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Humorista, Stand-up, Salvador Martinha
©Manuel MansoSalvador Martinha

Salvador Martinha: “Uma piada é como uma tese: é bom que esteja bem sustentada”

Salvador Martinha é o novo cronista da revista Time Out Lisboa. Conheça melhor o humorista que costuma falar a sério.

Escrito por
Renata Lima Lobo
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Salvador Martinha estreia-se como cronista da revista Time Out Lisboa na sexta-feira, 9 de Julho. Falámos com o humorista sobre o palco, mas também sobre futebol, rótulos e o destino.

Tens memória daquela tua primeira graça que meteu toda a gente a rir?
Lembro-me da primeira vez que percebi que se podia ter graça, ou que era permitido a uma criança ter graça. As pessoas não assumem que o humor de uma criança é premeditado, e eu lembro-me de perceber que podia premeditar. Chegar à sala e dizer: “O meu pai é um cavaleiro”, quando queria dizer “é um cavalheiro''. E fazia propositadamente para as pessoas depois dizerem “Ai, que querido, ele disse cavaleiro e queria dizer cavalheiro, que graça”. Achei fascinante, porque o humor é também premeditar um bocadinho do futuro. O humorista está sempre um bocadinho à frente das pessoas no tempo e a minha primeira percepção do que era o humor também era isso: controlar o que se ia passar segundos a seguir.

O que teria acontecido se não tivesses piada? Acabavas o curso de Marketing?
Eu acho que o humor surge um bocado por acaso, porque as coisas começaram a correr bem, mas na maior parte das vezes eu falo a sério. Uma frase que seria interessante para a minha lápide é: “Eu estive sempre a falar a sério, as pessoas é que se riram.” Eu falo a sério, só que às vezes as opiniões podem ser disruptivas ou as pessoas não estarem à espera e riem-se. Mas o que me fascina mais é pensar nas coisas de várias perspectivas. O meu discurso acabou por tornar-se humorístico, mas pensar nas várias perspectivas de cada ideia é o que me fascina no humor.

Podemos falar sobre a tua passagem pelo futebol na Associação Desportiva de Oeiras? Ainda há uma fotografia tua no site da Federação Portuguesa de Futebol.
Sei, as pessoas relembram-me, porque estou horrível.

Estás é muito novinho. 18 anos, não é?
É fotografia de juventude.

Mas tinhas jeito? Qual era a tua posição?
Era médio-esquerdo e podia jogar na direita. Mas tinha jeito para futebol e para desporto no geral, tanto que chegou a ocorrer-me ser professor de Educação Física, vê lá tu. Sempre gostei muito de desporto e ainda hoje gosto. Acho que a felicidade passará um bocado por ter mais tempo para fazer desporto.

Mas vens de uma família ligada à cultura há já muitas gerações. Achas que isso te deu mais espaço para a criatividade?
Acho que sim. Eu fui educado a respeitar muito os artistas, a pensar que o poeta é a pessoa mais importante dentro de todo o tipo de pessoas. Foi-me passado um fascínio pelos artistas que está completamente enraizado em mim. O meu tipo de pessoas, as pessoas que me fascinam, são sempre os artistas. Se está ali um homem de negócios multimilionário, preferes ir falar com ele ou com aquele sem abrigo que é poeta? Nem hesito e vou para o poeta.

Uma vez disseste que não seguiste jornalismo porque dá trabalho. Mas escreves espectáculos e argumentos, estás na rádio, fazes publicidade, tens um podcast [Ar Livre]... Isso não dá trabalho?
É verdade. Mas na minha cabeça sempre foi mais simples, desde o início, mesmo quando o humor não era uma indústria como é hoje. E havia até mais caminho profissional e de rentabilidade no humor. Nas faculdades de jornalismo, imaginei que eram sempre 5000 pessoas para uma vaga. Depois tinha primos jornalistas e sempre me pareceram mal pagos, sempre me pareceu um trabalho muito mal recompensado em todos os aspectos.

A primeira vez que subiste a um palco foi com o Levanta-te e Ri ou fizeste um test drive primeiro?
A primeira vez no Levanta-te e Ri foi em Julho de 2003, e a minha primeira vez foi em Maio de 2003 no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz. Estreei-me logo numa sala nobre.

Não há registo de vídeo dessa actuação?
É capaz de haver, por acaso. Não sei onde é que ele está, mas deve estar em cassetes. E estar em cassetes não é estar perdido, pergunto eu?

Humorista, Stand-up, Salvador Matinha

Fazes autocensura nas coisas que escreves, tendo em conta as várias susceptibilidades? Ou estás-te a marimbar?
Faço, claro. Acho que é utópico alguém dizer que não faz autocensura. Fazemos sempre, logo com a premissa: esta ideia é boa ou é má? Já me estou a censurar. Agora, à medida que vou cimentando o meu percurso enquanto humorista, vou-me tornando mais livre naturalmente. Hoje em dia o que sinto é que uma piada é como uma tese: é bom que esteja bem sustentada. É preciso é não perder a coragem. Agora em qualquer obra está anexado o feedback, o mundo mudou. E isto tem um lado bom e um lado mau.

Qual é o lado mau?
É matar os artistas aos poucos a nível de coragem. Imagina, quando se fazia comédia nos anos 90 em Portugal havia crítica também, só que não havia uma forma de as pessoas se manifestarem em massa. Agora através das redes sociais as opiniões são em massa e isso pode fazer com que os artistas se diminuam. “Vou-me estar a meter nisto para quê?” Portanto, isso pode alterar um bocadinho a coragem artística que está a ser ameaçada. Mas não nos devemos deixar ir abaixo, porque depois, no fundo, não mata.

Mas acreditas que há limites para a comédia?
Eu defendo sempre que o humor para mim não tem limites. O que é sempre limitado é o sentido de humor das pessoas e de todos nós. Ou seja, tu tens um sentido de humor limitado e eu também. Há piadas de que eu gosto muito, há piadas de que eu não gosto nada. Temos que respeitar isso.

Há vários tipos de humor e até há literatura sobre o assunto...
Sim, de observação, o humor mais físico...

O teu é muito humor de observação.
Sim, o meu humor é considerado de observação. As pessoas gostam muito de catalogar. Mas já passaram 18 anos desde o primeiro dia e esse humor de observação já tem mais nuances. Só que não existem novos rótulos.

E acreditas em rótulos?
Acho que devia haver um refreshing de rótulos. Não quero ser eu a catalogar, mas o meu é um humor em que eu me ponho sempre em dúvida no meu próprio humor... Não sei como é que isso se chama. É um humor... não sei, estás a ver? Existem esses rótulos, mas já não são os mesmos. O humor negro também não é só humor negro. São rótulos antigos que se usam, devíamos mudar.

Foste presença assídua do Como é que o Bicho Mexe. Que importância teve para ti, como pessoa que também estava confinada?
Foi importante, porque apesar de eu ser um intérprete dessa novela, eu também me estava a entreter. E o entretenimento foi importante para toda a gente. Eu acompanhava, nem sempre estava as duas horas, porque tinha rádio no dia a seguir, mas como deves calcular para mim também é bom estar duas horas a abstrair-me um bocado, numa novela. Também teve um aspecto de espectador para mim, para todos acho eu.

O que nos leva ao Princípio, Meio e Fim, que se fez com uma espécie de irmãos de armas nos directos que vimos durante meses. Stressaste muito a escrever os episódios ou estavas como um peixinho na água?
Eu senti-me sempre confortável. Acho que foi dos projectos que eu gostei mais de fazer. Primeiro porque admiro muito aqueles três, apesar de sermos mais ou menos todos da mesma idade. Como eles já tinham feito Uma Nêspera no Cu, eu disse: “Malta, isto vai correr bem, estão vocês os três, eu venho só aqui curtir.” Senti que só tinha que falar quando tivesse alguma coisa para acrescentar ou para me divertir.

Tu desbloqueaste ali algumas cenas, que nós vimos uns bocadinhos.
É quase como no desporto. Se aquilo fosse futebol, tinha posições – e eles deixavam-me jogar solto. Muitas vezes estavam eles os três no computador e eu às voltas. E estavam muito mais preocupados de como é que a história batia certo e eu preocupado com uma fala disruptiva, em tirar o tapete. O Bruno é muito bom a perceber as valências de cada um e a deixá-los jogar onde eles são bons.

Humorista, Stand-up, Salvador Matinha

Nas críticas à série parecia que só havia dois lados da barricada, os que amaram e os que odiaram.
Eu fiquei contente com a discussão. Não achas que é o sonho de qualquer artista ter um objecto artístico tão falado, discutido e comentado? Os que gostavam davam na cabeça a dizer que os que não gostavam não tinham percebido, mas acho que não tem nada a ver com perceber. É gostar ou não gostar, e houve um grupo de pessoas que adorou aquilo. Para mim está conseguido. Poderíamos ter feito um formato sketch ou um talk show, que sabíamos que ia chegar a mais gente, mas apeteceu-nos ir para aquela loucura e conseguimos, criámos o caos.

O Stand-up na Hora que estás a fazer na RFM é feito sem guião, apenas com notas que tens no telemóvel. Tens aí alguma que possas partilhar? Assim só para deixar no ar.
Tenho. Eu já fiz de todas as formas, mas onde me sinto melhor é com tópicos. Tenho aqui uma que é “Gold diggers somos todos”. E já agora explico: às vezes as pessoas vêem um jogador de futebol e uma mulher. E depois alguém diz assim: “É amor é...”. E irrita-me essa frase, porque o sucesso de uma pessoa também é uma característica. Mas a nota que eu tenho aqui assim a bold é “O que é que tatuavam na cabeça?”. Imagina, eras obrigada a pôr uma palavra. E o que gostava de descobrir, ainda não descobri, mas é um bom exercício humorístico, é: qual é a palavra menos nociva? De todas, há uma que era menos má.

Mas escrita normalmente ou inverso para conseguires ler no espelho?
Não tinha pensado nisso. Mas eu gosto é de escavar, de descobrir onde está o ouro.

Outra coisa. Tu és o autor da tua página da Wikipédia?
Não.

Mas sabes o que está lá?
No outro dia mandaram-me um print screen a dizer que estão coisas estranhas.

Tens lá no currículo que, o “Salvador do Futuro”, em 2034, será um engenheiro social aeroespacial.
Isso deve ter sido de uma rubrica que eu uma vez fiz na RFM sobre a Wikipédia e depois alguém foi lá alterar.

É um bom exemplo sobre a credibilidade da Wikipédia.
Fake news.

E diz que em 2000 foste o mais jovem cirurgião de Cascais, credenciado pela universidade clandestina da Amadora.
Pois, não fui, infelizmente. Mas não me importava! Adorava, mas não fui eu.

Para acrescentar a este CV, és também o novo cronista da Time Out Lisboa. Sem grandes spoilers, a primeira crónica, da revista premium que sai esta semana, vai falar sobre mudança. “Baralhar e dar de novo” é uma máxima de vida para ti?
Na própria crónica lanço a dúvida. Tem muito a ver com o meu humor, estou sempre em dúvida, acho que até à hora da morte vou estar em dúvida. Cresci a pensar que sim, que a mudança é boa, mas com o passar do tempo também gosto de alguma estabilidade. Neste momento o meu sonho é ficar na mesma casa para sempre.

Também já experimentaste muitas.
É isso, e também que vais tendo um plafond de mudança. O meu já o estourei todo, agora queria um bocadinho continuidade.

Mas se fosses baralhar, que carta tiravas da manga?
Tenho algumas cartas na manga. A maneira como me estás a ver hoje, sobretudo na área do humor, acho que amanhã pode mudar. Podemos estar a falar de cinema, podemos estar a falar de outra coisa. O humor acaba por ser uma linguagem que me correu bem e fiquei a falar assim, mas o que me interessa são as várias perspectivas de uma coisa. Não preciso de ser humorista para sempre.

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