Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Portefólio: os casacos amarelos de Ivy e Athon
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©The Yellow JacketsBehind the Courtains
The Yellow Jackets2/12
©The Yellow JacketsAlways be kind, you never know what's inside
The Yellow Jackets3/12
©The Yellow JacketsA Contar os Dias - Metáfora sobre o Isolamento durante a Pandemia
The Yellow Jackets4/12
©The Yellow JacketsBeauty and the Beast
The Yellow Jackets5/12
©The Yellow JacketsBiblioteca Abandonada - Não deixem a Cultura Morrer
The Yellow Jackets6/12
©The Yellow JacketsChallet Azul
The Yellow Jackets7/12
©The Yellow JacketsSave Water, Shower Together
The Yellow Jackets8/12
©The Yellow JacketsShow Must Go On
The Yellow Jackets9/12
©The Yellow JacketsClassic(s)
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©The Yellow JacketsHotel Shangai
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©The Yellow JacketsEscondidos na Arca
The Yellow Jackets12/12
©The Yellow JacketsA Central Elétrica

Portefólio: os casacos amarelos de Ivy e Athon

São portugueses e vestem casacos amarelos enquanto exploram e fotografam edifícios abandonados. Contamos-lhe a história de Ivy e Athon, os The Yellow Jackets.

Por Sebastião Almeida
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Foi um casaco amarelo herdado que lhes fez ganhar o nome, mas foi o gosto pelo desconhecido que os aproximou. Ivy e Athon, nomes fictícios, são os rostos (ocultos) por detrás dos The Yellow Jackets, um casal português “na casa dos trintas”, que viaja por Portugal e pelo mundo com o objectivo de explorar e fotografar edifícios abandonados. “Por ironia do destino”, contam à Time Out, pouco tempo depois de começarem a usar o anoraque amarelo do pai de Athon, depararam-se com outro idêntico e em mau estado, num dos locais que visitaram. Lavaram-no, repararam-no e foi assim que ganhou forma o projecto que “pretende dar a conhecer a quantidade enorme de imóveis de cariz cultural carregados de história que se encontram ao abandono e completamente desprezados”.

E porquê a cor amarela? “Gostámos imenso do contraste [que a cor] criava nos locais abandonados, tipicamente sombrios, tristes e sem vida”, relatam. As semelhanças com o casaco usado pelo protagonista da série alemã Dark são evidentes, mas aqui não há nada de sobrenatural – só de imaginação. “O amarelo dava-lhes [aos locais], de certa forma, uma nova vida.” Fábricas, centrais eléctricas, prisões, palacetes ou centros comerciais – já perderam a conta ao sem-número de espaços abandonados que visitaram pela Europa. Em todas as explorações há, ainda assim, a preocupação de contar a história dos imóveis que fazem parte de uma comunidade, que guardam nas suas paredes e tectos histórias de seres humanos que em tempos lhes conferiram vida. “Nós tentamos manter cada um destes edifícios de pé apelando à preservação do património edificado que ainda resta e eternizando-o em fotografias”, resumem.

Numa exploração ao Norte do país, numa moradia, contam, encontraram uma arca gigante. “Queríamos ter uma fotografia no seu interior, só com o braço de fora.” “Mas quando lá estávamos dentro apercebemo-nos de que estavam a subir as escadas da casa na nossa direcção.” Os restantes exploradores que os acompanhavam apressaram-se a sair, mas, como tinham a máquina no tripé, continuaram a fotografar até obterem o resultado que pretendiam.  Não chegaram a saber quem era. Estes locais abandonados têm o poder de os deixar pensativos. Numa outra aventura, depararam-se com uma casa antiga que tinha uma das divisões cheia de plantas secas em vasos. Num canto encontraram um piano. Por cima, a fotografia de um homem. “Ficámos imenso tempo a olhar para a sala e a imaginar qual seria a sua verdadeira história. Será que aquele homem tocava piano enquanto a sua esposa regava as plantas? Porque teriam deixado tudo como estava?”

Apesar de tentarem reunir o máximo de informação sobre os locais que visitam, nem sempre é possível. Alguns deles, são “autênticas cápsulas do tempo”. Mas a dupla nunca deixa de imaginar as suas histórias e de tentar perceber mais sobre os hóspedes idos. “São todos estes pormenores que acabam por ser a maior inspiração enquanto fotografamos”, dizem. Ivy e Athon querem que o público, através das suas fotografias, consiga sentir-se um pouco na pele dos Casacos Amarelos, que “partam à descoberta e que vivam em constante auto-desafio”. “Precisamos cada vez mais de sair da nossa zona de conforto e de fugir ao ritmo frenético, monótono que se vive na sociedade actual. Precisamos de experienciar diferentes sensações e procurar novos caminhos”, defende o casal. 

Há um mundo por descobrir que parece saído de um imaginário fantástico. Estes locais abandonados, o esforço e o perigo para chegar a eles, é o que faz estes dois portugueses saírem da sua zona de conforto. Aos que não têm essa oportunidade, resta-lhes observarem com atenção as fotografias que se seguem e deixarem-se imergir numa viagem em que poderão dar azo à imaginação e questionarem sobre que outras vidas tiveram os sítios que agora lhes são mostrados, despidos e maltratados.

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Mais fotografia

The Yellow Jackets, Fotografia, Show Must Go On
©The Yellow Jackets

Portefólio: os casacos amarelos de Ivy e Athon

Arte Fotografia

Foi um casaco amarelo herdado que lhes fez ganhar o nome, mas foi o gosto pelo desconhecido que os aproximou. Ivy e Athon, nomes fictícios, são os rostos (ocultos) por detrás dos The Yellow Jackets, um casal português “na casa dos trintas”, que viaja por Portugal e pelo mundo com o objectivo de explorar e fotografar edifícios abandonados.

Portefolio Miguel Madeira
Miguel Madeira

Portefólio: a vida e obra de Miguel Madeira

Arte Fotografia

Quando os médicos que conduziam o parto o chamaram para tirar a fotografia, avisaram-no logo: “Se quiser, tem de ser agora”. Até então sentado numa cadeirinha ao lado da mulher, Miguel Madeira teve somente tempo para se levantar, subir a câmara ao rosto, e disparar. “Foi como se estivesse a trabalhar. Estava apenas a garantir que a imagem ficava bem feita, como se fosse o parto de outra criança”, recorda sobre o momento em que registou os primeiros segundos de vida da filha, na manhã de 22 de Abril. Só depois dos primeiros gritos da recém-nascida ecoarem nas paredes da sala de parto entendeu verdadeiramente o que se passava. “Foi aí que senti um baque. Depois de tirar a câmara do olho fui-me abaixo”. Contou-lhe os dedinhos minguados, como as mães ensinavam. E chorou.

“Talvez por ter trabalhado durante muitos anos num jornal tenha criado um certo distanciamento”, diz o fotógrafo, que passou uma vida a trabalhar para o Público, onde foi editor de fotografia. Agora, aos 49 anos, é freelancer. Fotografar, no fundo, “sempre foi uma desculpa para ir aos sítios ver como era”. E é assim que ainda hoje continua a entender a fotografia. Já fez e descartou um sem-fim de imagens. Esta, no entanto, é diferente: assinala o início de uma vida. Vai ficar para sempre.

Ser pai numa altura em que uma pandemia abala o mundo e provoca milhares de mortes pode inspirar preocupações e receios. Quando em Março a situação escalou, Miguel deixou de poder ir às consultas. Os planos para estar ao lado da mulher, Diana, durante o parto pareciam cada vez mais improváveis. E a cada dia as indicações mudavam. Olhando para trás, um mês depois do nascimento da filha, apenas o facto de ter sido obrigado a realizar um teste ao vírus foi “mais fora do normal” em todo o processo. Isso e os três dias que passaram fechados no quarto do hospital sem poderem sair para seja o que fosse.

“É um privilégio ser pai nesta altura”, diz sobre a experiência que está a viver.  O confinamento acaba por permitir que as famílias estejam juntas e é precisamente isso que querem um pai e uma mãe com um bebé nos braços. Fechado em casa, “Maique”, como é conhecido, continua a fotografar. Reinventa-se ao fotografar a mulher e a filha, mas também os amigos e familiares que lhe aparecem ao portão para verem o novo elemento da família.

“Sou preguiçoso e acho que as fotografias rapidamente cumprem o seu propósito. Sou desprendido com elas e custa-me a acreditar que alguém tenha interesse em olhar para as minhas fotografias sem nos conhecer”, diz. A verdade, contudo, é que muitas pessoas vão seguindo o seu “diário” no Instagram. 

As fotografias que aqui estão são, sem que o fotógrafo talvez lhes confira a importância devida, uma manifestação de sentimentos, é certo. Mas se continuarmos a observá-las por mais uns segundos veremos que constituem um documento que mostra como uma relação evoluiu ao longo dos anos e culminou no nascimento de uma criança. Afinal, como disse à Time Out no início da conversa para este texto, fotografar a mulher é a sua “obra de vida”.

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Alex Paganelli
Alex Paganelli

Portefólio: As ilhas na corrente de Alex Paganelli

Arte Fotografia

Quando em 2008 se mudou por amor para Lisboa, o italiano Alex Paganelli não adivinharia que a cidade portuguesa seria a sua casa mais de dez anos depois. É director de arte numa agência de publicidade, mas ganhou o gosto pela fotografia e aliou a arte de captar sombra e luz ao seu gosto por viajar. Pelo meio, mudou de amores e foi graças a isso que conheceu Cabo Verde e se apaixonou também pelas suas ilhas. As fotografias que agora nos mostra são fruto de duas viagens, em 2018 e 2019, a quatro das dez ilhas que constituem o arquipélago. Em cada uma delas, diz-nos, vive-se um país distinto.

“Descobri Cabo Verde graças à minha mulher, que é de Santiago.” Das dez ilhas, “todas são diferentes”, relembra. “Cada uma é um país.” Nas suas visitas, tentou fugir ao circuito turístico, e apaixonou-se pelos ritmos lentos da morna e pelos sabores de uma gastronomia exótica. Santiago, São Vicente, Santo Antão e Maio foram as ilhas que o fizeram recuar aos tempos de infância, passados em Anzio, uma pequena cidade costeira a 63 km de Roma. Lá, tal como nestas ilhas africanas, “há uma simplicidade na vida que permite valorizar as pequenas coisas”.

No Tarrafal, na parte norte de Santiago, “o turismo divide-se”. De um lado da ilha estão os pescadores e, no outro, está a zona mais turística, mais desenvolvida e conhecida por quem visita a maior ilha do arquipélago. Alex decidiu passar lá uns dias com a comunidade local junto à praia. Não falava crioulo, mas conseguia entender-se com os pescadores. Foram eles que lhe ensinaram um jogo típico, o uril, que se assemelha às damas.

Uma das memórias que guarda com mais afecto é o momento em que os seus amigos cabo-verdianos se encontraram com ele na praia e o viram rodeado de pescadores, como se fosse um deles. Ali, encontra-se um “equilíbrio entre o indivíduo e a família”. Não há barreiras e o dia-a-dia é preenchido por primos, tios, vizinhos. É um calor humano que não se consegue explicar e que, ao mesmo tempo, deixa espaço para reflectir ao final do dia.

Paganelli, 38 anos, quer viajar e continuar a explorar as ilhas que ainda não conheceu. O seu desejo é voltar a Cabo Verde ainda este ano – caso a pandemia o permita. Mais do que nunca, sublinha o fotógrafo, é importante praticar um “turismo ético”. Aproximar-se da comunidade, consumir local e conhecer a natureza. As suas fotografias fazem-nos saltitar de ilha em ilha e imaginar como é a vida dos que habitam estas porções de terra no meio do oceano. Vive-se devagar, de forma simples, com o peixe e o mar sempre no horizonte.

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Portefólio
Guilherme Nunes

Portefólio: As emoções remotas de Home Office Home

Arte

Enxergar é um verbo que se usa mais do outro lado do Atlântico do que deste. Mas é uma palavra forte, bonita, que parece ir um pouco mais longe do que “ver” ou “olhar”. Pedrinho Fonseca, escritor, fotógrafo, realizador e amigo de Guilherme Nunes, usou-a para descrever o projecto Home Office Home. Disse o brasileiro: “O fotógrafo Gui Nunes está a registrar, em cada reunião em salas virtuais que participa, aquilo que respira, ainda humano, em nossos distanciamentos, confinamentos, isolamentos. A fotografia como exercício de enxergar o exílio de cada uma e de cada um que – ao se deparar com os espelhos-tela – ainda consegue admirar os rostos das outras pessoas tal qual o nosso rosto se revela a elas, nos sorrisos, seriedades, distrações e focos.” 

Foi quando em Março ficou sem poder sair à rua para fotografar estendais, como tanto gostava, que o carioca em Lisboa Guilherme Nunes começou a enxergar, através do computador, as pessoas com quem tinha reuniões à distância. Nos seus retratos espontâneos, feitos com uma máquina fotográfica chamada print screen, enxergou as mais diversas expressões – aborrecimento, cansaço, stress e preocupação, mas também entusiasmo, concentração, entrega e alegria. Enxergou, acima de tudo, “que as conexões não se perderam, mesmo estando longe”. 

“Comecei meio despretensioso”, descreve à Time Out. “Sem saber se isso daria algo de facto. Fui clicando, experimentando e guardando numa pasta. Depois de um tempo, e já com algum material, comecei a analisar e, conversando com uma amiga, vi que tinha algo transversal ali. Tinha gente feliz. Tinha contacto. Tinha afecto. Tinha aproximação, mesmo com a distância.” Os modelos não sabiam que estavam a ser fotografados até ao dia em que o publicitário meteu tudo num site e mostrou a cada um o que andava a tramar. “A reacção foi maravilhosa. Toda gente adorou, elogiou e, num geral, quebrou uma tendência que temos de não gostarmos de nós mesmos nas fotos. Mas é na imperfeição e no sorriso aberto que as pessoas se enxergaram e ignoraram os seus defeitos.” 

Home Office Home regista, essencialmente, reuniões de trabalho, mas também há fotografias do pai de Guilherme a chorar ao ver o seu neto, da mãe “sempre a sorrir”, ou da amiga Lu Cani em Tóquio. A sequência de imagens que mais o marcou até agora foi a da colega Cuca a ser abraçada pelos filhos. “Para mim, essa é a melhor vacina já inventada. Um bom abraço.”

O projecto Home Office Home está para durar. Guilherme, de 33 anos, quer “fotografar mais amigos” – “gente que conheço, gente que não conheço, gente que me convidar, gente que se sente curiosa, gente que precisa de uma foto para algum fim específico. [Quero ser] quase um fotógrafo lambe-lambe – ou fotógrafo à la minute: um fotógrafo ambulante que faz retratos mas, dessa vez, apenas pelo digital”. Concluiu o amigo Pedrinho Fonseca, conjugando mais uma vez o verbo enxergar: “Home Office Home é um trabalho-prefácio. Inconcluso. Por não sabermos quando isso termina. Por não sabermos como isso termina. Por não sabermos se isso termina. É um convite a continuarmos nos enxergando profundamente. Mesmo sem saber quando, como e se isso termina.”

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Amar a Mar Batido
Nuno Miguel Dias

Portefólio: Fonte da Telha, um “lugar quase impossível”

Arte

É fácil esquecer que a Fonte da Telha não é apenas uma praia. Durante os meses de calor, os lisboetas agarram nos carros, entopem a 25 de Abril numa torreira de sol e monóxido de carbono, e vão desaguando ao longo da linha de praias da Costa da Caparica. O fotógrafo Nuno Miguel Dias mostra-nos como se vive na Fonte da Telha nos outros noves meses do ano. É essa a proposta de Amar a Mar Batido.

Teresa Freitas
Teresa Freitas

Portefólio: fotografia de algodão doce

Arte Fotografia

Ao início, os planos para o futuro passavam apenas por aliar o design à arte, através de projectos interactivos. Teresa Freitas, fotógrafa de 29 anos, ainda não sabia que a fotografia lhe tomaria conta da vida e que passaria a viver exclusivamente dela.

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José Sarmento Matos
José Sarmento Matos

Portefólio: os objectos em volta de José Sarmento Matos

Arte Fotografia

Quando em Agosto do ano passado José Sarmento Matos deixou o Reino Unido e regressou a Portugal, a capital continuava vibrante como já nos havia habituado desde que o fantasma da crise ficara para trás. Depois de vários anos a viver e trabalhar em Londres, o fotógrafo documental de 31 anos começava a ganhar um gosto especial por Lisboa e a ver a cidade como uma casa e um sítio onde se deixar ficar. Depois veio a pandemia e, à semelhança do resto do mundo, as paredes de casa foram a sua maior companhia. Mas nem por isso deixou de fotografar. Com recurso a uma câmara instantânea, começou a registar o que encontrava à sua volta. E foi através dos objectos que se reconciliou com o mundano.

Foi há seis meses, durante uma viagem, que Sarmento Matos começou a fotografar neste formato. Ao clicar no obturador, a câmara devolve o momento captado através de uma imagem meio tosca, que se eterniza em papel fotográfico. “Fiz um pequeno diário dessa viagem e foi, digamos, uma forma de passar a fotografar menos e de pensar mais no que queria registar”, conta à Time Out. O modus operandi foi replicado nesta série de fotografias, ainda que não tenha sido “algo premeditado”.

“Quando comecei, não sabia o que ia acontecer. Mas era uma oportunidade para olhar para minha casa e para o que estava à minha volta”. Não se trata só de fotografar, diz. O processo foi-se desenvolvendo. E assim foi caminhando para fora da sua zona de conforto. Os objectos do dia-a-dia, como a escova de dentes, a vista de casa ou o aspirador tornaram-se sujeitos fotográficos. As suas luzes, sombras – características muito presentes no seu trabalho – estão lá, mas há uma intimidade que difere do tipo de fotografia que lhe é conhecida.

“Não sou de Lisboa e estou cá a viver. Mudei de casa e agora estou perto do rio. Comecei a olhar para a cidade de uma forma diferente”. Com o confinamento, o fotógrafo teve tempo para “parar e pensar”. Resolveu afastar-se das “repetições de informação” e não cair na tentação de ir à procura do “exótico”. Dos hospitais e dos lugares que tantas vezes aparecem retratados nesta avalanche de imagens relacionadas com a pandemia. “Neste tempo, repensei coisas no meu trabalho. Fotografei esses mesmos sítios porque se tratava de trabalho pago, mas tinha vontade de explorar o que estava à minha volta”, justifica.

“Tive a iniciativa de documentar as coisas com as quais mais me relaciono. E uma das minhas questões na altura de contar uma história prende-se com o que me motiva a ir à procura dela”. Neste caso, o fotógrafo descobriu a beleza das coisas inanimadas. E criou um conjunto de imagens que evocam pinturas de estilo natureza-morta. Neste exercício introspectivo, Sarmento Matos encontrou também semelhanças na forma de fotografar com o seu trabalho de 2014, sobre violência doméstica em Portugal, Virar a Página. Nele combina retratos de pessoas e pormenores relacionados com episódios de violência passada.  

“Desde então que não voltei a fotografar detalhes e objectos”, nota. Mas as fotografias do mundano aqui mostradas podem quase ser entendidas como retratos. O fotógrafo movimenta-se à procura de uma luz, de uma sombra, de determinada composição. E os objectos não se mexem, tal como quem posa para um retrato.

+Portefólio: os nenúfares de Maria Sécio

Interior
Ricardo Lopes

Portefólio: em busca das histórias que ficaram esquecidas no Interior

Arte Fotografia

Vila Cã, perto de Abiul, em Pombal, é uma das muitas terras do país cuja existência apenas se torna evidente quando dela se fala. De outra forma, permaneceria intocada, num silêncio apenas quebrado pelos cerca de mil habitantes que lhe dão vida. As raízes da família de Ricardo Lopes, fotógrafo de 29 anos, estão lá. Foi nessa terra que os avós fizeram vida, que o pai e os tios cresceram, para já mais velhos deixarem a aldeia da infância à procura do bulício da cidade e de uma vida melhor.

O abandono a que esta pequena povoação foi votada no decorrer dos anos foi o ponto de partida para Interior, um projecto que procura documentar as gentes que habitam o interior de Portugal. Ao longo de três meses, em 2019, o fotógrafo viajou de autocaravana por Pombal, Ferreira do Zêzere, Figueiró dos Vinhos e Coimbra, à procura de uma população envelhecida e de um exôdo rural do qual faz parte.

“Estamos a falar de uma zona muito envelhecida, muito despovoada, em parte porque alguns emigram e nunca mais voltam, ou regressam sazonalmente”, conta à Time Out por telefone. Quando se tentava aproximar de quem encontrava, via-lhes o medo e a desconfiança no rosto. “Muitas vezes só queria conversar e as pessoas tinham medo de mim. Quando vêem alguém de fora sentem-se vulneráveis, porque estão ali no meio, como que esquecidos por todos.”

Ricardo olha para o problema da desertificação de uma forma simples, quase como se se tratasse de um círculo vicioso. “Se não há pessoas, não há oportunidades de desenvolvimento. Como não há oportunidades de desenvolvimento, tentam sair de lá mais rapidamente”. Mas a sua dimensão é muito mais complexa. Quando fotografava os desconhecidos que abordava à beira da estrada, enquanto trabalhavam os campos, ou nos pacatos cafés que ali assumem importância de assembleia, perguntava-lhes o que havia mudado nos últimos tempos, como tinham sido as vidas deles enquanto cresciam.

“Estas pessoas sentem alguma solidão. As coisas por que trabalharam ao lavrar os campos, as famílias que lutaram para construir, resultaram, de certa forma, infrutíferas”. As parcelas de terreno estão agora ao abandono. Aos que ficaram, falta-lhes a força para arear os campos. “Há uma certa nostalgia nestas pessoas”, diz. “Reconhecem que há melhores condições de saúde, de educação, mas sabem que, apesar de mais dura, antes a vida era mais descomplicada”.

Trabalhava-se, juntava-se dinheiro e comprava-se um terreno. Construía-se uma casa, tinham-se filhos e uma herança para deixar. “A subsistência estava, por assim dizer, garantida”, exemplifica. “Mas agora há só desilusão. Têm as casas, os terrenos cheios de mato, e os filhos e netos não vão viver na casa que foi construída para a família. É como se a linhagem acabasse ali.”

Mais do que um retrato de uma pequena área geográfica, o fotógrafo gostaria de alargar os horizontes e de ter a mesmo abordagem em relação ao que se está a passar no Alentejo, na zona raiana, no Minho. “Quero continuar à procura dos últimos testemunhos de uma memória e de um saber popular, para que seja um retrato abrangente do país”. Porque o tempo continua a passar e um dia “tudo será uma memória distante”.

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José Fernandes
José Fernandes

Portefólio: um mosaico iraniano

Arte Fotografia

Foi ao assistir a um dos programas de Anthony Bourdain, Viagem ao Desconhecido, que a curiosidade se instalou. José Fernandes ficou a remoer sobre como se faria à estrada para um lugar desconhecido, um lugar genericamente descrito como perigoso e hostil para forasteiros. A ideia ficou ali, a pairar sobre ele, até que seis meses depois, em Outubro de 2018, apanhou um avião e desembarcou em Teerão.

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