O design que veio do campo

De uma quinta no interior do Brasil para uma galeria em Lisboa, Inês Schertel mostra que o design é para se fazer nas calmas
slow design
Fotografia: MG
Por Mauro Gonçalves |
Publicidade

Volta e meia, lá voltamos nós à velha questão: o que é que separa o design da arte? Bem, se há sítios (ou momentos) onde os dois se encontram, a exposição “Slow Design”, que abre hoje ao público, no Espelho d’Água, é um deles. Inês Schertel, a autora, é o centro das atenções, a par com as peças que trouxe de Milão. O Salone del Mobile ainda nem arrefeceu e a brasileira de 59 anos já está a expor em Belém. Arquitecta de formação e designer na prática, tem pelo menos duas costelas de artista, a julgar pelo jogo de paciência que trabalhar a lã exige. Há seis anos que as mãos de Inês não tocam noutra matéria-prima.

“Foi em Milão. Tinha ido visitar a Galleria Rossana Orlandi e reparei numa peça que estava enrolada num canto. Explicaram-se que era feita de lã de ovelha feltrada à mão no Quirguistão”, conta. A designer não esperou por mais explicações e voou directamente até à fonte. A Ásia foi a segunda de várias paragens, onde Inês foi recolhendo técnicas e inspirações. No Brasil, mais precisamente em São Francisco de Paula, Rio Grande do Sul, esperava-a um rebanho de 400 ovelhas. Lã não faltava, tal como continua a não faltar. “Morei 30 anos em São Paulo, até que nos mudámos para esta grande propriedade, com uma mata nativa mesmo ao lado e este rebanho com imensas ovelhas que tinham de ser tosquiadas anualmente. Não sabia o que fazer. Não sabia fazer tricot, nem crochet”, explica.

Em Belém, o que vemos é só uma amostra do trabalho de Schertel. E uma bela amostra. Com o foco nas peças utilitárias, vieram cestas (balaios, do lado de lá do atlântico), banquetas, candeeiros e até écharpes, vestígios de quando se aproximou da fronteira com a China e aprendeu a fundir lã e seda, uma junção que continua a chamar de “mágica”.

O processo é exigente e lento (o título da exposição vem daí). É preciso lavar a lã, retirar-lhe toda a gordura animal e penteá-la, para depois feltrá-la, seguindo uma técnica com mais de 3000 anos. A lã é pressionada manualmente, com água e sabão, e só quando as camadas estão perfeitamente unidas é que se obtém o tão desejado feltro artesanal. Tudo isto, sem sair do ateliê.

O tom natural da lã predomina. Em algumas peças, surge o tingimento através de folhas e outras fontes pigmento naturais, uma técnica trazida da Irlanda. Não há sobressaltos de cor, apenas diferentes texturas em representação do sortido de ovinos. “Quanto mais trabalho, mais descubro novas formas de trabalhar a lã. Para mim, ela tem vontade própria”, afirma a autora.

Mas a escala em Lisboa serviu de pretexto para a criação de algo novo e diferente. Gurias é uma instalação inédita, composta por sete bonecas suspensas num fundo branco. Balançam ao sabor da brisa que vem da rua e dançam ao ritmo dos concertos que o Espelho d’Água recebe à noite. Têm personalidades próprias, inspiradas pelas primas com quem Inês partilhou a infância. São feitas de seda e tule, mas na base só podia estar lã e mais lã.

Avenida de Brasília, 210. 21 301 0510. Seg-Dom 11.00-00.00. Até 29 de Maio. Entrada livre.

O design que veio do campo

slow design
©DR

Inês Schertel no seu ateliê, em São Francisco de Paula, no Sul do Brasil

slow design
©Fifi Tong

Banco Ramada ©Fifi Tong

Publicidade
slow design
©Fifi Tong

Gurias, a instalação de Inês Schertel para a exposição em Lisboa ©Fifi Tong

slow design
©Fifi Tong

Casacol ©Fifi Tong

Publicidade
slow design
©Fifi Tong

Banco Hera ©Fifi Tong

Mais exposições em Lisboa

galeto
Fotografia: Arlindo Camacho
Arte, Arquitectura

Os snack-bars mais modernos de Lisboa nos anos 50 e 60

Em Lisboa nem se sabia bem como registar aquilo nas finanças: um balcão alto, com cadeiras altas para sentar e comer de frente para o empregado de balcão. Na América chamavam-lhes snack-bars e só se conheciam dos filmes. Até que os arquitectos Victor Palla e Joaquim Bento d’Almeida desenharam o Pique-Nique para o Rossio, com painéis de Júlio Pomar.

utopia
©Paulo Alexandrino
Arte, Arte contemporânea

Cinco peças essenciais de "Utopia/Distopia" na reabertura do MAAT

A reabertura do MAAT olha em todos os sentidos: para o passado, para o futuro, para o presente, para os futuro possíveis, para os futuros que já foram imaginados e para os que foram temidos. “Utopia/Distopia – Mudança de Paradigma” coloca em confronto o entusiasmo e a disforia face à tecnologia e ao futuro, com obras desde os anos 1960.

Publicidade
Esta página foi migrada de forma automatizada para o nosso novo visual. Informe-nos caso algo aparente estar errado através do endereço feedback@timeout.com