Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Samuel Úria: “Este pós-apocalipse está a ser um bocado estranho”
Música, Rock, Samuel Úria
Fotografia de Joana Linda Samuel Úria

Samuel Úria: “Este pós-apocalipse está a ser um bocado estranho”

Samuel Úria prepara-se para levar as suas ‘Canções do Pós-Guerra’ a Lisboa e ao Porto. Falámos com ele

Por Luís Filipe Rodrigues
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No seu novo álbum, Samuel Úria canta Canções do Pós-Guerra. Que guerra é essa? “Nenhuma em específico”, segundo ele. Há muitos tipos de guerra e cabem todos aqui. Depois da edição do disco e antes dos concertos de apresentação em Lisboa, na terça-feira 6, e no Porto, na quarta-feira 7, falámos sobre a música e o acto de a tocar durante a pandemia, mas também sobre a passagem do tempo e o fim do mundo.

Vamos começar pelo princípio. Qual é a guerra a que aludes no título deste disco?
Nenhuma em específico. A palavra “guerra” tem uma certa ambiguidade, cobre um grande espectro lexical. Pode ser o conflito armado literal, mas também uma guerra dos sexos, uma guerra geracional, um conflito interno. E o mesmo se aplica ao pós-guerra, que pode ser um momento de esperança, de desespero, de luto ou apenas de rescaldo.

E estas Canções do Pós-Guerra reflectem essa ambiguidade.
Sabes que escolhi o título antes de ter a maioria das canções feitas. Achei que não só a guerra, mas a própria noção de pós-guerra me poderia fazer escrever canções diversas e metê-las todas depois debaixo do mesmo guarda-chuva, da mesma sombrinha.

Há momentos de inquietação e fúria, mas a maior parte das canções é pesarosa, quase fúnebre. Muitas parecem ser sobre olhar para trás e não gostar do que se vê.
Há um desencantamento que quis trazer para este disco, que muitas vezes está presente nas minhas canções, embora normalmente esteja mais disfarçado. Neste quis que não estivesse só nas letras, que fosse reflectido nos arranjos. Tem a ver com esse olhar de que falas, que não é pessimista, que é realista sobre o passado, mas que se torna de alguma forma pessimista quando projectado para o que vem a seguir. Os dados que recolho do passado ou do presente não me dão a ideia de um futuro desafogado.

Em que sentido?
Estou ciente de que há clivagens na sociedade, há facciosismos, há extremismos, há coisas que estão a crescer no meu país que eu não esperava ver no meu tempo de vida. E o contexto de crise, de pandemia, com o qual não contava quando escrevi este disco no ano passado, agudizou aquilo que já estava a observar. Em vez de percebermos que temos de estar todos juntos para lutar contra isto, a pandemia agudizou as tais clivagens sociais.

Esta necessidade de olhar para trás e questionar não só o que foi feito, mas o que ainda se vai fazer, é uma consequência de teres chegado aos 40 anos, à meia idade?
Quando fiz 40 anos não me senti muito mais velho do que era quando tinha 38 ou 39, mas se calhar o arredondar do número dos 40 levou-me a fazer o rescaldo de uma década e a preparação para uma década nova. Porque há ali uma efeméride que é mais clara.

E não foste só tu que mudaste de década, foi o mundo. Entrámos nos anos 20.
Acho que, talvez por isso, existe uma reflexão que primeiro é pessoal e depois deixa de o ser. Começas a fazer uma revisão das décadas e dos grandes acontecimentos e a pensar no que não se fez – sei lá – desde o 11 de Setembro de 2001. Parece que o mundo acabou nesse dia, mas pelos vistos ainda não se reformulou. E este pós-apocalipse está a ser um bocado estranho.

Agora parece que está a acabar outra vez.
Exactamente. É estranho pensar na passagem do tempo e perceber aquilo que não foi feito, aquilo que está prestes a acontecer e é inevitável... Também é engraçado ver o quanto o mundo mudou e como até as mudanças para melhor trazem sempre um caudal venenoso. Há muita coisa que está a irrigar os terrenos à volta e está a dar frutos perigosos. E acho que a mudança de década, não só minha como do próprio mundo, convida a esse tipo de reflexões. Há um peso demasiado grande nos números redondos.

Escreveste o disco no ano passado. Quando tinhas pensado lançá-lo, originalmente?
Em 2019. A minha ideia era que este discocontemplasse também as canções do Marcha Atroz, o meu EP de 2018, que fosse maior. As primeiras canções que escrevi ainda estavam bastante ligadas a essas, em termos conceptuais. Só que depois por questões de calendário e porque, felizmente, ainda consegui tocar bastante em 2019, o disco foi sendo adiado. Comecei a gravá-lo no final do Verão, tive mais uma sessão em Dezembro, outra ainda no início deste ano, e a edição estava projectada para Março ou Abril de 2020.

Não achas estranho estares a lançar este disco só agora, num mundo tão diferente?
É estranho, mas nem tanto por estar desconexo da realidade. É o contrário. De repente tornou-se mais actual do que aquilo com que tinha contado. E isso também me traz quase um amargo de boca, por pensar que não será um disco de escape para as pessoas que estão a precisar de ouvir música como escape. Possivelmente, se tivesse de projectar um disco para 2020, depois de saber o que se iria passar, teria projectado um bem diferente.

Já deste um par de concertos neste mundo novo. Como têm sido essas experiências? Concertos com distância, com máscaras, sem cerveja na mão.
Isso afecta-te ao início, depois a coisa acaba por se normalizar. E a fome de palco ajuda a que seja a última coisa em que pensas. Queres é tocar, dar um espectáculo para os que estão. Não vais pensar nos lugares vazios, nem nas máscaras. Vais é pensar que não sabes quando é que podes voltar a fazer isto, e vais aproveitar ao máximo.

Estás a dizer que não sabes quando é que vais poder voltar a fazer isto, e é verdade. Como é que é essa insegurança, essa incerteza, te afecta a ti que vives disto?
Vou ser absolutamente sincero, e se calhar vou parecer a avestruz a esconder a cabeça debaixo da areia, mas neste momento essa incerteza e a ideia de que pode tudo acabar está sobretudo a ser canalizada para dar tudo nos próximos concertos. Estou a fazer muito poucos planos de contingência para a eventualidade de isto voltar tudo a cair outra vez. Tenho que dar o melhor no presente e isso obriga-me a que não esteja já tremendamente preocupado e cabisbaixo por causa da incerteza do futuro.

És um homem religioso. A tua fé ajuda-te a lidar melhor com essa incerteza?
Talvez. Embora eu seja de uma religião [baptista] que, em muitas coisas, é absurdamente racional e que não nos prepara para lidar com facilidades, pelo contrário. Crescemos com a ideia de que não podemos esperar que as coisas corram bem. Tens é de saber lidar com elas. Não é tanto o optimismo que é inculcado pela nossa religião, mas a resiliência.

Teatro Tivoli BBVA (Lisboa). Ter, 6, 21.30. 13-19€. | Casa da Música (Porto). Qua, 7, 21.30. 18€.

Conversa afinada

Musica, Indie, Noiserv
© Vera Marmelo

Noiserv: “Hoje não há tempo para ouvir um disco inteiro”

Música

Na recta final de 2019, David Santos, o cantor e compositor que conhecemos como Noiserv, anunciou que ia lançar um novo disco em 2020 e revelou uma das suas faixas, “Meio”. Desde então, todos os meses tem partilhado connosco uma nova canção folk, quase sempre erguida sobre loops e camadas de instrumentos. E a partir de sexta-feira vamos poder ouvi-las todas juntas, na ordem em que Noiserv acha que devem ser ouvidas, no álbum Uma palavra começada por N e um pouco por todo o país. O primeiro concerto de apresentação está marcado já para este sábado, no Teatro Cinema de Fafe, e ao longo dos meses de Outubro e Novembro deve andar em digressão pelo país. Se tudo correr bem, chega ao Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, no próximo dia 13 de Novembro.

 

O novo disco Uma palavra começada por N foi antecedido por nove singles, lançados mensalmente. Por que decidiste apresentar o disco desta maneira?
Acima de tudo, porque parece que hoje não há muito tempo para ouvir um disco inteiro. Parece que às vezes os discos se limitam àqueles dois ou três singles, e muitas músicas não são ouvidas. E quando comecei a pensar no disco, e no seu conceito, achei que não fazia sentido destacar à partida duas ou três músicas. Então decidi dar quase um mês a cada uma, para que pudessem ser todas ouvidas com atenção. 

Mas não vais conseguir partilhar todas as canções antes de lançares o álbum, na sexta-feira. Ou vais?
O disco tem 11 músicas, mas há uma que é instrumental, a de abertura, e não fez sentido ser partilhada neste registo, porque não é tanto uma canção. Mas as restantes sim. A décima vai sair agora, ao mesmo tempo que o disco. E aí as pessoas vão poder ouvir o disco com o alinhamento que eu achei que me fazia sentido, já tendo ouvido anteriormente e com o tempo necessário cada uma das músicas.

O primeiro single que lançaste, ainda no ano passado, o “Meio”, também era quase um instrumental.
Isso foi propositado. Quis surpreender as pessoas de alguma forma. E achei que devia ser a primeira também porque indicava uma ideia, um registo. Era uma música mais ou menos estranha, mas grande parte dos elementos mais estranhos que estão ali acabam depois por se espalhar ao longo de todas as músicas. Portanto, era quase um teaser do que vinha aí.

Quando partilhaste a primeira canção já tinhas todo o disco gravado?
Já tinha tudo. Quer dizer, acabei o disco em Novembro, mas depois ainda teve de ser masterizado. Ou seja, ainda não estava mesmo tudo pronto quando lancei a “Meio”, mas em termos de gravações e de estúdio e de mistura estava tudo feito. Só consigo assumir que vai sair um disco novo quando ele está todo acabado e já sei o que vai ser.

Curiosamente, pouco depois de lançares o “Meio”, o primeiro avanço deste disco, editaste um álbum diferente, o Soundtracks Vol. 1 (2019), com canções compostas para banda sonoras. O que te levou a editar essa compilação poucos dias depois de começares a apresentar o álbum de 2020?
Aquelas músicas fazem parte de um trabalho que eu tenho feito e que muitas pessoas não conhecem. E achei que fazia sentido tornar aquilo mais público, porque quem ouviu o meu disco anterior, de 2016, se ouvir aquelas músicas que fiz nos últimos quatro anos, e depois escutar Uma palavra começada por N consegue perceber uma ligação. Pode ser um exercício engraçado de fazer. Por isso achei que era uma boa ideia editá-las naquela altura.

Consideraste suspender este plano de apresentação do disco, com os lançamentos mensais, quando a Covid-19 nos fechou em casa e te forçou a cancelar os concertos? Ou achaste sempre que a ideia tinha de ser levada até ao fim?
A única coisa que me preocupou foi ter de adiar o lançamento do disco. Porque a ideia era dar um mês a cada música, e isso só fazia sentido se depois o disco saísse em Setembro. Mas decidi deixar a coisa correr, e depois mais tarde lidava com o que tivesse de lidar. E por muito chata que toda a situação tenha sido, houve um lado positivo. Comecei a perceber que as pessoas que me acompanham mais de perto sabiam que na última segunda-feira de cada mês ia haver uma música e um vídeo novo, e estavam à espera disso. Numa altura em que os concertos não existiam, em que estávamos mais tempo em casa e tudo o que era entretenimento estava reduzido quase a nada, estes lançamentos acabaram por ter até um papel.

Deve ser sempre complicado esperar quase um ano para partilhar ao vivo canções que estão prontas há muito tempo, e imagino que agora seja ainda mais estranho. Vais estar a tocar canções que foram feitas num mundo diferente. Isso faz-te impressão?
Não me faz impressão porque eu sempre trabalhei assim. Demoro muito tempo a terminar as coisas e só gosto de começar a lançar depois de estar tudo feito. E como as músicas são um pouco transversais a tudo o que seja exterior a mim, não é esta questão da pandemia que vai tornar agora a temática das músicas menos actual.

Mas imagino que a pandemia tenha mudado a tua vida, o que tu sentes. Mudou-nos a todos.
Sim, sim, sim. É claro que mudou muita coisa com a pandemia, porém não mudou a temática daquilo que é o disco, os receios que o disco tem. Eles existem na mesma.

Que temática é essa? Há alguma ideia transversal ao disco?
Muitas músicas falam de uma dificuldade que a pessoa às vezes tem de se auto-elogiar. E essa dificuldade manda-te para baixo, porque é difícil perceber o quanto as pessoas gostam daquilo que fazes ou não fazes. E isso faz-te duvidar. E essa dúvida faz-te questionar se deves ou não continuar. Músicas como a “Neutro” ou como a última do disco, que ainda não saiu, falam todas dessa questão. Da importância que a opinião dos outros tem sobre aquilo que tu fazes. E do medo que eventualmente tenho de me preocupar demasiado com isso, deixando de ser eu próprio.

Selma Uamusse
© Luis S. Tavares

Selma Uamusse: “A nossa mentalidade ainda não está descolonizada”

Música

Ela ilumina. Lembra a magia de uma canção, de fazer acreditar num mundo melhor, com mais amor. Selma Uamusse lançou em Julho passado o seu segundo registo em nome próprio, Liwoningo, que significa luz em chope, uma língua tradicional de Moçambique, o seu país natal. É um disco que acentua o património imaterial africano, mas que se mistura no mundo. Apresenta-o no dia 19 de Setembro no TODOS, um festival que celebra a interculturalidade.

O teu novo disco é um raio de luz. Onde é que encontras essa luz e esperança nesta altura?

Na realidade, este raio de luz que é o Liwoningo tem esta intenção já há algum tempo. Quando comecei a compor o disco, estava longe de imaginar que iríamos passar por uma pandemia e que viveríamos estes tempos tão estranhos, tão cinzentos. Mas para mim já era, de alguma forma, um pouco sintomático o modo como nos andávamos a tratar uns aos outros e ao planeta. Eu sou uma pessoa que me nutro muito da esperança e da alegria, mas em 2018, quando comecei a trabalhar neste disco, percebi e comecei a sentir que, apesar do avanço tecnológico, das grandes economias, do aumento do poder de compra, do aumento da esperança média de vida, da medicina avançada, havia também sintomas antagónicos e que neste desenvolvimento todo continuávamos a ter situações de guerra, de fome extrema, de preconceito, de ressurgimento de movimentos extremistas. E então senti uma necessidade de falar sobre sermos luz na vida uns dos outros, de não estarmos indiferentes às situações pelas quais os outros estão a passar, como os distúrbios mentais, que são também um assunto mito na ordem do nosso dia. Essa luz e essa esperança eu encontro obviamente na minha fé, mas encontro também nas pessoas que estão à minha volta e naquilo que eu considero que é o nosso poder transformador da sociedade, quando encontramos o propósito pelo qual nós vivemos.

O que é que podemos aprender num tempo de adversidade como este? Como gostarias que o mundo se transformasse após a pandemia?

Acho que no início da pandemia todos sentimos algo muito universal – acho que, pela primeira vez, as dores dos pobres eram as dores dos ricos, as dores dos mais velhos eram as mesmas dores dos mais novos. De alguma forma, esta pandemia tornou as desigualdades um pouco mais esbatidas. Obviamente que quem tem maior poder para ultrapassar as adversidades, e tem acesso a cuidados de saúde, viverá esta pandemia de uma forma completamente diferente de quem não tem. No entanto, acho que, se calhar pela primeira vez a nível global, o medo sentido por toda a gente nestas circunstâncias se tornou um denominador comum.

O que eu gostaria realmente é que esta pandemia nos trouxesse esse denominador comum em que somos todos muito mais parecidos e estamos todos muito mais próximos do que aquilo que muitas vezes queremos acreditar. Temos vivido de uma forma muito auto-suficiente, muito individualista, para a nossa espiritualidade, para o nosso sucesso profissional, para a nossa família, as nossas coisas, e sem dúvida que esta pandemia veio trazer esse sentido de percebermos que há males que podem afectar todos. Obviamente não terão as mesmas consequências, mas há coisas que nos podem afectar a todos.

Naquilo que diz respeito à minha área da música e da cultura, foi muito clara a fragilidade a que os trabalhadores estão expostos, principalmente as pessoas que trabalham na área do lazer, do entretenimento e da cultura. Foi muito evidente a fragilidade que existe na nossa profissão. E uma das coisas que eu gostaria que esta pandemia trouxesse de novo seria um maior respeito, uma maior atenção, uma maior preocupação e mais medidas que possam de alguma forma proteger um bem que é imaterial, que é a cultura, a música. Foi provavelmente um dos maiores alimentos neste tempo todo em que estivemos fechados em casa. A minha esperança é que o mundo se torne mais consciente e menos indiferente e que em particular na área da cultura possa haver maior apoio, maior respeito e maior atenção àqueles que cuidam da nossa alma.

Para uma artista que gosta de viver um concerto no meio do público, com muita entrega física e emocional, como é que estás a lidar com os distanciamentos nos concertos ao vivo?

Muito difícil para mim que sou uma pessoa física, que gosta de tocar as pessoas, que gosto de me aproximar, gosto de as sentir. Uma das principais razões pelas quais eu passo sempre do palco e dirijo-me até às pessoas é para esbater aquela visão que as pessoas têm do artista lá no palco, distante e inatingível. Eu gosto muito de fazer esse movimento para com o público, no sentido de agradecer a sua presença, no sentido de o conhecer melhor e mais de perto. Tem sido um desafio. Por outro lado, como qualquer desafio, também nos traz uma nova forma de conquistar as pessoas através do olhar – porque o olhar felizmente ainda não foi tapado pela máscara –, de falar um pouco mais aprofundadamente daquilo que é a minha mensagem e de sentir que as pessoas, pelas limitações que têm, estão mais atentas.

Eu acho que tem sido uma experiência muito boa, porque depois deste tempo em que estivemos em casa, todos nós, músicos, técnicos e público, estamos ávidos de momentos de entrega, de momentos em que temos esta comunhão musical. Obviamente é um tempo de adaptação, mas pelo menos os concertos estão a acontecer e isso para mim é muito bom. E a minha entrega emocional e até física continua a ser muito grande. Se calhar neste momento não posso tocar com as mãos, mas gosto de acreditar que continuo a tocar com o coração. E farei sempre música para o corpo, para dançarmos, para a alma, para nos emocionarmos, mas para o espírito também, para nos podermos elevar a um nível um pouco mais elevado.

Moçambique ainda é um país desconhecido para muitos portugueses. O que é que gostavas que os portugueses soubessem sobre Moçambique?

Moçambique é um país muito desconhecido para os portugueses e não só. Moçambique é a chamada "pérola do Índico" e eu acho que é realmente uma pérola que está bem escondida lá dentro da concha. Eu gostava muito, e tem sido um dos meus objectivos, não necessariamente ser embaixadora de Moçambique, mas deixar pelo menos alguma curiosidade. Moçambique tem pessoas muito especiais, é um país muito diversificado no que diz respeito às etnias, às culturas, é muito provavelmente um dos países onde eu mais vi um melting pot de pessoas de diferentes etnias, há uma miscelânea muito especial que faz com que haja um respeito e uma honra muito grande. Acho que essa é uma das grandes belezas de Moçambique – sem esquecer as paisagens, que é daquilo que as pessoas mais ouvem falar, das praias, das áreas florestais.

Mas há algo que eu tenho tentado trabalhar, definir e explorar que é este lado do património cultural e do património musical. Temos muitos tipos de dança, muitos tipos de ritmos, há uma riqueza enorme nas polifonias, nas polirritmias, temos muitas línguas oficiais, sem falar nos dialectos, e isso traz uma enorme diversidade a um povo que é relativamente discreto, mas quanto a mim muito especial, muito bondoso. E que tem conseguido ultrapassar dificuldades gigantes como fome, secas, cheias, ciclones, guerras, de uma forma muito honrada, mas sempre a olhar para o futuro com muita esperança.

O racismo começa a ser mais mediatizado, mas sempre existiu e sempre foi silenciado. Como é que tem sido a tua vivência como mulher negra em Portugal?

Vivo em Portugal desde 1988 e durante muito tempo sentia aquele racismo disfarçado, das pessoas que sempre me consideraram a preta, mas diferente, a preta especial, a preta que cheira bem, a preta que não rouba, a preta que fala bem. E eu fico muito contente que neste momento o racismo seja, não necessariamente mediatizado, mas que esteja cada vez mais exposto. Para pessoas que não têm tido a sensibilidade de acreditar que existe racismo em Portugal – porque existe –, o que me parece é que falamos de uma questão que durante muito tempo era uma espécie de hemorragia interna que não era visível para toda a gente e que neste momento está exposta. E, como qualquer fractura exposta, ela precisa de ser tratada e de ser sarada. Quando temos uma doença, nós precisamos de a diagnosticar e de saber o que aconteceu e o que está por detrás. Esta não é uma questão da moda – porque temos um movimento Black Lives Matter, e ainda bem que existe, porque cria maior sensibilização e maior consciencialização –, mas estamos a falar de um problema que existe não só na Europa mas também em Portugal, derivado também de todo o processo dos “Descobrimentos”, da escravatura, da colonização, e que eu tenho vivido na pele de muito perto, de várias formas.

Passei por imensas situações de preconceito e de racismo claro e evidente. Obviamente não encerro a minha existência só enquanto mulher negra e emigrante e na diáspora, mas isso tem criado condicionantes para maior dificuldades em determinadas áreas. Mas tal como essa etiqueta, também poderia ter outras etiquetas que não têm facilitado a minha convivência, mas fico honestamente muito feliz que haja espaço para nos escutarmos uns aos outros, para nos ouvirmos e para percebermos que esta ferida tem de ser sarada. E ela só pode ser sarada se for falada, discutida e tratada com o carinho que deve ter.

O que é preciso para Portugal reconhecer que é um país racista?

Reconhecer que Portugal é um país racista é o mesmo que reconhecer que existe racismo em Portugal. Para algumas pessoas, a expressão “Portugal é um país racista” é uma frase muito ofensiva e efectivamente as palavras têm muito poder e ninguém quer abraçar isso de ânimo leve. Há sempre uma sensação de desconforto – se eu não me sinto racista, por que é que eu hei-de dizer que Portugal é um país racista? Mas quando existe racismo, isso torna-se parte da identidade de um país.

Acho que é muito importante reconhecer que não somos todos tratados da mesma forma. As oportunidades não são iguais e existe ainda uma mentalidade não descolonizada por parte de muitas pessoas que ainda vêem os pretos como os serventes, os lacaios, aqueles que estão numa posição inferior, que falam menos bem, que precisam de ser educados pelo branco. Eu acho que é preciso fazer um reconhecimento de que existe uma situação histórica por detrás que nos faz ter um racismo que está de tal modo estruturado na nossa mente e na nossa forma de estar que já o tomamos por normal.

Um dos maiores desafios é quando temos que nos colocar numa posição que nunca vivemos. Obviamente que não podemos fazer isso assim num clique, mas podemos parar, pensar, escutar. Ouvir quem tem passado por racismo e não partir do pressuposto de que a comunidade negra se auto-vitimiza e que acha sempre que tudo é racismo. Porque efectivamente muitas vezes nos temos silenciado enquanto comunidade negra e neste momento precisamos de falar. Precisamos de falar das dores que temos sentido, nas dificuldades em encontrar emprego, na dificuldade de enviar um currículo com fotografia a pensar que isso irá tirar oportunidades, nas dificuldades em coisas tão simples de ser adolescente, como saber que se calhar não vais entrar numa discoteca por ser negro.

É preciso falar, é preciso ouvir. É tempo de as pessoas ouvirem quem tem passado por situações de racismo e entenderem que não são só os outros, mas que a nossa mentalidade ainda não está completamente descolonizada. Isso faz parte da história e é importante reconhecer que a história moldou a nossa forma de pensar.

E temos que mudar essa mentalidade, essa forma de pensar. Ignorar e dizer que não há racismo, que não somos racistas, não irá mudar a forma como a sociedade está neste momento.

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Música, World Music, Mayra Andrade
© DR

Mayra Andrade: "Sinto-me em casa em Lisboa"

Música

É sempre problemático falar em “músicas do mundo”, no entanto é difícil evitar a expressão quando se escreve sobre Mayra Andrade. Afinal, ela é cabo-verdiana, nasceu em Cuba e viveu em vários continentes antes de começar a cantar e a ser conhecida em França. Hoje encontra-se radicada em Lisboa, mas continua a cantar e a viajar pelo mundo. Ou melhor, continuava. Em Março, foi forçada a cancelar uma digressão que, além de Porto e Lisboa, ia passar por cidades como Berlim, Hamburgo, Varsóvia, Londres ou Paris, e só agora é que começa a voltar aos concertos. Sexta-feira à noite deve actuar no Coliseu Porto Ageas, e no sábado vai dar dois concertos no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. O público fica em lugares sentados e relativamente distanciados, para garantir a segurança de todos.

 

Nasceste em Cuba, mas cresceste entre África e a Europa. Viveste em diferentes países e ouviste muitas línguas. Isso influenciou a tua maneira de ver o mundo?
Completamente. Hoje olho para trás e penso que isso me preparou para a vida que me esperava. Desenvolvi uma capacidade de adaptação e também uma abertura de espírito que influenciou imenso a forma como vivo e a música que faço. É claro que nem sempre foi fácil, principalmente quando era uma criança, perder os laços que criava e tudo isso, mas pronto. Foi como foi e só tenho de estar grata.

Onde é que te sentes em casa?
Neste momento sinto-me em casa em Lisboa. Mas também me sinto em casa em Cabo Verde.

E em França?
Em França vivi muito tempo, tive muitas oportunidades, construí uma carreira muito bonita, mas acho que nunca consegui sentir-me em casa.

Estás a viver em Lisboa há quantos anos?
Vim para cá há cinco anos. Tinha necessidade de um estilo de vida mais calmo, mais próximo de algo que consideraria uma casa. Nunca tinha vivido cá, mas vinha a Lisboa desde que nasci. O meu avô era português e passei muitas férias em Portugal.

Actuaste na final da Eurovisão em Portugal, há dois anos, com a Sara Tavares, o Branko, o Dino D’Santiago e o Plutónio. Já havia uma relação entre vocês todos?
O único que não conhecia muito bem antes era o Plutónio. Mas conheço a Sara há muitos anos, e o Dino e o Branko também. Foi uma experiência muito enriquecedora, porque temos todos os nossos projectos a solo e raramente temos uma oportunidade de estar juntos. Ainda por cima num acontecimento tão importante e com tanta exposição. Sou muito grata ao Branko por aquele convite para representar esta Lisboa de hoje.

Sentes-te parte da “nova Lisboa” de que o Dino D’Santiago fala?
Completamente. Porque o feedback que tenho, tanto dos meus amigos artistas como do público, é que sou de Lisboa, que isto é casa. E que é casa em toda a sua diversidade e beleza. Portanto, como não me sentir lisboeta? Como não defender essa nova Lisboa, quando somos parte dela?

Se não me engano o Manga é o teu primeiro disco sem uma única canção em francês. Porquê?
Não fazia sentido. Parecia-me forçado, porque estava num momento muito mais lusófono da minha vida e tinha uma visão para o disco que havia de se sustentar independentemente de gravar em francês ou não.

Como reagiu a tua editora, que é francesa, quando disseste que não ias cantar em francês?
Passaram um ano a tentar que gravasse uma música em francês. Disse que se me enviassem uma música linda de morrer, a que não conseguisse resistir, a gravava, mas não ia procurar nada. E foi o que aconteceu. Mandaram-me duas ou três, não gostei de nenhuma e portanto não gravei. E não fiz de propósito para não gostar. Não gostei mesmo.

Compreendo.
Acho que às vezes é preciso pôr um bocado os pés no chão e esquecer um bocadinho o marketing. É verdade que há coisas que são importantes e que temos de fazer para ajudar a promoção do disco, mas também é importante defender a minha liberdade artística e a coesão do projecto.

Como é que olhas para esse disco agora, mais de um ano depois da sua edição?
Continuo a olhar com muita satisfação. Foi um disco que demorou dois anos a nascer, porque inaugurou uma etapa nova na minha música. Ao início, muita gente não entendia o que queria fazer e demorei a encontrar os parceiros certos para concretizar este sonho. Entretanto, as músicas já evoluíram imenso em palco, e sinto que podia ter ido mais longe aqui e ali, mas mesmo assim é um disco que me orgulho muito de ter feito. Tenho muito amor por ele. Gosto de dizer que cada disco é um retrato de quem sou naquele momento, mas talvez o Manga seja o disco mais fiel à essência de quem sou realmente. Porque, como diz o Miles Davis, é preciso tempo para nos tornarmos aquilo que realmente somos.

Coliseu dos Recreios, Lisboa. Sáb 16.30 e 21.30. 27€.

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