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  1. Arte, Fotografia, Theo Gould, Tatiana
    ©Theo Gould Tatiana, filha de portugueses e angolanos. “Um dos grandes motivos que a levaram a sair de Angola tinha que ver com a forma como era tratada. Deixou para trás memórias de quando lhe lançavam pedras e latas de bebida nas ruas."
  2. Arte, Fotografia, Theo Gould, Tiago
    ©Theo GouldTiago, pais cabo-verdianos. “Apesar de a família ter dinheiro, os pais sempre lhe disseram que teria de trabalhar mais do que todos os amigos brancos para conseguir as mesmas oportunidades."
  3. Arte, Fotografia, Theo Gould, Manu
    ©Theo GouldManu. “Quase não teve contacto com a cultura japonesa. O pai queria ser mais tido como brasileiro e manteve sua própria cultura longe da vida do filho."
  4. Arte, Fotografia, Theo Gould, Iara
    ©Theo GouldIara, pais portugueses e cabo-verdianos com heranças moçambicanas. “A grande maioria dos amigos são brancos. Fala da divisão racial na cidade e lamenta o facto de também não ter sido aceite pelos negros da sua comunidade."
  5. Arte, Fotografia, Theo Gould, Billy
    ©Theo GouldBilly, pais angolanos e cabo-verdianos. “Durante a nossa conversa, a ideia de casa foi um grande tema. Em adolescente, começou a visitar Angola no Natal e, embora não tenha vivido lá, achou o país familiar."
  6. Arte, Fotografia, Theo Gould, Bianca
    ©Theo GouldBianca, pais alemães e cabo-verdianos. “Para os amigos, foi sempre ‘a negra’. Embora tenha dupla nacionalidade, quando se dizia alemã, muitas vezes diziam-lhe: 'não pareces alemã’."
  7. Arte, Fotografia, Theo Gould, Jennifer
    ©Theo GouldJenifer, pais americanos e de ascendência japonesa. "Aos 16, emancipou-se e foi viver sozinha. Embora os três anos que viveu com a mãe tenham sido traumáticos, o desejo de aprender sobre a sua herança manteve-se e aos 25 anos conseguiu um passaporte para viajar para o Japão."
  8. Arte, Fotografia, Theo Gould, Beatriz
    ©Theo GouldBeatriz. “Os avós maternos são da Guiné-Bissau e de Cabo Verde; os avós paternos são portugueses e moçambicanos. Algo de que raramente se fala é que África é o continente com maior diversidade genética."
  9. Arte, Fotografia, Theo Gould, Yu Lin
    ©DRYu Lin, filha de pais suíço-alemães e franco-chineses. “Para ela, crescer em Itália foi estranho. Uma lei herdada do regime fascista, entretanto abolida, obrigou-a a renovar o visto de dois em dois anos, pois não conseguia comprovar que tinha cidadania italiana de sangue."
  10. Arte, Fotografia, Theo Gould, Soya
    ©Theo GouldSoya, pais marroquinos e mauritanos. “Aos oito anos, o pai decidiu que Soya e a irmã se mudariam para a Mauritânia com o objectivo de aprender mais sobre as suas raízes. Descreve esses tempos como difíceis."
  11. Arte, Fotografia, Theo Gould, Natalí
    ©Theo GouldNatalí, filha de brasileiros. "Era a única criança negra na sua escola. Recorda-se dos nomes racistas e das provocações que lhe dirigiam sem entender bem qual o motivo."
  12. Arte, Fotografia, Theo Gould, João
    ©Theo GouldJoão, avós angolanas e moçambicanas “É chef. Cozinha uma mistura de comida chinesa, caribenha, africana e portuguesa. O pai era ceramista, fazia pratos e tigelas, mas morreu jovem."
  13. Arte, Fotografia, Theo Gould, Denise
    ©Theo GouldDenise, pais cabo-verdianos. “Apesar de ter vivido a maior parte da vida na Suíça, o seu sangue é cabo-verdiano e a sua língua-materna, o italiano. Lisboa é a sua casa."

Portefólio: o murro na mesa de Theo Gould contra o racismo

Theo Gould retrata, numa série fotográfica, os rostos de quem enfrenta o racismo de frente e dá voz às suas inquietações.

Sebastião Almeida
Escrito por
Sebastião Almeida
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A mãe é queniana; o pai nasceu no Reino Unido, no seio de uma família judia com ascendência iraniana e do Leste europeu. Mas, ao crescer em Londres, Theo Gould nunca se sentiu “completamente judeu ou inteiramente negro”, apesar de se dirigem a ele dessa forma devido à tez escura. Na adolescência, quando visitou o país onde a mãe nasceu, teve contacto com outra realidade. Recorda-se de o apelidarem de kizungu, “algo como homem quase-branco” em língua suaíli. “Tenho pele escura e no Reino Unido sempre me consideraram um tipo negro, basicamente.” Ali, afinal, era quase branco. Ao mesmo tempo, em casa, sempre que estava com amigos, diziam-lhe ‘oh, tu não és negro’. Olhando para trás, o fotógrafo de 31 anos a viver em Lisboa reconhece que cresceu num “estranho acto de equilíbrio de integração.”

Ao ter passado por experiências sociais tão contraditórias, decidiu dedicar-se “à exploração da identidade racial e cultural, com especial foco em pessoas com ascendência de várias etnias”. Assim nasceu, em Setembro passado, Mixed, um projecto fotográfico que, através de retratos, pretende capturar a essência do que é ser fruto de uma mistura de etnias e de culturas e dar voz a essas experiências – muitas vezes toldadas por episódios ou sentimentos de segregação racial, racismo ou xenofobia.

“Comecei este projecto como uma forma de exploração pessoal e também porque, sempre que falava com outras pessoas, elas diziam-me que nunca as tinham questionado sobre estes assuntos.” O mundo aproxima-se cada vez mais da polarização, na sua opinião. A emergência dos populismos e dos partidos de extrema direita são, para o fotógrafo, um exemplo de como “todos estão obcecados com pureza racial e ultranacionalismos”. Este trabalho, defende, surge como uma reacção ao caminho que o mundo está a tomar. “As raças são uma construção social, mas a aparência estará sempre na base de como as pessoas são julgadas, pois é a primeira coisa que os outros notam.”

Comum a todos os fotografados são os relatos de alguma forma de discriminação – seja ela casual ou mais direccionada. “Toda a gente, até certo ponto, teve de sacrificar alguma parte de si. No meu caso, a minha herança judia.” Mas Theo deparou-se com situações bem mais complexas, como é o caso de Tatiana, luso-descendente nascida em Angola, que acabou por se mudar para Portugal devido à forma como era tratada naquele país devido ao tom de pele claro. “Em Angola há a percepção de que pessoas com a pele mais clara são mais privilegiadas. Como resultado, essas pessoas multiétnicas acabam por ser maltratadas”, explica o fotógrafo sobre este caso em particular.

Esteticamente, as imagens são apresentadas ligeiramente desfocadas ou com algum tipo de movimento. “A ideia é que isso ilustre a deslocação entre esses dois mundos diferentes”, justifica Gould. O fotógrafo recorre ao contraste, a sombras e a poses para esconder os rostos dos sujeitos. “Fotografo a preto e branco, pois vejo-o um pouco como uma metáfora para a vida. A imagem não é de facto preta e branca. O branco não é uma cor e o preto também não o é. Tudo é cinzento, por isso o mundo nunca pode ser considerado preto nem branco.” Ao não se conseguir discernir a cor de pele dos retratados, não é possível teorizar sobre quais serão as suas origens. Esse é um dos objectivos do trabalho, fundamenta o artista. “Em última instância, são humanos. Tento apenas não inserir as pessoas em caixas.”

À medida que o mundo se torna cada vez mais globalizado, Theo acredita que as relações multiétnicas serão cada vez mais bem-aceites e normalizadas. A série de retratos do fotógrafo britânico, que em Fevereiro foi seleccionada para a fase final do concurso Sony World Photography Awards (os vencedores serão conhecidos a 15 de Abril), pretende facilitar o entendimento de que, “se as pessoas forem menos ignorantes, é possível gerar-se um diálogo”. E que se perceberem “que somos mais parecidos do que diferentes, haverá menos conflitos no mundo”. Fá-lo tocando em questões fracturantes, a partir de uma abordagem positiva em que tenta simplificar o que motiva tantas cisões.

Recomendado: uma viagem pelo mundo através de livros de fotografia

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