesse pelo caso, mudou-se o nome da protagonista, para Vanda, entregando o papel a Gabriela Barros (Pôr do Sol). O círculo próximo também não é como está retratado na série, e os assaltos vão ganhar proporções muito maiores, porque a ideia não é que a série viva só no serviço de streaming da SIC. É para internacionalizar. Por isso mesmo se juntaram à portuguesa SPi duas outras produtoras: a espanhola La Panda, que trouxe para o projecto a realizadora Elia Urquiza (para partilhar os créditos com o realizador principal, o português Simão Cayatte), a argumentista Carmen Jimenez (que co-assina o guião com Müller) e algum elenco do outro lado da fronteira; e a norte-americana Legendary Pictures, cujo departamento de televisão está envolvido em produções para a Netflix, a HBO, a Amazon Prime Video e várias chancelas da Disney.

A premissa, todavia, é a mesma: uma mulher de 42 anos é traída amorosa e financeiramente pelo marido e, com multas e dívidas por pagar às Finanças e à Segurança Social, fica sem meios para manter o negócio e sustentar o filho de sete anos. Desesperada, decide agir em causa própria. Recorde-se que estávamos em plena crise das dívidas soberanas e do euro. O primeiro assalto ocorre precisamente no mês em que o Governo de José Sócrates e Teixeira dos Santos pedem ajuda externa, abrindo a porta do país aos ajustes demolidores da troika. O sentimento de injustiça social era transversal, tanto mais porque esta crise, que uma década depois continua a ser paga pelas pessoas comuns, teve início no sector financeiro, em 2007, levando à insolvência de vários bancos. Por cá, o BPN foi nacionalizado e o BPP encerrado; o BES e o Banif não durariam muito mais. Este contexto é importante, mas não é factor único. A detenção na Figueira da Foz do castelhano Jaime Giménez Arbe, “El Solitario”, responsável por assaltar sozinho mais de 30 sucursais bancárias em Espanha, terá iluminado o espírito de Dulce quanto ao método.

Na dramatização desta história, Vanda encontra o marido calão (João Baptista, numa versão equivalente, embora menos caricatural, da sua personagem em Pôr do Sol), de calças na mão, com outra mulher, uma funcionária do seu cabeleireiro. Acto contínuo, descobre que este tem ficado com o dinheiro que deveria ter usado para pagar impostos e outras obrigações. Vanda decide sair de casa, levando consigo o filho mais novo e deixando com o pai a mais velha, já adolescente, que acaba por se virar contra a mãe. Quando vai ao seu banco tentar consertar tudo, percebe que já tem a conta penhorada e que está num beco sem saída. Acaba numa pensão gerida por um homem seboso, que tenta aproveitar-se sexualmente da situação precária de Vanda. Mas esta não se deixa ficar e vai dar corpo à expressão “males que vêm por bem”. A Opto apresenta mesmo este melodrama como um ensaio sobre limites morais de uma mulher banal acossada por adversidades que não consegue controlar. O elenco conta ainda com Isabél Zuaa, no papel de uma amiga e funcionária que chega a albergar Vanda e o filho na sua casa da Cova do Vapor, e Joana de Verona, como uma psicóloga forense que tenta descortinar que assaltante é esta.

Opto. Qui (estreia)

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