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Moda, Vestuário, Graffenberg
©DRGraffenberg

O tecido do futuro, sem efeitos secundários

Há 500 anos, o cânhamo era usado nas velas das caravelas portuguesas. Hoje, volta a mostrar-nos um admirável mundo novo. A fibra obtida a partir da Cannabis sativa está a entrar em força na indústria da moda e Portugal não é excepção.

Escrito por
Mauro Gonçalves
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Só através do toque é possível perceber a real robustez do cânhamo. Numa pequena loja do Príncipe Real, Elsa Lima examina cada peça como se fossem páginas de um mesmo livro. As notas poéticas ficam para mais tarde – são os detalhes técnicos a prioridade desta designer de moda. Em 2019, criou o Cura, um estúdio com um propósito bem definido: propor um guarda-roupa intemporal, produzido localmente e com uma pegada ambiental reduzida.

“O Cura nasce com este compromisso de criar um vestuário cuidado e de dignificar o cânhamo. Ele tem sido trabalhado por grandes marcas de forma muito pontual. Achei que estava na hora de ter o papel principal”, explica em conversa com a Time Out.

Tudo começa num pequeno estúdio lisboeta, onde esboços, moldes e amostras de tecidos fazem parte da rotina de trabalho. “Não há stock, praticamente, fazemos tudo por encomenda ou para colocar em quantidades muito limitadas em alguns pontos de venda. E a produção é feita em pequenos ateliers da região de Lisboa.” O cânhamo é, de facto, o protagonista, mas não o único actor desta trama – é preciso equilibrar os tecidos com porções, ainda que menores, de algodão orgânico, seda e poliéster reciclado. Um processo que tem lugar do outro lado do mundo, na China.

Moda, Design, Elsa Lima
©Ricardo Lopes

Elsa começou por estudar esta fibra ao detalhe. Como gosta de dizer, faz parte da “primeira fornada” do curso de Design de Moda da Faculdade de Arquitectura de Lisboa. Durante anos, fez figurinos para teatro. Acabaria, mais tarde, por ser convidada a dar aulas na Universidade da Beira Interior e por se dedicar à investigação. O bichinho do design, contudo, só estava adormecido.

Quanto ao cânhamo, o cenário mudou recentemente – e para melhor. “Os fornecedores internacionais que trabalhavam esta fibra começaram a conseguir escoá-la para marcas mais pequenas e com isso tornou-se possível começar a desenvolver produto sem ser de forma massificada.”

Hoje, a marca divide-se em quatro linhas, todas elas fiéis ao conceito de slow fashion. Elsa avalia agora variantes como a durabilidade do produto e a sua capacidade para ser transformado através de upcycling. Não é por acaso que se predispõe a comprar de volta peças Cura que os clientes já não queiram, ou a repará-las sempre que for necessário. Com um preço médio de 460€, a comunicação é feita sobretudo para clientes internacionais e o Norte da Europa tem uma apetência especial. Quem diria que o material rude de que eram feitas as velas dos navegadores portugueses se tornaria um símbolo de sofisticação.

O que é que o cânhamo tem?
À semelhança de Portugal, a Europa desperta para os atractivos da aplicação do cânhamo industrial à moda. Trata-se de uma cultura diferente da da planta usada para fins medicinais, com um teor de tetrahidrocanabinol (responsável pelos efeitos psicotrópicos) inferior a 0,2. “Muitas empresas no Ocidente têm começado a trabalhar nessa área, sobretudo na indústria têxtil, onde existe uma procura generalizada de alternativas às fibras fósseis”, esclarece Lúcia Rodrigues do departamento de Tecnologia e Engenharia do Citeve. As vantagens não ficam por aqui. “É uma fibra vegetal considerada de baixo impacto ambiental, mesmo quando comparada com o algodão”, continua. Precisa de menos água e de menos químicos e requer menos área de cultivo. “Há uma grande variedade, em função do solo e do clima. Além disso, a forma como é feita a colheita e a extracção do fio influenciam a qualidade da fibra. A moda é muito exigente, isso faz com que seja um mercado difícil para o cânhamo.”

Em Portugal, todo o fio usado na indústria é importado. “Estamos em contacto com agricultores que estão a fazer algumas experiências, mas não há empresas para transformar a planta em fibra”, garante. China, Canadá e França lideram a produção mundial – Portugal, Espanha e Itália estão entre os países dispostos a dar uma oportunidade a esta cultura. Por cá, é nas regiões Centro e Norte que se fazem as primeiras experiências de cultivo.

Aperfeiçoar a capacidade europeia para trabalhar esta fibra natural foi o objectivo do Nabitex, projecto levado a cabo por entidades francesas, espanholas e portuguesas, entre elas o Citeve, concluído em Dezembro. Um trabalho centrado na decoração e na construção, embora esta planta tenha muitas outras áreas de aplicação, do biodiesel à cosmética.

Na moda portuguesa
É oficial: o cânhamo chegou às etiquetas de composição de grandes marcas – Levi’s, Pangaia, Patagonia, COS ou mesmo a luxuosa Jacquemus. Em Portugal, a tendência alastra. Lançada há menos de um ano, a Gräffenberg introduziu no mercado o conceito de beautywear, através do uso de algodão enriquecido com partículas de cobre, com propriedades antibacterianas, e coenzima Q10, conhecida pelo efeito anti-envelhecimento. Produzir roupa que faz bem à pele já era uma proposta suficientemente diferenciadora, mas continuava a faltar qualquer coisa.

“Sempre tivemos duas prioridades: a sustentabilidade e o design. O algodão tinha a tecnologia, mas precisávamos de um bocadinho de estrutura para conseguirmos ter estas linhas direitas”, explica a co-fundadora Inês Neves. O cânhamo foi a solução ideal. Ecológico e com valor estético, compõe em mais de 50% o tecido usado pela marca. Com apenas cinco peças e uma única cor, a Gräffenberg tem conquistado um nicho de mercado, com destaque para o nórdico, o americano e o israelita.

Mas há mais marcas nacionais que se preparam para apostar naquela que pode ser encarada como a fibra do futuro. Depois de uma primeira experiência no último Verão, a DCK prepara-se para reforçar a presença do cânhamo nos novos calções de banho que vai lançar em Abril. No mesmo mês, uma outra marca lisboeta apresenta as primeiras peças à boleia desta tendência sustentável. Conhecida pelo vestuário masculino minimal, a Wetheknot explora o potencial do cânhamo pela primeira vez.

Outras, há muito que descobriram as vantagens desta matéria-prima natural. Em 2018, Bernardo Carreira criou o primeiro par de ténis a partir da fibra do caule da canábis. Hoje, a 8000Kicks vende sobretudo para os Estados Unidos, embora o interesse dos portugueses cresça todos os dias. “Toda a gente sabe o que é a canábis, mas ainda existe um estigma”, refere o fundador. Ao contrário do vestuário, o calçado permite-lhe trabalhar apenas com cânhamo, sem misturas. O aperfeiçoamento é constante e no último ano conseguiu chegar a uma fibra mais fina e com o dobro da resistência. Avanços impossíveis de alcançar só com a indústria portuguesa, onde a maquinaria não está preparada para as especificidades desta fibra. Conta sobretudo com a China e com a Roménia como fornecedores, mas admite que a Europa está a desbravar lentamente este território. Bernardo não tem dúvidas: o futuro da moda vai passar por aqui.

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