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Subitamente no Verão passado
Filipe Ferreira

Verdade para quê? Ninguém aguenta a verdade

Por Miguel Branco
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Subitamente no Verão passado, de Tennessee Williams, é o novo espectáculo dos Primeiros Sintomas. Duas versões do mesmo homem que parecem acabar com o conceito de verdade.

Se o calor abunda, já se sabe, o melhor é ter um toalhete por perto. A senhora Venable – sentada no pátio, à frente da estufa – seca o rosto e relembra o filho, Sebastian, que morreu no Verão do ano anterior, numa praia de Cabeza de Lobo, Espanha. Mas não fala com as paredes, nem com as plantas do jardim. Fala com o Dr. Cukrowicz, um jovem médico que já havia realizado uma lobotomia – ainda que estejamos nos anos 30 e a técnica estivesse ainda numa fase inicial – e que Venable quer convencer (com muitos cifrões) a fazer o mesmo à prima Catherine, que estava na praia com Sebastian e tinha uma versão horrível da sua morte. Venable queria preservar a memória cândida, casta, que tinha do filho; para a mãe, Sebastian era um poeta por descobrir, um homem que queria o reconhecimento post-mortem, um homem que tinha na viagem e na observação da natureza o seu grande prazer. Pois. Toca a convocar o chavão que diz que a gente só vê o que quer ver.

Subitamente no Verão passado, do essencial dramaturgo norte-americano Tennessee Williams, é a nova criação dos Primeiros Sintomas, para ver a partir desta quinta-feira no Teatro Nacional D. Maria II. A encenação é de Bruno Bravo, que veio aqui parar, ao universo de Nova Orleães, aconselhado pelo actor António Mortágua. “Tinha um preconceito em relação aos americanos, não sei bem porquê. Mas se calhar, sei lá, por estarem relativamente distantes da cultura europeia, não sei bem. A peça tem várias coisas estimulantes cenicamente. Passa-se em New Orleans, que é uma região que conhecemos em Portugal sobretudo pelo imaginário cinematográfico e literário, esta sensação de extravagância, de álcool, de humidade, de calor, onde a maior parte das peças do Tennessee Williams se passam”, explica Bravo.

É para esse bafo que é convocada Catherine, para ser observada pelo Dr. Cukrowicz, para dizer a sua versão da morte de Sebastian, que tem sido silenciada. E aqui, a verdade começa aos berros. Nada da sua descrição se adequa ao homem endeusado que, aos olhos de Venable, é Sebastian. Na verdade ele utilizava a mãe – numa primeira fase – e agora Catherine, para atrair homens com quem queria ter sexo. Comprou um fato de banho transparente à prima e queria, com isso, convocar a atenção dos rapazes esfomeados e sem-abrigo que viviam na praia de Cabeza de Lobo. O fim é trágico.

Pensando bem, é normal que a mãe queira que a medicina cale esta versão do seu filho, ou esta versão da verdade. E nós, espectadores, que escolhamos aquela que mais gostamos: “A genialidade do Tennessee Williams é conseguir construir um personagem que pode ser o principal e que não é visível em cena, constrói-se na possibilidade de o espectáculo propor, na cabeça do espectador, a construção do Sebastian. Por isso é que acho que vive das duas verdades. Eu crio o Sebastian quando estou a ouvir a Venable e depois, quando oiço a Catherine, há uma contradição, mas que não substitui inteiramente o que a Venable disse”.

TNDMII. Qua e Sáb 19.30. Qui-Sex 21.30. Dom 16.30. 6-11€.

De Tennessee Williams
Encenação Bruno Bravo
Com Alice Medeiros, Carolina Salles, Joana Campos, João Pedro Dantas, José Leite, Marina Albuquerque, Mónica Garnel 

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