Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right A etnia de Henry Golding em “Last Christmas” é irrelevante – e isso é bom
Henry Golding from Last Christmas
Photograph: Andy Parsons

A etnia de Henry Golding em “Last Christmas” é irrelevante – e isso é bom

Henry Golding, o protagonista de “Last Christmas”, fala sobre o cinema intemporal e os rumores à volta de James Bond.

Por Alex Godfrey
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A presença luminosa de Henry Golding em Asiáticos Doidos e Ricos, comédia romântica de sucesso planetário, partiu muitos corações. Em Last Christmas – filme de Paul Feig com Emilia Clarke (a “mãe de dragões” de A Guerra dos Tronos) e banda sonora de George Michael – volta a seduzir a audiência. O mundo é dele.

Raramente o vemos neste filme sem que esteja a dançar. Estava no guião?
Não. Surgiu numa conversa com o Paul Feig e a [argumentista] Emma Thompson. A personagem do Tom é cheia de vida, não tem medo de fazer figura de parvo, e gosta de dançar. Queria que isso fosse óbvio.

De que maneira?
Queria dar-lhe um pouco de Gene Kelly. E aquele toque de Frank Sinatra.

Isso é interessante porque tanto aqui como em Asiáticos Doidos e Ricos há algo de tradicional nas interpretações – algo da era de ouro de Hollywood.
Completamente. Na era de ouro de Hollywood, as acções do protagonista falavam por si. Não era preciso sublinhar a sua masculinidade. Os actores corporizavam as suas próprias personas, e acho que era por isso que íamos vê-los ao cinema. Quero isso para os meus filmes.

Daqui a alguns anos, Last Christmas vai dar na TV todos os Natais, o que faz sentido porque no filme é uma espécie de ídolo de matiné.
Penso que é por isso que fazemos filmes, para criar clássicos intemporais.

Asiáticos Doidos e Ricos foi elogiado pelo elenco asiático. Aqui, é o co-protagonista mas a sua origem étnica é irrelevante, o que é igualmente importante.
Imensamente. É normalizador. A minha personagem e a da Michelle Yeoh [actriz malaia de em Last Christmas] não são familiares. Quando vêem dois asiáticos num filme, as pessoas pensam: “Ah! Mãe e filho” – pensam que eu sou filho da Michelle. Não é estranho? Todos os membros brancos do elenco são relacionados? Não chegam a essa conclusão, pois não?

Há rumores de que pode vir a interpretar James Bond. Estamos prontos para que a personagem seja parte malaia?
Haverá sempre detractores e apoiantes. O que importa é o objectivo do filme. Quem o interpreta ou como é caracterizado é importante, mas não é o essencial.

Há uma cena de bastidores de Last Christmas, com a Emilia, em que ela diz que quando viu Asiáticos Doidos e Ricos pensou que era o homem mais atraente que já tinha visto.
Ahahah! Ela é encantadora. Travou tantas lutas de saúde e não houve um único dia durante as filmagens em que ela se queixasse. Foi sempre a fonte de energia de que todos precisávamos.

Crítica: “Last Christmas”

De Paul Feig, 103 minutos

★★★☆☆

Se Helen Fielding refizesse o Cântico de Natal substituindo Bridget Jones por Ebenezer Scrooge, talvez se parecesse algo como esta bem-intencionada mas levezinha comédia romântica sobre uma jovem de vinte-e-tal anos encontrar a salvação num jeitoso estranho. Se fecharmos os olhos a uma reviravolta no terceiro acto, que apesar de ser feita com seriedade é tonta, e que o trailer do filme revelou há meses, e à falta de química entre Emilia Clarke e Henry Golding, Last Christmas é um agradável acrescento ao cânone festivo. Foi criado propositadamente para quem viu O Amor Não Tira Férias talvez umas seis vezes a mais.

Clarke interpreta Kate, uma aspirante a cantora com uma paixão assolapada por George Michael, que é forçada a vestir-se de forma humilhante como um elfo para a proprietária da loja de Natal do Covent Garden (Michelle Yeoh). “Não sou um elfo de carreira”, diz ela, apesar de suspeitarmos que, dada a sua abordagem demolidora à vida, talvez fosse processada pelos outros elfos. É aí que entra o misterioso estranho interpretado por Golding, Tom, que trabalha num serviço de entregas e se revela um óptimo ouvinte, começando a reintroduzir alguma esperança à vida de Kate. Mas quem é ele? E porque é que ele parece ter apenas um casaco e nenhum telefone?

Musicado de uma ponta à outra por temas dos Wham! e de George Michael (com várias versões da canção que dá título ao filme), o florescente romance acontece nas paisagens de postal de Londres. Com exceção de um momento notavelmente sombrio a meio, o realizador norte-americano Paul Feig (A Melhor Despedida de Solteira) lida com tudo de forma rápida. No espírito de todos os bons filmes de Natal, a história é indiferente à geografia ou ao realismo (dois estranhos a conversar num autocarro a sério). E embora haja uma tentativa genuína de se envolver com o problema dos sem-abrigo na cidade – há uma narrativa secundária a decorrer num abrigo –, e se faça um aceno à questão dos migrantes, isso é feito superficialmente, de tal forma que faz Richard Curtis parecer Ken Loach.

Por vezes, os diálogos são contundentes (“Um pássaro acabou de me cagar nos olhos”, resmunga Kate), mas quando a graça desaparece o charme do elenco geralmente leva o filme a bom porto. Clarke é cativante como Kate, cínica mas não demasiado amarga, que imigrou para Londres, da antiga Jugoslávia, quando ainda era uma criança. Emma Thompson (que co-escreveu o argumento com Bryony Kimmings) tem piada como a sua mãe alfa, que mantém vivas as memórias do velho país cantando canções folclóricas para a filha. Até a severidade de Yeoh adquire uma dimensão cómica quando tem por trás um cenário de uma tonelada de kitsch de Natal.

Se Last Christmas não é totalmente irresistível nas cenas emotivas, e se os seus momentos pirosos são na fronteira da indigestão, a sua efervescência torna-o divertido o suficiente para ver. Pelo menos, vai fazê-lo cair de amores pelo outro protagonista do filme: Londres. Phil de Semlyen

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