Clássicos de cinema para totós. Lição 8: os anos 90

Farto de não fazer ideia do que falam os cinéfilos à volta? Cansado de se perder em referências desconhecidas quando se fala de cinema? O “cinema para totós” quer resolver esse problema no melhor espírito de serviço público
Pulp Fiction
Pulp Fiction
Por Rui Monteiro |
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Olhando a lista de melhores filmes da década, salta à vista a importância que a guerra e a violência tiveram no cinema da América e da Europa. Filmes sérios, sobre assuntos sérios, filmados, mais do que com seriedade, com ousadia. Foi um tempo de desequilíbrio, pois, ao lado, os blockbusters iam a toda a brida e venciam com grande avanço a corrida da bilheteira.

Clássicos de cinema para totós. Lição 8: os anos 90

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Tudo Bons Rapazes (1990)


A discussão continua em aberto sobre se o melhor filme de bandidagem mafiosa é O Padrinho: Parte II, de Francis Ford Coppola, ou, de Martin Scorsese, este Tudo Bons Rapazes (primeira parte de uma trilogia de épicos criminais que inclui o interessante Casino e o medíocre The Departed – Entre Inimigos, curiosamente aquele que a Academia escolheu para oscarizar o realizador, assim como quem pede desculpa por não o ter feito em Taxi Driver ou Touro Enraivecido). Sendo ambos excelentes obras cinematográficas (independentemente dos óscares que um recebeu e o outro ficou a ver passar), e estando ambas a anos-luz da concorrência, compará-las é uma discussão estéril, que geralmente acaba com a tentativa de determinar se Robert De Niro vai melhor num ou no outro. Portanto, para todos os efeitos práticos, além das muito notáveis prestações de De Niro e, melhor ainda, de Ray Liotta e Joe Pesci, sem esquecer a imparável Lorraine Bracco, e do mesmo muito bem urdido argumento de Nicholas Pileggi a partir do seu romance, a realização de Scorsese é uma viagem à vida interior de um gangue dirigida como uma montanha russa com os carrinhos desenfreados à beira de serem projectados dos carris.

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O Silêncio dos Inocentes (1991)

A atmosfera claustrofóbica, o argumento tenso e emocional de Ted Tally baseado no romance de Thomas Harris, mas principalmente a supremacia das interpretações de Jodie Foster e Anthony Hopkins, que fizeram de Clarice Starling e Hannibal Lecter (apesar de Hopkins estar em cena apenas 16 minutos) ícones do Bem e do Mal, deram ao filme de Jonathan Demme cinco óscares (Melhor Filme, Melhor Realização, Melhor Argumento Adaptado, e, evidentemente, melhores Actriz e Actor). Mais do que isso, a sua imaginativa realização tornou O Silêncio dos Inocentes um marco do género terror e uma das películas mais populares da época.

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A Lista de Schindler (1993)

Sabe-se que Steven Spielberg passou uma década a matutar em como tornar em filme a história de Oskar Schindler, um homem de negócios alemão particularmente dado ao oportunismo, que, no entanto, conseguiu o feito de se transformar de explorador nazi em salvador de vidas de judeus. Spielberg, já com o argumento de Steven Zaillian inspirado no romance de Thomas Keneally, ainda tentou passar a realização para outras mãos. Porém, e felizmente, o destino, ou a frustração de realizar filmes incrivelmente populares sistematicamente desdenhados pela Academia, levaram finalmente o autor de E.T. e O Resgate do Soldado Ryan a sentar-se na cadeira de realizador para dirigir Liam Neeson, Ralph Fiennes, Ben Kingsley e mais uma carrada de bons actores, entre eles Caroline Goodall e Béatrice Macola, e levar a sua longa-metragem até ao pódio com sete óscares – afinal apenas um bónus comparado com a respeitabilidade amealhada.

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Pulp Fiction (1994)

Depois da auspiciosa recepção a Cães Danados, Quentin Tarantino ultrapassou a difícil prova da segunda longa-metragem realizando o primeiro filme pós-moderno a invadir a corrente dominante e a nela ganhar um lugar de honra. De uma assentada, o realizador criou (com Roger Avary) uma história permanentemente à beira do abismo narrativo, onde humor corrosivo e violência descabelada convivem harmoniosamente, utilizando por tudo e por nada referências à cultura pop, no processo reabilitando a carreira de John Travolta, fazendo a sua personagem brilhar num elenco onde se encontraram Uma Thurman, Samuel L. Jackson, Tim Roth, Bruce Willis e Maria de Medeiros.

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Assassinos Natos (1994)

Oliver Stone era, nesta época, um realizador muito diferente do chato em que se tornou com as suas teorias de conspiração a preencherem os filmes e imporem uma “mensagem”. Ainda assim, mesmo tendo em conta a sua obra anterior, Assassinos Natos é uma excepção na sua carreira e, ao mesmo tempo, uma das mais sérias reflexões sobre o papel dos media. A razão é simples: a partir de uma história de assassinos em massa (que não é a mesma coisa que assassinos em série, como a personagem interpretada por Woody Harrelson faz questão de notar) e recorrendo a variadas formas narrativas, desde a série de televisão à banda desenhada, ou ao documentário e ao “reality-show”, Stone criou um mosaico sobre a violência, igualmente reflectida – como partes do mesmo mal – nas personagens dos criminosos (Harrelson e Juliette Lewis) e nas do polícia criado por Tom Sizemore e do espantoso repórter sensacionalista inventado para Robert Downey Jr.

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Seven – 7 Pecados Mortais (1995)

A ideia de utilizar os sete pecados mortais como eixo narrativo de um filme não era nova quando David Fincher recrutou Morgan Freeman, Brad Pitt e Kevin Spacey para darem corpo às personagens do seu filme. Contudo, o realizador, a partir de uma ideia tão velha como, pelo menos, a Bíblia, apresentou uma obra profundamente original no seu processo de revelação dos meandros do argumento de Andrew Kevin Walker em imagens capazes de representar a violência mais obscena com uma elegância rara, mantendo a acção permanentemente tensa até ao inesperado final.

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Era Uma Vez Um País (1995)

Entretanto, na Europa, a região dos Balcãs estava em guerra depois do desmoronamento da Jugoslávia, e Emir Kusturica solidificava a sua lenda como candidato a génio do muito depredado cinema europeu com esta obra excessiva e comovente na sua interpretação do ridículo em cenário de guerra. Abrilhantada pela peculiar música pop dos Balcãs, com as suas melodias permanentemente infectadas pela impositiva sonoridade da influência klezmer, e um argumento delirante baseado num conto de Dusan Kovacevic, o realizador sérvio apresenta a sua versão de um país em estilhaços à procura de um devir enquanto é pilhado pelos mais variados oportunistas.

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Ondas de Paixão (1996)

Ainda na Europa, outro realizador dado à excentricidade, o dinamarquês Lars von Trier, ia construindo o seu caminho à parte, muito sossegadamente, aliás, até a fama lhe bater à porta com estrondo com a estreia de Ondas de Paixão. Drama de fazer chorar as pedrinhas da calçada, onde uma desgraçada acabada de casar fica com o marido paralisado depois de um acidente, e, portanto, inútil para certas funções fundamentais para a alegria e o bem-estar do casamento. Com uma interpretação superior, até para ela, Emily Watson mostrou a extraordinária actriz que é, entregando-se ao papel de pecadora – por mor da vontade do marido – com a virtude de uma santa girando ao som do glam rock da banda sonora.

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Fargo (1996)

Outra vez na América, a viagem é agora conduzida por Joel Coen e Ethan Coen. Realizadores que já faziam as delícias dos conhecedores do cinema independente norte-americano (então apresentado como uma espécie de “nouvelle vague”, ou um renascimento a partir de modelos clássicos artilhados pelo pós-modernismo), que levam o espectador até às berças da América, isto é ao Minnesota e ao Dakota do Sul, conduzidos pela mão firme da interpretação de Frances McDormand, particularmente bem assessorada por William H. Macy e Steve Buscemi, através da investigação de um crime, ou melhor, de um quebra-cabeças, onde faltam quase todas as peças.

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A Barreira Invisível (1998)

Terrence Malick não filmava há 20 anos. Aliás, estava mais ou menos oficialmente reformado da realização e, como sempre, distante dos holofotes, mudo para a imprensa, alheio aos argumentos que lhe enviavam, aparentemente, como se costuma dizer, na boa. O que se costuma dizer, no entanto, não tinha razão. E o realizador, que se tornou figura de culto depois de Noivos Sangrentos e Dias do Paraíso, mantinha vivo o desejo de voltar a dirigir. Foi o que fez e não lhe faltou nada (afinal, não é todos os dias que um génio recluso regressa à acção), desde meios de produção a actores (que, aliás, faziam bicha por um papelzinho pago pela tabela mínima, como é o caso de Jim Caviezel, Sean Penn e Nick Nolte, que têm papéis de algum relevo, ou de George Clooney, que ainda aparece numa cena, enquanto as filmagens que envolveram Billy Bob Thornton, Martin Sheen, Bill Pullman, Gary Oldman, Mickey Rourke, Lukas Haas e Viggo Mortensen, entre outros, ficaram no chão da sala de montagem sem que se ouvisse um protesto) para fazer desta história no cenário da Batalha de Guadalcanal, durante a II Guerra Mundial, uma profunda reflexão sobre, isso, o sentido da vida. É um filme belo sobre a sujidade da alma, uma obra única que vive, e decerto continuará a viver, para lá do seu tempo.

Curso completo de cinema

Filmes

Lição 1: o cinema mudo

À falta de palavras, usa-se a expressão. À falta de cor, manipulam-se todos os cinzentos existentes entre o preto e o branco e fazem-se malabarismos na montagem. Assim começou o cinema. E assim começou a tornar-se arte. Alguma inesquecível, como estes 10 exemplos incontornáveis.

Filmes

Lição 2: os anos 30

A ascensão do cinema falado acabou com o mudo e com as carreiras de muitos actores. A tecnologia do som (e depois da cor) provocou uma, como agora se diz, “destruição criativa”. Certo é que, apesar das baixas, a década de 1930 é uma das mais dinâmicas da história de Hollywood, culminando no excepcional ano de 1939, quando nasceram três destes 10 clássicos de cinema obrigatórios.

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Lição 3: os anos 40

A guerra foi a principal preocupação do mundo durante metade da década de 1940. Mas isso não impediu o cinema de crescer como arte, nem estes filmes deixaram de entreter o público, umas vezes como escapismo, outras como alerta de consciências. Sempre, porém, progredindo na narrativa e na montagem, dando a ver um novo e cada vez mais diverso cinema.

Filmes

Lição 4: os anos 50

Ora aqui está uma década de prosperidade, medo nuclear, que entretanto começara a Guerra Fria, e esperança. Uma década em que o cinema prosperou artisticamente e ainda mais comercialmente. Dez anos em que o preto e branco resistiu quanto pôde, mas acabou batido pela cor.

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Lição 5: os anos 60

A década dos sonhos mais floridos, extravagantes e idealistas, também teve o seu lado violento. O cinema atravessou uma das suas épocas mais curiosas e experimentalistas em que, parecia, valia tudo, desde que fosse contra a corrente dominante. E o melhor era.

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Lição 6: os anos 70

Na década de 70 o olhar de Hollywood mudou. E o “sistema” dos estúdios foi substituído por um cinema mais estético e politicamente atrevido, por um lado, enquanto, por outro, começava a era dos blockbusters e o triunfo do cinema de entretenimento e efeitos especiais. Dez exemplos com final feliz já a seguir.

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Platton - Os Bravos do Pelotão
©DR
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Clássicos de cinema para totós. Lição 7: os anos 80

Na bilheteira, os anos 80 foram a década de Steven Spielberg e George Lucas. O cinema de grande espectáculo, sem vergonha de efeitos especiais, afirmou-se logo no início da nova era de Hollywood. Nem sempre para pior. Mas como não há acção sem reacção, ao lado ou noutras paragens singrava uma outra maneira de entender a sétima arte. Dez exemplos no mesmo fôlego.

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