Fora Sunglasses: óculos bonitos e uma loja no Chiado

Ao fim de quatro anos, a Fora abriu uma loja no Chiado. Fomos conversar com Miguel Barral, fundador da marca portuguesa

Fotografia: Arlindo CamachoMiguel Barral, à direita, com a equipa da Fora

Como é que foi ser uma das primeiras marcas portuguesas desta nova vaga?

Não nos sentámos a uma secretária a pensar no que seria um bom negócio. As coisas foram surgindo. Antes desta marca, tínhamos um projecto em que comprávamos e vendíamos óculos vintage. Surgiu essa oportunidade e nós agarrámos, um bocado por brincadeira. Estávamos em 2010. Éramos miúdos, estávamos na faculdade e foi um projecto muito engraçado, era algo que não havia, de facto. Comprámos um stock enorme de óculos originais dos anos 70, 80 e 90, marcas conhecidas, e começámos a vender aos amigos. Os óculos tinham qualidade, os preços eram super acessíveis. No início, nem sabíamos o que aquilo era, só depois fomos investigar. Éramos nós que comprávamos os óculos e vendíamos nas feiras. Sabíamos o que as pessoas procuravam e víamos as reacções das pessoas, até porque, na altura, não percebíamos nada deste mercado. Em 2011, abrimos uma loja nas Janelas Verdes. Vendíamos o que tínhamos e o que aparecia, não havia um fornecedor a quem pudéssemos encomendar mais óculos de um determinado formato. Não controlávamos a produção, mas eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, este poderia ser o caminho.

Em 2012, começámos a pensar melhor nessa ideia – ‘porque não?’. Ainda não havia a febre de marcas portuguesas que há hoje, mas sempre fez sentido. Nunca achámos que era má altura ou que o mercado estava saturado.

Mas com tantas marcas internacionais, o que é que vos fez pensar que podia correr bem?

Nós já sabíamos exactamente o que as pessoas queriam, pela experiência com a Stockglasses. Sabíamos que o mercado é dominado por grandes marcas, mas que, cada vez mais, a tendência é as pessoas terem coisas únicas e autênticas, não apenas mais uns óculos. E essas marcas também trabalham com preços muito inflacionados. Nós sempre quisemos combater isso, embora com mais custos, porque passámos a mandar fazer os óculos e os materiais são caros. No início, não tínhamos fornecedores. Fomos à procura e até começámos a produzir em Itália.

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E foi fácil criar uma marca destas de raiz quando nenhum dos sócios vem do design?

Muito complicado, sobretudo com o nosso budget inicial. Mais uma vez, começou tudo como uma brincadeira, claro que com um pouco mais de viabilidade. Não fizemos um investimento muito grande, aliás, o nosso primeiro logotipo foi péssimo. A primeira vez que ouvi o nome Fora, fez-me um bocado de confusão. Depois, fez todo o sentido: queríamos um nome português, curto e perceptível à primeira, porque nunca tinha havido nenhuma marca portuguesa de óculos e porque, naturalmente, queríamos ir para fora. Também reparámos que podia ser adaptado para ‘for a’. Queremos fazer óculos para toda a gente e a prova disso é que tanto vendemos a miúdas de 18 anos, como a senhores de 70. No mesmo modelo, tentamos ter detalhes mais trendy e elementos clássicos.

Olhando pata trás, eu não tinha a noção de que era tão difícil criar uma marca. Eramos putos de 22 anos, tínhamos a ideia e a ambição mas sem noção da realidade nem de como uma empresa funciona. Houve algumas dificuldades com os fornecedores, mas o próprio design nunca foi um problema. Sabíamos bem o que as pessoas queriam. Baseámo-nos nos best-sellers e na concorrência. Começámos com poucos modelos e, ao longo do tempo, temos vindo a lançar novas formas, novas cores e novas lentes.

E o que é que vos permitiu começarem a produzir em Portugal? 

Tínhamos alguns contactos na área, mas o sector da óptica é muito fechado e envelhecido. Tentámos perguntar a quem conhecíamos, mas muitos não queriam dizer ou não sabiam de nada. Havia muito receio da concorrência e de falar em valores. Hoje em dia, vemos gente a abrir restaurantes e a criar marcas, mas ninguém a pegar numa óptica. Ou passam de geração em geração ou estão envelhecidas e essa foi uma das razões para nunca termos posto os nossos óculos à venda em nenhuma. Resumindo, ninguém nos soube dizer que havia cá uma fábrica. Só há uma e é no Norte. Na altura, fomos para Itália. Em seis meses, passámos da ideia aos óculos no mercado. Arranjámos lá fornecedores e uma fábrica e só quando voltámos é que descobrimos esta. Tinha três ou quatro pessoas e estava sem trabalho. Na altura, o made in Italy até fazia sentido – a Ray-Ban é feita lá, a Persol é feita lá e tem muito mais reconhecimento internacional do que se fosse feito em Portugal –, mas quando entrei na fábrica, a minha opinião mudou completamente. Percebemos que o caminho era aquele, muito mais genuíno e autêntico. Começámos então a passar a produção para cá, não toda ao mesmo tempo. Hoje em dia, eles são 14 e isso deixa-me muito orgulhoso. Isto deu-lhes muita visibilidade e há quem chegue lá através pela Fora, a querer fazer coisas dentro do mesmo género, mas não vão longe porque é uma área mesmo muito complicada. É um produto que não é caro, mas é muito dinheiro. A pessoa tem de pensar mais. Em tempos, quis vender óculos, agora quero vender uma marca e isso é mais difícil. Quero que as pessoas olhem para a marca e que não vejam só óculos, mas tudo o resto que comunicamos: o feito à mão em Portugal, sobretudo.

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Mas achas que os óculos de sol são hoje um acessório mais valorizado?

O nosso design não é muito inovador. Temos os modelos clássicos e damos-lhes um ligeiro twist. Há clientes que olham para o design e adoram e há outros que olham mais para as lentes e que estão preocupados com a questão da graduação. Mas sem dúvida que as pessoas começam a olhar para os óculos de sol como um acessório de moda, sobretudo os homens.

A estratégia tem passado por um fora, mas por um fora q.b. Sempre foi pensada para ser assim?

Sem dúvida. Para termos ideia, no ano passado tínhamos 11 modelos e 85 por cento das vendas vinham de cinco. Fizemos a parceria com o Luís Carvalho, que é óptima em termos de comunicação, mas não é de todo o modelo que paga as contas. Sempre apostámos muito nos óculos que se usam hoje e que se vão usar daqui a cinco, dez e 20 anos, mas, ao mesmo tempo e sobretudo este ano, apostámos em dois novos modelos mais especiais. Temos os nossos modelos base, que vendem, mas queremos agora começar a fazer coisas um bocadinho diferentes, mas sempre vendáveis, claro. Daí o preço também. Podíamos ter os óculos mais caros para ganhar mais com cada par e vender menos, que é o que muitas marcas fazem. Só que muitas fazem os óculos aos milhares na China e com materiais não tão bons como os nossos. Nós acabamos por ser uma marca exclusiva a um preço acessível. Não é por fazermos os óculos à mão e não de forma automatizada que vamos pô-los a 300€. Por isso é que a nossa estratégia, em vez de ser de revenda para lojas, é vender directamente ao consumidor final.

Sim, a Fora sempre foi muito cautelosa quanto aos pontos de venda.

Sempre tivemos duas lojas, a da Álvares Cabral, a do Príncipe Real, que fechou e foi substituída pela do Chiado, e a loja online. Depois, temos um ponto de venda no Porto, a Araújo & Sobrinho, no Largo de São Domingos. Recebemos muitas propostas que recusamos, ou porque o espaço não faz sentido ou porque são ópticas e nós não nos identificamos com esse conceito. Tendo um espaço nosso, conseguimos transmitir tudo o que pensamos, o serviço, conseguimos mostrar a colecção toda e a pessoa fica com uma ideia da marca que não teria se entrasse numa loja e encontrasse um vendedor que nada sabe sobre a Fora. É esse o nosso caminho.

A passagem pelo Entre Tanto foi decisiva no percurso da marca?

Chegámos lá em Maio de 2014, um ano depois da criação da marca. Mas eu digo que o lançamento foi nessa altura. Era uma zona com muita gente e o conceito fazia sentido para nós. Foi nessa altura que também começámos a comunicar melhor a Fora. Por isso, sim, o Entre Tanto foi uma rampa de lançamento, também porque nos deixou muito mais expostos aos clientes estrangeiros. Tivemos lá três anos e teríamos ficado mais tempo se o espaço tivesse continuado, pelo menos durante mais seis meses, que eu queria fazer o teste das três lojas.

Vir para o Chiado já fazia parte dos planos há algum tempo?

Para mim sempre foi quase inatingível. As rendas são altíssimas, é só grandes marcas e por isso o Príncipe Real, na altura, fazia todo o sentido porque era um bairro com uma onda diferente, não tão bom para compras como o Chiado, mas com muito potencial para crescer. Como tinha noção de que o Entre Tanto era um projecto temporário, já andava à procura de um espaço há muito tempo. E ficámos com este, que era um talho e que precisou de muitas obras.

Agora, esta nova loja mostra o universo da Fora de uma forma muito mais completa.

Desde o momento em que se entra, que se tem uma percepção de marca totalmente diferente de outra loja de óculos. No Entre Tanto, era tudo low budget. Fomos à Feira da Ladra, comprámos umas malas antigas e fizemos o nosso próprio expositor. Hoje em dia, estamos a apostar muito mais no design. Trabalho com um arquitecto que fez as duas lojas e tentamos que a pessoa, mesmo que não procure uns óculos, olhe para a loja e tenha vontade de entrar. Na nova loja, temos um expositor com os óculos, no balcão há um tablet com um vídeo do processo de produção a passar e temos representados os vários passos da produção, porque não basta dizer que é feito à mão, é preciso mostrar que uns óculos destes dão muito trabalho a fazer, um trabalho minucioso, e que leva dias. Temos de mostrar isso para as pessoas valorizarem o produto.

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E quem entra loja já começa a ter noção disso?

Acho que o turista está mais habituado. Eu vou a Milão, Berlim, a Paris e vejo lojas muito bonitas. Cá, o lisboeta não olha tanto a esses pormenores. O nosso caixilho, por exemplo, é todo em vidro e assim entra muito mais luz na loja. Mas eu acredito que, a longo prazo, as pessoas vão dar valor a isso, até porque fizemos ali um grande investimento.

E neste momento, a Fora é uma marca financeiramente sustentável?

Sim. Isto tem sido uma aventura, porque temos conseguido crescer sem grandes apoios ou investimentos. Tem sido passo a passo e falo por mim, que neste momento sou o único sócio. A empresa podia estar muito melhor se não tivesse passado o que passou. Na altura, eramos três e se nos tivéssemos mantido todos focados na marca, acredito que isto já tivesse explodido. Quando um sai a mal, isso faz com que o negócio atrase. No ano passado, foi o João que optou por sair. Obviamente, eu tive de ter muita força. Se calhar era mais fácil desistir, mas acreditando realmente nisto e trabalhando todos os dias e não tendo férias, temos vindo a conseguir crescer gradualmente, todos os dias, de mês para mês.

E como é que é conduzir este carro sozinho? 

A marca tem um potencial brutal. E se nunca houve uma marca de óculos portuguesa de referência, tem de haver uma razão. Surgem várias marcas, mas não conseguem vingar. Ter uma marca não é só uma questão de ser especialista no design, na produção ou na comunicação, é preciso ser bom em quase tudo, se não a marca não vai para frente. E eu tenho conseguido rodear-me de pessoas capazes. Durante cinco meses, estive sozinho e percebi que é impossível fazer tudo. Sabia que tinha de fazer esse esforço para que a marca continuasse de pé, mas a partir daí tenho estado a criar uma equipa. Neste momento, temos um designer de comunicação, um gerente para a loja do Chiado, uma pessoa que me ajuda na gestão e que vai ser muito importante nesta fase de internacionalização. Depois temos o Vitor, o técnico de óptica que vai ficar responsável pela graduação de lentes e pela personalização, que passam a ser feitas na loja.

É uma nova fase para a Fora?

A marca está num óptimo caminho, mas estes seis meses são fulcrais, da abertura da nova loja até à internacionalização. Nós vamos fazer duas feiras, em Berlim e em Paris, que são as duas primeiras feiras internacionais onde vamos mostrar os nossos óculos. Não faço a mínima ideia de como vai correr, não tenho experiência nenhuma, mas tenho de tentar. Mas, se as vendas correm bem e sobretudo a estrangeiros, é porque eles gostam. E os estrangeiros estão lá fora.

Não é decisivo para a continuidade da marca. Eu adoro Portugal, mas é um mercado curto. Podia ficar cá, era giro, mas não ia ser desafiante. Queremos estar presentes em mais sítios e abrir mais lojas em Portugal, claro. Um dos objectivos é ter uma loja própria no Porto. Claro que há mais mercado para explorar em Portugal, mas nós preferimos ter poucos pontos de venda, mas bons. Não olho só à faturação, mas também a tentar enquadrar bem a marca nos sítios certos e depois, a longo prazo, crescer lá fora.

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