Tiago Rodrigues: “O Teatro Nacional não pode ser um prémio de consolação”

Ou seja: precisa de sangue novo, sem provas dadas. Em 2017/18, o Teatro Nacional D. Maria II pisa terrenos emergentes e consagrados. Conversámos com o director artístico, Tiago Rodrigues
tiago rodrigues
© Filipe Ferreira
Por Miguel Branco |
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Começam a temporada com o programa “Entrada Livre”, dois dias de teatro, leituras encenadas e música grátis. E que tem funcionado muito bem.

Sim, acho importante que existam momentos em que um teatro da dimensão do Teatro Nacional abre as portas ainda mais escancaradamente e celebra aquilo que é a sua missão. Sabemos que há gente que por essa circunstância, de serem dois dias não só de entrada livre, mas de circulação aberta, de possibilidade de descoberta, nos visita pela primeira vez. É um descortinar do que vai ser a temporada, com o convite evidente para que o público volte.

E volta para ver o quê? Isto é: que linhas de pensamento sustentam a programação desta temporada?

Uma está ligada aos grandes textos da dramaturgia universal e no arranque da temporada temos não só o Lear, como ainda vamos receber Macbeth, do Teatro Nacional São João, em dezembro, e, no festival Voz Alta vamos ter uma grande celebração do Auto da Barca do Inferno, uma leitura encenada e comentada com várias personalidades nacionais. Outra linha é a produção da escrita em português, da dramaturgia original, e aí temos espectáculos, como é exemplo aqueles que constam do Ciclo Recém-Nascidos ou os dois espectáculos da Raquel André.

Sim, esta é uma programação recheada de textos portugueses.

Diria que metade das estreias, ao logo de todo o ano, de novos trabalhos no D. Maria II são textos portugueses inéditos. Mas há outra linha de programação relevante que é a de infância e juventude. Este ano apresentamos, em Março, o espectáculo Montanha-Russa, da Inês Barahona e do Miguel Fragata que é um espectáculo para adolescentes que resulta de uma pesquisa de um ano e meio em salas de aula, de relatos, de recolha de diários, todo um trabalho diverso. Diria que estas três linhas: a do reportório, da escrita em português e do trabalho com a infância e juventude são muito importantes.

Logo no início há Lear, com encenação do Bruno Bravo, dos Primeiros Sintomas. De onde surge isto?

O trabalho que os primeiros sintomas e o Bruno Bravo e não só têm feito com reportório são um dos exemplos daquilo que deve ser o Teatro Nacional. Apoiar, dar a ver, co-produzir artistas que, com uma linguagem contemporânea, estão a trabalhar os grandes textos. Os Primeiros Sintomas fazem-no exemplarmente e daí a ideia, é uma companhia de referência que quisemos levar pela primeira vez à Sala Garrett. Achámos que era um grande texto para abrir a temporada, que podia estar em cena temporada sim, temporada não devido à sua grande riqueza.

Ao mesmo tempo que há essa preocupação com os grandes textos, existe um desejo de ter jovens criadores à vossa volta, certo?

Claro, é absolutamente essencial. É nossa missão apoiar a emergência, a possibilidade de renovação do teatro português. São artistas com menos experiência e com menos condições de produção, que exige outro tipo de acompanhamento. Temos que perceber quem são as companhias que estão a trabalhar texto, que mostram uma construção artística mais promissora, mas obviamente sabendo que quando se aposta numa companhia se está a apostar numa promessa. Quando se faz um espectáculo com O Banda ou com a a Mala Voadora estamos a fazer uma aposta naquele espectáculo, naquele momento. Nesse sentido, o Teatro Nacional não pode ser um prémio de consolação, não pode ser um edifício para quem já deu provas, tem que estar junto da nova criação e partilhas riscos com o teatro português.

Em Novembro, têm outra grande estreia. “Sopro”, que parte da Cristina Vidal, a ponto do Teatro Nacional há 39 anos, que até já estreou em Avignon.

É uma ideia antiga. Conheci a Cristina Vidal há sete anos, enquanto artista convidado pelo Diogo Infante, na altura na Sala Estúdio, e vi a Cristina trabalhar e sugeri escrever um texto para uma ponte. Depois mudou a direcção antiga, o projecto ficou em águas de bacalhau e não avançou. Quando cheguei ao Teatro Nacional disse-lhe que ainda o íamos fazer. Depois, tivemos um convite carta branca para estrear um espectáculo no festival de Avignon. Achei que faria todo o sentido estrear algo deste género no maior festival de teatro do mundo. Correu muito bem, em Avignon, onde apresentámos nove recitas e teve completamente esgotado. Foi a primeira vez que o Teatro Nacional está no Festival d’Avignon e é a primeira vez que um espectáculo português estreia lá. Foi uma combinação mágica de circunstâncias e uma recepção crítica fantástica, que nos permite dizer que o espectáculo vai andar em digressão nos próximos dois anos. Agora estamos entusiasmados com o facto de estrear o espectáculo no Teatro Nacional, sobre o qual o texto se incide bastante e ver a Cristina Vidal pela primeira vez no palco da Sala Garrett.  

Pela Sala Garrett vão também passar alguns dos grandes criadores contemporâneos internacionais como o Peter Brook ou o Amir Reza Koohestani.

Inevitavelmente, o Teatro Nacional, quando apresenta espectáculos portugueses ou internacionais, tem que ser um lugar de referência, com os grandes artistas do nosso tempo. Eu considero o Amir Reza Koohestani um grande autor e que nos traz, com encenação e texto seu: Hearing. Um olhar muito iraniano sobre a condição da mulher e da sexualidade. E o Peter Brook, com Battefield, é um dos grandes nomes do teatro português e que já não vinha a Portugal há muito tempo. A tomada de risco na programação tem que compensar apostas mais seguras. Depois, o que é curioso é que um grande espectáculo de um grande criador de referência ou de um criador desconhecido, o nível de insegurança é muito próximo. É algo da natureza do teatro. Não deixamos de ter que trazer os melhores artistas, como é evidente.

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