Clássicos de cinema para totós. Lição 7: os anos 80

Farto de não fazer ideia do que falam os cinéfilos à volta? Cansado de se perder em referências desconhecidas quando se fala de cinema? O “cinema para totós” quer resolver esse problema no melhor espírito de serviço público

©DRPlatoon - Os Bravos do Pelotão

Na bilheteira, os anos 80 foram a década de Steven Spielberg e George Lucas. O cinema de grande espectáculo, sem vergonha de efeitos especiais, afirmou-se logo no início da nova era de Hollywood. Nem sempre para pior. Mas como não há acção sem reacção, ao lado ou noutras paragens singrava uma outra maneira de entender a sétima arte. Dez exemplos no mesmo fôlego.

Clássicos de cinema para totós. Lição 7: os anos 80

Kagemusha – A Sombra do Guerreiro (1980)

Apesar do respeito pelos seus mestres, por esta altura o cinema japonês andava um bocado arredado dos cinéfilos. Um dos problemas, por exemplo, o de Akira Kurosawa, um dos mestres do panteão, era a falta de financiamento. E quem o tirou do aperto foi, nem mais nem menos, a generosa bolsa de Francis Ford Coppola (o qual, em breve, estatelaria o seu estúdio no chão da falência) e George Lucas (que via a fortuna crescer com O Império Contra-Ataca), que, assim, agradeciam a influência do realizador japonês nas suas obras. Kurosawa aproveitou bem esse dinheiro, e com um argumento especialmente bem urdido, mais a sua preocupação com o detalhe e o seu sentido estético, fez um épico arrebatador esculpido na luz.

Touro Enraivecido (1980)

Aqui está um filme tão importante para o seu realizador, Martin Scorsese, como para o seu protagonista, Robert De Niro, o mais aclamado actor da década anterior, agora a dar um passo a caminho da imortalidade (e do segundo Óscar), no papel do pugilista Jake LaMotta interpretando a raiva e a inveja e a dor e a decadência com uma vivacidade furiosamente física e psicológica. O retrato de LaMotta por Scorsese é um filme pungente, obra que se atira às profundezas da alma de um brutamontes, que ganha à vida a espancar e ocasionalmente ser espancado, como quem mergulha num cérebro perturbado, mas, ao mesmo tempo, retrata com elegância e expressiva brutalidade a violência de um combate de boxe. Esta dualidade é representada por De Niro (que se pôs primeiro em grande forma física e depois engordou que nem um boi para desempenhar convenientemente as fases da vida do lutador) em modo de grande inspiração e muito suor, a bem dizer tornando-se na personagem – o que é, sem dúvida, a glória de um actor.

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Blade Runner: Perigo Iminente (1982)

Agora uma coisa completamente diferente, ou talvez nem tanto, pois debaixo do enredo fantasioso de Hampton Fancher e David Webb Peoples, inspirado na obra-prima de Philip K. Dick Do Androids Dream of Electric Sheep?, encontra-se, como num palimpsesto, uma reflexão profunda e séria sobre a vida e a morte e o futuro da humanidade. Ridley Scott nunca mais foi tão longe esteticamente (apesar de os produtores lhe retirarem o direito de montagem final, para mais introduzindo um narrador – para facilitar a compreensão, foi a razão invocada – muito pouco apreciado pelo realizador, e que desapareceu mal Scott teve oportunidade de exibir a sua montagem), poucas foram as vezes em que os efeitos especiais tiveram uma efectiva razão narrativa e dramática, e as interpretações de Harrison Ford, Sean Young e, principalmente, Rutger Hauer, no papel de replicante-mor, não lhes valeram prémios, é certo, mas nem por isso deixam de ser exemplares.

Fitzcarraldo (1982)

A imagem de um barco de muitas toneladas a ser puxado à força de braços ribanceira acima é uma das mais marcantes deste filme excessivo, como excessivo é o seu realizador, Werner Herzog, e excessivo, para dizer o menos, é o seu protagonista, Klaus Kinski. Foi uma das mais atribuladas filmagens, não só pela obsessão de Herzog com o realismo (sim, o barco foi mesmo puxado à força de braços) de uma película sobre a paixão e a megalomania, como pelos constantes conflitos com Kinski. No entanto, contrariando a Lei de Murphy quando ela fazia todo o sentido, o realizador alemão levou a sua avante e bem contada ficou a história de um novo rico com sentido estético a querer construir um teatro de ópera no meio da selva.

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Era Uma Vez na América (1984)

Sergio Leone, apesar da consideração ganha com Por Um Punhado de Dólares e Aconteceu no Oeste, procurava ainda a sua legitimação como cineasta capaz de criar filmes que lhe retirassem a tabuleta de curiosidade criada pelos seus “western-spaghetti”. Nunca conseguiu a tal legitimidade. Porém, na sua única incursão pelo cinema americano, e com um elenco luxuoso, onde pontificava Robert De Niro e brilhavam James Woods, Elizabeth McGovern, Joe Pesci e Danny Aiello, realizou o seu desejo com mérito e distinção. Embora perseguido pela controvérsia desde a estreia, no Festival de Cannes, em parte pela sua exibição descarnada da violência, em parte pela sua duração (quatro horas e meia severamente retalhadas pelo estúdio na versão exibida nos Estados Unidos) Era Uma Vez na América cobre, por assim dizer, cinco décadas de vida criminal no submundo nova-iorquino com uma elegância ímpar.

Amadeus (1984)

Há uma estreita divisória entre o génio e a loucura, costuma dizer-se. Pois é mesmo nessa divisória que Milos Forman coloca Amadeus, retratando o compositor Wolfgang Amadeus Mozart (Tom Hulce) como um estarola lunático e rude, contudo inspirado. Inspirado por Deus, na opinião do seu adversário de composição (e dos favores da corte austríaca) e constrangido admirador Antonio Salieri (F. Murray Abraham), cuja inveja o realizador usa (como na peça original de Peter Shaffer, que também escreveu o argumento), contra a verdade da História, como origem de todos os males que afligiram Mozart e conduziram à sua morte enquanto criava o seu mais do que famoso (apesar de concluído por um discípulo) Requiem.

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Platoon – Os Bravos do Pelotão (1986)

Oliver Stone partiu da sua experiência como militar durante a Guerra do Vietname para a construção da sua melhor longa-metragem, merecidamente vencedora dos óscares de Melhor Filme e Melhor Realizador, colocando-se política e esteticamente em directa oposição à corrente dominante em Hollywood, para a qual, mesmo depois de Doutor Estranho Amor, de Kubrick, M.A.S.H., de Robert Altman, e principalmente Apocalipse Now, de Coppola, a guerra era para ser mostrada à maneira de John Wayne e em películas patrioteiras como Os Boinas Verdes. E o que Stone mostra, sem a demagogia que viria a tomar conta da sua obra posterior, é a guerra vista do interior como instrumento de degradação humana e de sabotagem do humanismo. Perspectiva por muitos vista como uma espécie de glorificação da guerra, mas realmente não mais do que um retrato cru tornado mais vívido pelas interpretações de Willem Dafoe e Tom Berenger, muito bem acompanhados por Charlie Sheen, Kevin Dillon, Johnny Depp e Forest Whitaker.

Veludo Azul (1986)

Exemplo da variedade estilística desta década é, sem dúvida, a quarta longa-metragem de David Lynch, realizada dois anos passados sobre o ambicioso e fracassado Duna. Para quem não o tinha percebido logo em Eraserhead, esta película mostra o caminho autoral que o realizador desejava seguir, muito distante do comercial O Homem Elefante. É uma obra experimental e desafiante, esta, interpretada à beira do abismo da sobre-representação por Kyle MacLachlan, Isabella Rossellini, Dennis Hopper e Laura Dern, filme que mostra o interior da América como antes não se vira, bravamente contrariando a ideia de “sonho americano”, no entanto aproveitando a iconografia criada pela pintura de Norman Rockwell para melhor contrariar essa ilusão cultural de uma América limpa e sossegada no seu esplendor capitalista.

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No Trilho da Droga (1989)

E entra Gus Van Sant. É verdade, o realizador mais inconstante na escolha dos seus temas e na realização dos seus projectos, já tinha dirigido Mala Noche e recolhido boa dose de elogios com esse retrato sobre a homossexualidade reprimida, mas ainda estava muito longe de Gerry quando se meteu a dirigir esta longa-metragem com Matt Dillon e Kelly Lynch, mais a curta e fundamental participação do escritor William. S. Burroughs, no papel de um velho agarrado explicando as realidades da vida aos jovens agarrados com quem se cruza. Como faria, algumas vezes, no futuro, Van Sant criou uma obra que aborda, com franqueza e sem qualquer ponta de ironia ou réstia moral, a vida de jovens traficantes dependentes do produto que vendem.

Não Dês Bronca (1989)

Sem ser o mais polémico dos filmes de Spike Lee, Não Dês Bronca, não escapou ao rótulo de racista logo na manhã da sua estreia no Festival de Cannes. E, em certa medida, é um filme inclinado ao ideal de superioridade negra na sua impressionante exibição dos conflitos raciais e da sua origem. Ainda assim, Lee (acompanhado na interpretação por Danny Aiello, Ossie Davis, Ruby Dee, Giancarlo Esposito e John Turturro), nesta história de tensão racial no dia mais quente do ano em Brooklyn, não se limita a ilustrar um enredo, procurando, e conseguindo, para além do aspecto político da coisa, achar novas caminhos para o cinema através de uma composição rigorosa e enérgica das suas imagens e uma utilização da cor exemplar na sua qualidade dramática.

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Curso completo de cinema

Lição 1: o cinema mudo

À falta de palavras, usa-se a expressão. À falta de cor, manipulam-se todos os cinzentos existentes entre o preto e o branco e fazem-se malabarismos na montagem. Assim começou o cinema. E assim começou a tornar-se arte. Alguma inesquecível, como estes 10 exemplos incontornáveis.

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Por Rui Monteiro

Lição 2: os anos 30

A ascensão do cinema falado acabou com o mudo e com as carreiras de muitos actores. A tecnologia do som (e depois da cor) provocou uma, como agora se diz, “destruição criativa”. Certo é que, apesar das baixas, a década de 1930 é uma das mais dinâmicas da história de Hollywood, culminando no excepcional ano de 1939, quando nasceram três destes 10 clássicos de cinema obrigatórios.

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Por Rui Monteiro
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Lição 3: os anos 40

A guerra foi a principal preocupação do mundo durante metade da década de 1940. Mas isso não impediu o cinema de crescer como arte, nem estes filmes deixaram de entreter o público, umas vezes como escapismo, outras como alerta de consciências. Sempre, porém, progredindo na narrativa e na montagem, dando a ver um novo e cada vez mais diverso cinema.

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Por Rui Monteiro

Lição 4: os anos 50

Ora aqui está uma década de prosperidade, medo nuclear, que entretanto começara a Guerra Fria, e esperança. Uma década em que o cinema prosperou artisticamente e ainda mais comercialmente. Dez anos em que o preto e branco resistiu quanto pôde, mas acabou batido pela cor.

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Por Rui Monteiro
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Lição 5: os anos 60

A década dos sonhos mais floridos, extravagantes e idealistas, também teve o seu lado violento. O cinema atravessou uma das suas épocas mais curiosas e experimentalistas em que, parecia, valia tudo, desde que fosse contra a corrente dominante. E o melhor era.

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Por Rui Monteiro

Lição 6: os anos 70

Na década de 70 o olhar de Hollywood mudou. E o “sistema” dos estúdios foi substituído por um cinema mais estético e politicamente atrevido, por um lado, enquanto, por outro, começava a era dos blockbusters e o triunfo do cinema de entretenimento e efeitos especiais. Dez exemplos com final feliz já a seguir.

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Clássicos de cinema para totós. Lição 7: os anos 80

Na bilheteira, os anos 80 foram a década de Steven Spielberg e George Lucas. O cinema de grande espectáculo, sem vergonha de efeitos especiais, afirmou-se logo no início da nova era de Hollywood. Nem sempre para pior. Mas como não há acção sem reacção, ao lado ou noutras paragens singrava uma outra maneira de entender a sétima arte. Dez exemplos no mesmo fôlego.

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