ModaLisboa: 50 edições, 50 perguntas a Eduarda Abbondanza

A directora da Associação ModaLisboa respondeu a tantas perguntas quantas as edições da ModaLisboa.

Fotografia: Manuel Manso

Fizemos 50 perguntas a Eduarda Abbondanza, directora da Associação ModaLisboa. O evento  regressa esta quinta-feira, dia 8, para a sua 50.ª edição.

50 edições, 50 perguntas

Considera-se o motor da ModaLisboa?
Um motor com muitos motores. Eu sou um motor porque estou cá desde que isto nasceu. Sou aquele motor que é permanente. Tenho ultrapassado muitas crises.

Qual foi a edição mais marcante da ModaLisboa?
Em 27 anos é muito difícil dizer uma que tenha sido a mais marcante. Por exemplo a Five Stars, a Play, a Move ou a Luz, da edição passada.

Maior barraca/imprevisto que já aconteceu numa edição da ModaLisboa?
A maior e única propriamente dita foi a não vinda do Galliano. Deu história pública.

O que é que acontecia antes que não acontece agora na ModaLisboa?
Durante muitos anos, eu, o Paulo Gomes e o João Bacelar editávamos um jornal que era diário. Quando os dias de ModaLisboa acabavam, depois de um estoiranço, iam todos embora e nós ficávamos até as 06.00 da manhã. Era o DailyModaLisboa. Depois começou a ser só um para os três dias e agora há o digital. Tinhamos que editar, escolher as fotos, imaginar temas. Era uma loucura.

O que a orgulha mais nestes anos todos?
Estes anos todos. E todo o trabalho que foi desenvolvido ao longo dos anos, que permitiu que outros players estejam envolvidos neste mundo hoje.

O que mudou na moda em Portugal desde a primeira edição?
Tudo. O maior objectivo era que se deixasse a designação e ideia de indústria têxtil e se trocasse por indústria de moda. Agora é uma indústria muito mais rica, engloba tudo, todas as actividades inerentes à moda. Quando começámos nem moda havia, só fenómenos, como a Ana Salazar. Para um país que tinha essa indústria têxtil tão marcada, fazer essa mudança de paradigma era muito importante.

Se tivesse que escolher um designer para vir apresentar uma colecção à ModaLisboa qual seria?
Não sei quem escolhia. A história do Galliano traumatizou.  Adorava ter um Alessandro Michele [da Gucci] mas nao faria sentido. Escolhia alguém da nova geração, mais disruptivo.

O que dizer às pessoas que vão à ModaLisboa só para aparecer?
Nada. Mas acho que hoje em dia isso já não acontece tanto, é residual. Moda não são camisas. Mas, em bom rigor, diria “olá, boa tarde”.

Há um look ideal para vir ver as modas?
Não. Não há looks ideais para ir a lado nenhum. Estamos a viver um momento em que as pessoas estão a viver uma grande liberdade individual.

É possível abrir a ModaLisboa ao público ou isso é uma utopia?
Nós já abrimos a ModaLisboa ao público, não podemos abrir tudo. Por uma questão de lotação e de segurança. Ainda na última edição, os desfiles da plataforma LAB foram todos abertos ao público, no jardim do Pavilhão Carlos Lopes. Mas são coisas que temos de comunicar mais em cima da hora. Se fizermos uma comunicação massiva podemos não ter a segurança necessária.

Se a ModaLisboa tivesse orçamento ilimitado, o que mudava?
Imensa coisa. Crescíamos. Nem precisava de um orçamento ilimitado, nem sei bem o que isso é, para dizer com franqueza. Bastava ter o dobro para investir. O crescimento da ModaLisboa significa o crescimento dos seus designers. 

Há algum sítio onde sempre quiseram fazer um desfile mas nunca conseguiram?
Há. Esta edição foi a primeira vez que tentámos e não conseguimos. Não posso dizer porque ainda não desisti para a próxima, mas era um sítio com muitas tutelas.

É workaholic? 
Já fui mais. Delego.

Quantas pessoas tinha a equipa na 1.ª edição e quantas são agora?
Na edição zero, no Pavilhão do Tabaco, andei a carregar cadeiras de ferro com o Pedro Felgueiras. Éramos quatro para comunicação, montar e pensar. No São Luiz já tínhamos equipas francesas. Agora temos uma equipa residente de oito e durante a edição somos 600.

Como é coordenar uma equipa desta dimensão?
É nem sequer pensar. Só agir.

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Alguma vez imaginou pensou estar à frente da ModaLisboa durante tantos anos?
Não. As coisas vão acontecendo. 

Designer português favorito?
Não consigo eleger.

Designer internacional favorito?
Também não consigo dizer um. Como amante de moda é impossível. Desde Comme des Garçons a Yohji Yamamoto, Vetements, Gucci…

Desfile mais inesquecível a que já assistiu?
Foi o Galliano ou o McQueen. Não foi tanto pelo desfile em si mas mais pelo ambiente e pela circunstância em que consegui o convite. Foi nas tendas da Semana de Moda de Paris, no Carré du Louvre. Não tinha como entrar mas quando começaram a distribuir as acreditações, à entrada, caiu tudo, eu ajudei, e ganhei coragem para pedir uma.

Quantas peças de designer tem no roupeiro?
Já tive um closet só de peças de designer mas depois engordei 12 quilos e comecei a oferecer. Ainda conservo o meu smoking Yves Saint Laurent e tenho um vestido Gucci icónico. E tenho uma sapataria que é um horror porque nunca uso...

Tem muitos sapatos?
Sim, e muitos que não foram usados. No que toca a sapatos gosto de coisas extravagantes.

Qual a última coisa que comprou numa loja de moda rápida?
As lojas de moda rápida irritam-me. Neste momento estou num conflito porque Portugal tem pouca oferta. Não posso comprar os básicos nos criadores enquanto não crescerem o suficiente para terem colecções de básicos.

Gostava de mudar de visual a alguém?
Eu não.

Quantas vezes por ano é que vai ao cabeleireiro? E qual é o seu cabeleireiro?
Todos os meses. Vá, de 3 em 3 semanas. Gosto que tratem de mim porque eu trato de toda a gente e o meu cabelo tem vida própria. O meu cabeleireiro é o Alessandro, um italiano que já me trata do cabelo há muitos anos.

Que peça ainda se vai usar daqui a cem anos?
Calças.

Qual foi a pior tendência dos últimos 27 anos?
Os crocs. E estão a voltar agora, esta coisa da Balenciaga...

O que é que jamais vestiria?
Há tanta coisa. Mas aquelas peças muito justas, agarradas ao corpo.

Qual é a sua cor favorita?
Preto e azul marinho.

Qual é o seu tecido favorito?
Gosto de algodão, caxemira e seda. Não gosto de materiais sintéticos, a não ser em roupas externas que não toquem directamente no corpo.

Pergunta que lhe fazem mais vezes sobre moda?
É sempre uma pergunta da ModaLisboa, normalmente qual a edição que eu gostei mais.

Já alguma vez lhe chamaram fútil por gostar de moda?
Não. Nem estou em meios que isso possa acontecer. Mas se já me chamaram, eu simplesmente não registo.

Qual foi a peça que mais gostou de desenhar?
Eu acho que um casaco é sempre o ferrari do guarda-roupa. O casaco tem uma complexidade a vários níveis. Eu sempre usei muitos casacos e, como tal, em qualquer loja eu estico os braço para vestir o casaco e consigo perceber logo se é bem feito ou não. O casaco é a peça.

Qual é a peça de roupa mais confortável?
Um vestido. Ou então jeans e uma blusa.

E a menos confortável?
Vestidos, mas no sentido de red carpet. Tudo o que seja de gala, e que tenha de fazer um esforço.

Qual é a peça de roupa mais barata que já comprou?
Comprei imensas camisas de algodão brancas no Laos.

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E a mais cara?
Um casaco. E que pesa 30 kg.

Quem é a pessoa com mais estilo em Lisboa?
Há imensas, há algumas, quero eu dizer. Acho que a Raquel Strada tem muito estilo, é gira.

Quem é a pessoa com menos estilo em Lisboa?
Não consigo dizer.

Existe uma maneira de vestir que distingue os lisboetas do resto?
Não exactamente. Quando se vive num sítio onde há de tudo, é fácil as pessoas se distinguirem. Claro que há clientes fixos dos criadores e aí eu consigo perceber o estilo delas.

A moda é uma indústria ou extrapola para uma forma de arte?
É as duas coisas. A arte também é uma indústria e portanto falamos das duas maneiras, porque a moda só se torna irresistível quando reflecte de alguma maneira ansiedades ou projecções nossas. Não conseguimos resistir àquela peça de roupa porque ela nos vai produzir emoções. Moda tem a ver com criação de linguagens, comportamentos, ultrapassar o tangível. Mas a moda tem uma produção muito rápida e a arte em geral não tem essa obrigatoriedade, vai acontecendo.

Ganga integral ou calças de renda?
Ganga integral para mim é complexo, mas os Marques'Almeida são pioneiros de uma ganga integral que eu conseguiria usar. Nos anos 90 usava imensas calças de renda. Mas depende muito. Uma pessoa que gosta de moda não tem esses travões.

Ténis ou saltos?
Saltos altos mas só se não forem muito altos. Eu ando muito rápido, até já tive aulas para andar mais devagar, porque me esbardalhava completamente. Ando sempre de um lado para o outro, escritório, faculdade, posso ter uma reunião. Por isso não podem ser saltos muito altos, até porque Lisboa não é fácil.

Se mandasse, eliminava a calçada à portuguesa ou mantinha?
Claro que não tirava a calçada mas acho que Lisboa está a fazer compromissos nesse aspecto. A verdade é que a calçada é linda, mas tem uma manutenção brutal e é muito perigosa nalguns sítios. 

Sítio preferido em Lisboa?
A minha casa. Eu estou aqui no centro e tenho de andar muito a pé… Gosto da Gulbenkian, da Fundação Champalimaud, que tem um lado zen muito bom, gosto do Jardim da Estrela, do Museu de Arte Antiga, que é quase uma segunda casa.

Restaurante favorito?
Todas as sextas-feiras vou experimentar um novo. Continuo a ser espontânea na cidade. Gosto muito do JNcQUOI, do Pap’Açorda. A última descoberta foi a Oficina, nas Escadinhas do Duque.

As redes sociais contribuíram para a democratização da moda em portugal?
Claro, para a democratização de tudo, não só da moda. As redes sociais e o digital revolucionaram tudo. Nós ainda somos da altura em que só fotógrafos e profissionais entravam nos desfiles, havia esse rigor, ninguém publicava nada antes de seis meses, mas neste momento as salas de desfile já são pensadas para os instagrammers, onde é que eles se sentam por causa dos ângulos, por exemplo. E como tudo, quando há democratização, a seguir vai ter de haver um fenómeno idêntico, que é a segmentação e o exclusivo. Isto são ciclos, portanto eventualmente isto vai inverter. 

Influencer português favorito?
As figuras portuguesas não são muito mediáticas. Os que estão no cartaz desta edição, por exemplo. Todos eles estão fora de Portugal a trabalhar e estudar moda. Sigo esses miúdos que mostram alguma coisa disruptiva.

Influencer internacional favorito?
Sigo o Maurizio Cattelan (@mauriziocattelan), porque adoro o conceito do Instagram dele. Sigo e acompanho o fenómeno do Palomo Spain e sigo as pessoas que fazem parte do movimento dele. Há uma americana que é artista plástica que eu sigo, a Ashley Longshore (@ashleylongshoreart) e outra que é a Stormi bree (@stormibree). Gosto de descobrir as pessoas, não seguir o rebanho.

Imprensa e bloggers/influencers complementam-se ou canibalizam-se?
As duas coisas. Eu não sigo muitos bloggers mas adoro o Instagram. Eu não sigo perfis de pessoas que só tiram selfies, sigo autores, revistas, fotógrafos, artistas plásticos, activistas.

A moda em Lisboa é melhor do que no Porto?
A ModaLisboa trabalha com designers do Porto. São cidades muito diferentes, e isso reflecte-se na forma como as pessoas vivem a moda. O Porto tem a indústria lá e acabam por se complementar bem. Nós temos um país pequeno, não vale a pena dividirmos as coisas.

 

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