A Serenada: vinhos e descanso

Ficar n’A Serenada, enoturismo na Serra de Grândola, é uma terapia sonora. Melhora-se a audição, aprende-se sobre vinho e chamam-se nomes às cidades e ao seu frenesim.

Fernando Marques

A Serenada é um mimo. A sério. Quer dizer não um mimo de profissão, mas um miminho em plena Serra de Grandôla, aquele género de lugar que costumamos dizer situar-se "no meio do nada". Mas há rede wi-fi, uma vista maravilhosa, passeios pedestres para fazer pela herdade, vinho do bom. E aqui chegamos ao ponto fulcral, vir para A Serenada é passar o fim-de-semana a beber vinho feito aqui, cujas vinhas podemos tocar. A piscina é o outro ponto central da unidade: dá para dar umas braçadas e é daquelas que se perdem sobre o infinito, sabe? Tudo o que se quer. 

Chegar tarde e tarde beber. O dito popular que nos perdoe, mas há motivos de força maior que determinam a sua subversão. É que sair de Lisboa a uma sexta-feira à hora de jantar já se sabe que não vai ser o mais rápido dos eventos. Mas lá saímos e lá chegámos. Depois de uma sequência de estradas secundárias, damos com A Serenada, unidade de enoturismo situada nas Sobreiras Altas, Serra de Grândola, onde nos recebem com uma garrafa feita nas vinhas que envolvem a casa com seis quartos. Melhor não podíamos pedir, sobretudo quando nos dizem: “Estão à vontade, se quiserem continuar a meter lenha, façam favor”. E aí quase pensamos que isto é tudo nosso. 

Mas não é. É de Jacinta Sobral da Silva, enóloga que concretizou o sonho do pai, que em 1961 plantou a primeira vinha, que viria a dar origem a esta região vinícola chamada Serras de Grândola, inscrita na Península de Setúbal. E embora não sejamos peritos em vinhos, a verdade é que o Serras de Grândola (marca associada à produção feita n’A Serenada) tem prémios internacionais e na semana em que aqui passámos tinham acabado de ser premiados com a medalha de ouro na entrega de prémios da CVRSP (Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal) para o vinho Cepas Cinquentenárias Branco de 2016. Portanto, não somos só nós a dizer que este vinho é de qualidade, há gente entendida que o faz. 

 

Na manhã seguinte, uma garrafa depois, abrimos as cortinas para ver o que a noite anterior não havia permitido. Ficámos num quarto panorâmico, com vista para a piscina e para a Serra de Grândola, de onde também se pode adivinhar a silhueta da Arrábida e a baía de Setúbal. A Serenada tem aquele ambiente de paredes brancas alentejano, uma acalmia em forma de turismo rural, pura descontração, uma espécie de termas sonoras, dado o silêncio constante. 

A terapia é vagamente interrompida pelo som das loiças no pequeno-almoço, que por sinal é simpático o suficiente para já só querermos almoçar a horas de lanchar. Compotas e iogurtes caseiros, um belo fornecedor de pão, ovos mexidos feitos ao momento, presunto do bom – a fazermos alguma sugestão seria introduzirem o vinho logo ali, embora pudesse ser problemático para aproveitar o resto do dia. 

De barriga cheia, decidimos seguir uma das sugestões da casa, um trilho indicado por placas de madeira em torno das vinhas. São 2,5 km de terreno acidentado e inclinado, mas que se fazem sempre na companhia do melhor guia, o Max, cão d’A Serenada que pelos vistos nunca abdica de acompanhar os hóspedes. 

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Uma vista para a vinha ou para a vida

Para a noite, o melhor, um jantar vínico onde provámos quase todos os vinhos de Jacinta: Cepas Cinquentenárias branco e tinto; Branco Verdelho, Gouveio e Arinto; Edição Especial tinto e branco; Touriga Nacional tinto monocasta. Ora, depois disto e de umas migas com espargos feitas com carinho, mais uma tábua de enchidos – e não, nenhum dos vinhos acabou na cuspideira – o caminho para o quarto, dois lances de escadas, fica difícil de cumprir. Max, bem que podias dar uma ajuda.

 

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Como chegar

Na A2, tome a saída 9 para IP8/Sines/N259/Grândola e apanhe a estrada nacional 261-1 em direcção à Comporta. Depois, fique atento às placas para Sobreiras Altas.

Preços

Quarto duplo a partir de 115€ 

 

 

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Para comer:

Pode optar por comer n’A Serenada. Ainda que não tenha um restaurante aberto para clientes, a unidade hoteleira serve jantares para hóspedes, que tem de marcar no dia anterior  (22€/pessoa) e refeições ligeiras das 12.00 às 18.00. Mas em Grândola, cidade mais perto d’A Serenada, há restaurantes a experimentar: A Espiga é um restaurante tipicamente alentejano, com um quintal e mesas corridas sempre cheias em dias quentes. As migas de espargos e o arroz (quer de lingueirão, quer de amêijoa) merecem a sua visita (Rua Doutor José Pereira Barradas, 4, 96 116 4930)Também A Talha do Azeite é um dos restaurantes a não perder na Vila Morena. Onde antes havia um lagar de azeite há agora um restaurante com pratos da terra, as açordas são para provar obrigatoriamente. Tal como a sericaia (Rua Dom Nuno Álvares Pereira, 269 086 942)

 

 

Para fazer:

Bom, para começar, faça como nós e percorra os trilhos d’A Serenada, onde vai poder ver as vinhas (nova e velha) ao detalhe. Mas perto, há mais: a Praia da Aberta Nova fica a 20 minutos de carro pela Nacional 261-1; e o Cais Palifítico da Carrasqueira, inscrito na Reserva Natural do Estuário do Sado, que é uma estrutura de madeira erguida nos anos 60 que serve de embarcadouro aos pescadores locais. Ao pôr-do-sol é um local deslumbrante, entre o decadente e o natural. 

 

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