Tiago Salazar. Confissões ao volante

O ‘Moturista’ Acidental [em Lisboa] é o novo livro de Tiago Salazar, jornalista, viajante incansável, condutor de tuk-tuk nos anos mais recentes. Conheça algumas das melhores histórias a bordo

Fotografia: Manuel Manso

A história, exemplo hilariante e passada a crónica com o título “O Conquistador”, é descrita pelo próprio: “apanhei um luso-suíço, que tinha tido um ataque cardíaco e estava já no recobro. Apanhei-o nos Restauradores, estava acompanhado por uma senhora, e diz-me: “O senhor leva-me a um motel?”. Acabou por me explicar, tratava-se de uma amante “arranjada no aeroporto”, tinha outra no Porto e a mulher estava na Suíça”, recorda Tiago Salazar. “O homem gabava-se: ‘chamavam-me o homem-aranha!’. Ainda pensei que fosse duplo de cinema. Não, o tipo montava vidros em arranha-céus.”

O ‘Moturista’ Acidental [em Lisboa] é o novo livro de Tiago Salazar, jornalista, viajante incansável, condutor de tuk-tuk nos anos mais recentes. “Estes carros permitem estas confissões insólitas. O carro é o confessionário de um consultório médico, como diz o Ferreira Fernandes no prefácio”, concorda, por entre risos.

Mais uma história, na primeira pessoa. “Um casal de cubanas, de Miami, ou seja, Time Out Lisboa 16 – 22 Agosto 2017 pós-revolução, lésbicas, chiques, malas Louis Vuitton, apanhadas à porta de um hotel de luxo. Pediram uma hora de viagem, gostaram muito, esticaram para as três horas. No fim da viagem, querem pagar-me dez ou vinte euros. Ainda pensei que era uma graça de mau gosto. Não. Uma sai por um lado, a outra, pelo outro… e pisgam-se”. A crónica chamou-se “Viva Fulgêncio!” e a explicação não é menos mirabolante: “uma delas disse que era da família do Fulgêncio Baptista… acharam muita piada, eu chamar-me Salazar… por via das dúvidas, evitei a política nas conversas”, graceja.

O livro (com capa e ilustrações de João Fazenda) aborda passeios e personagens. Conta episódios divertidos. Mas também nos fala de uma nova Lisboa e de novas quezílias, como alguns dos textos em que Salazar aproveita para zurzir “forte e feio” no que considera serem excessos de zelo dos agentes da autoridade: “o guarda Seleiro é um funcionário diligente no reino da estupidez e da prepotência acéfala”. Título da crónica: “O Triunfo do Porco”.

Noutras páginas, aborda o imaginário do veículo, a sua história. “Conto numa das crónicas a responsabilidade do Federico Fellini para que este carro tenha a popularidade que tem, ele pôs o carro no La Dolce Vita… isto é como um Aston Martin dos pobres… e tem tudo a ver com Lisboa e as suas ruas estreitas”, considera.

Pelo meio, algumas das crónicas fazem as vezes de reflexão ideológica: “No dia H, da queda do PAF, saí à rua com laivos de esperança” (“Escritos Políticos III”). Outra, dedica o seu espaço a um camarada jornalista, Frederico Duarte Carvalho, motorista de semelhante geringonça (“ele é que me convenceu a vir conduzir isto”), e à forma como se inspirou numa estátua, para elaborar um romance em torno de João das Regras.

Outra ainda, fala-nos sobre o senhor Paulo, introdutor deste transporte no quotidiano alfacinha contemporâneo. Chama-lhe “O Padrinho”. Nem todas as histórias entraram no livro. E algumas, bem rocambolescas. “Duas senhoras quiseram a minha companhia… pós-veículo. Foi o primeiro serviço que eu fiz num tuk-tuk – a primeira vez que fui para rua, surgem-me duas senhoras, a perguntarem se posso estar com elas durante a tarde, porque só tinham voo à noite. E pagavam-me! Eu achei aquilo uma provocação… ou uma praxe. Pensei que era o dono dos carros a praxar-me. Só podia ser! Não fui… não sou nenhum anjinho, mas não fui”, recorda, divertido com o insólito.

Entre a erudição e a ironia desbragada, Tiago Salazar vai construindo uma forma de estar, amealhando experiências para futuros livros. “Não faço isto a tempo inteiro, vou escrevendo sempre… isto é um manancial de histórias. Ao final do dia, quando vou para as garagens, que são na Graça, costumo sempre apanhar pessoas de idade que não conseguem lugar no eléctrico 28”, conta-nos. Em súmula, lemos as primeiras linhas da sua “Teoria Geral da Felicidade”: “Vida orientada para um par de propósitos: ser feliz e ser muito feliz. O preço? O que fazer? O modus faciendi? Há que perguntar ao Russell, ao Miguel Real ou à Linda Lovelace e ao Nacho”.

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