Ilustração de Tiago Galo
Ilustração de Tiago Galo

Nómadas digitais: quatro estrangeiros caidinhos por Lisboa

Lisboa tornou-se um destino preferencial para muitos empreendedores estrangeiros. Falámos com quatro deles.

Hugo Torres
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A Startup Lisboa nasceu para acolher boas ideias – surjam elas em Lisboa e em qualquer parte do globo. Desde que abriu portas, em 2012, já por lá passaram empreendedores de mais de 40 países. “Um dos papéis fundamentais da nossa actividade é integrar os empreendedores estrangeiros no nosso ecossistema”, diz-nos o director executivo da incubadora, Miguel Fontes, apontando para o programa Launch In Lisbon. “Nessas sessões falamos de questões de natureza fiscal, mercado de trabalho, vistos, incentivos e mercado imobiliário, ao mesmo tempo que organizamos actividades no sentido de introduzir estes empreendedores a players relevantes do ecossistema: empreendedores, investidores e incubadoras.” Fomos à procura de quem trouxe empresas e bagagens para Lisboa. A uni-las está o entusiasmo com que olham para a capital portuguesa.

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Quatro nómadas digitais em Lisboa

Sabine Seymour

Áustria, “jovem para sempre”
SUPA

Como é que um atleta, com um estilo de vida e uma alimentação saudáveis, desenvolve problemas de saúde típicos de quem faz más escolhas e geralmente associados ao vício e ao sedentarismo? Os médicos nem sempre sabem dizer porquê. Para perceber a fonte do problema, seria necessário ter dados sobre os pacientes desde a juventude, ainda com a saúde intacta. Talvez assim fosse possível criar medicamentos personalizados. Este foi ponto de partida de Sabine Seymour, que em 2016 criou uma startup para concretizar a ideia. “A SUPA é uma empresa que recolhe dados para serem  trabalhados por outras empresas, focada no estilo de vida da Geração Z e com o objectivo de usar esses dados para democratizar os cuidados de saúde”, começa por explicar. Como? “Pagando à Geração Z pelos seus dados biométricos com tokens, que depois podem ser trocados por dinheiro, produtos sustentáveis, doações solidárias, ou uma fracção da propriedade da SUPA.” A tokenização dos dados significa que a informação sensível, e que deve permanecer confidencial, é substituída por um equivalente que não tem valor nem significado fora do sistema que o produz. O que é parte fundamental na estratégia de sedução de utilizadores num tempo em que o destino dos dados é cada vez mais uma preocupação. Outra parte “Queremos perceber o impacto que o ambiente tem na nossa saúde.”importante é a monetarização dos dados por parte de quem os fornece e, por fim, há a finalidade de tudo isto. “Queremos perceber o impacto que o ambiente tem na nossa saúde e conhecer melhor os comportamentos de consumos da Geração Z no que diz respeito à saúde, à comida, ao desporto e ao bem-estar mental para responder ao crescimento dramático de doenças como a diabetes com programas de prevenção, ajudando a indústria farmacêutica a criar medicamentos personalizados”, esclarece Sabine Seymour, que se dedica a projectos de inovação tecnológica desde 1998. “Sou uma atleta 24 horas por dia. Tenho atenção ao que como, quanto tempo durmo, quanto me movo...” Mas, diz, essa atenção não é sistematizada nem pode ser usada em seu benefício caso venha a ter um problema de saúde no futuro.  Até agora. Os jovens de hoje vão ter “SUPA poderes”. A austríaca já viveu em Viena, Paris, Sydney e Nova Iorque, onde foi distinguida como o prémio Women in Tech. Decidiu regressar à Europa para montar este negócio, depois de ponderar mudar-se para Los Angeles. “Lisboa é um íman para mentes criativas e confluentes no espaço digital.”

Wendy van Leeuwen

Holanda, 31 anos
Secret City Trails

Amesterdão, Bruxelas, Londres, Madrid e agora Lisboa. Wendy van Leewen é uma cidadã sem fronteiras. Começou por formar-se em Estudos Europeus e, há dez anos, veio para a Nova School of Business and Economics fazer um mestrado em Gestão. Rendeu-se imediatamente aos encantos da capital portuguesa. “Foi amor à primeira vista. Há uma energia incrível nesta cidade – estava cá nessa altura e dá para a sentir agora. O charme, a nostalgia, as vistas, o sol, o vinho, as praias próximas – e os humanos formidáveis”, enumera. Não ficou logo. Regressou a casa, fez voluntariado no Sri Lanka, trabalhou para grandes marcas (Chiva, Booking.com) em programas de aceleração e fundos de investimento destinados a startups vocacionadas para a sustentabilidade. Construiu uma rede de contactos. Até que, numa noite fria, teve uma ideia: descobrir as cidades através de jogos, resolvendo enigmas que levam os participantes de sítio em sítio, de descoberta em descoberta – “no caminho aprende-se sobre história, cultura, arte, à medida que se vão revelando dicas para bares, cafés...” Não teve a ideia sozinha. A seu lado, tinha um copo de vinho e a amiga Kristina Palovicova, com que viria a criar a Secret City Trails. Em 2017, um programa da incubadora Beta-i trouxe-as para Lisboa. Só aí é que puderam concentrar-se neste projecto, destinado tanto a lisboetas como a turistas. “No início queríamos que os locais se apaixonassem pelas suas cidades. Queríamos experiências que não passassem pelos sítios hipsters a que vamos todos os fins-de-semana ao brunch”, sublinha Wendy. A Secret City Trails tem agora mais de 100 jogos para descobrir os segredos de 40 cidades europeias (entre as quais Lisboa, claro). “Hoje, os jogos são feitos por locais. Qualquer um pode criar aventuras connosco e ganhar algum dinheiro com isso!” A meta é chegar aos 3000 jogos em mais de 450 cidades até 2023.

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Isma Chanez B. e Gaetan Gimer

França, 31 e 30 anos
Klow – Ecological & Ethical Fashion

A indústria da moda está entre as três maiores poluentes do mundo. A fast fashion dá um contributo decisivo: a produção em massa de roupa representa uma pegada ecológica desmesurada e um nível de desperdício incomportável para o planeta. Mas não tem de ser assim. “Há milhões de pessoas à procura de uma alternativa sustentável”, diz Isma Chanez, criadora de uma plataforma onde podemos encontrar “moda ecológica e ética” – a Klow. “Criei-a para ter um impacto positivo. A Klow é o destino online para quem quer aceder a estilo sustentável.” Isma cresceu em Paris, o berço da moda, e trabalhava no sector há quase oito anos quando se deu o clique: “Quando percebi quão nefasta esta indústria era para o ambiente e para os trabalhadores têxteis, decidi abraçar a mudança.” Primeiro como consumidora, mais tarde como empreendedora. Para criar esta startup, juntou-se a Gaetan Gimer, um apaixonado pela natureza formado em gestão e finanças. Mudaram-se para Lisboa há dois anos e meio. Instalaram-se no Impact Hub Lisbon e agora estão na Startup Lisboa. “Para abrir uma empresa, este é realmente o sítio certo na Europa! Há muitos espaços e uma grande rede”, nota Isma, que já viveu na Cidade do Cabo. Gaetan passou por Londres, El Paso e Joanesburgo. Estabeleceu-se em Lisboa – e para nada menos do que mudar o mundo: “Auditamos todas as marcas e cada peça de roupa. O objectivo é também informar e inspirar as pessoas para um estilo de vida sustentável. A Klow é o amigo que dá conselhos sobre como escolher um produto que dure e que quebre as regras da fast fashion”.

Três perguntas a Paddy Cosgrave

Presidente executivo da Web Summit

Como é a vida de um empreendedor em Lisboa?
A Web Summit chegou no momento certo, e também beneficiou da popularidade de Portugal. O país tornou-se num destino muito desejável. Houve um grande investimento das autoridades portuguesas no apoio ao crescimento dos ecossistemas de tecnologias e de startups. Isso tem sido fundamental na atracção de gente interessada em investir em Portugal e na crescente visibilidade internacional do país.

Como é que Lisboa está a contribuir para o sucesso da Web Summit?
Lisboa é uma cidade vibrante neste momento. Está a tornar-se um hub tecnológico e estamos cada vez mais entusiasmados de estar aqui. O investimento da Web Summit no crescimento da operação de Lisboa é um símbolo do nosso compromisso com a parceria de dez anos que assumimos com Lisboa e com Portugal. Testemunhámos em primeira mão quão activa a cena tecnológica e das startups é em Portugal actualmente, e estamos empolgados em continuar a envolver-nos com a comunidade. A nossa parceria com Portugal dá previsibilidade aos muitos participantes da Web Summit, de mais de 170 países, e aos nossos milhares de parceiros e expositores. Também dá previsibilidade ao país anfitrião e à nossa equipa de quase 200 pessoas em Dublin e nos nossos outros quatro escritórios no mundo.

Onde se vê daqui a dez anos?
Na Web Summit, acreditamos que criar uma camada de software que melhora milhões de eventos em todo o mundo é uma oportunidade incrível. Fazer a ligação entre pessoas com grandes ideias e os accionistas certos no mercado, sejam eles consumidores ou investidores, é o que faz o mundo avançar. E ansiamos por dedicar muitas décadas de trabalho a fazê-lo.

Lisboa inovadora

  • Coisas para fazer
Oito startups de Lisboa que inspiram a cidade inovadora
Oito startups de Lisboa que inspiram a cidade inovadora

Lisboa está a tornar-se um grande centro de inovação. Nunca houve tantas startups, incubadoras, programas de aceleração e espaços de cowork. Lisboa será a casa da Web Summit para os próximos dez anos – e isso não é por acaso.

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