Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Entrevista: James Cameron e Guillermo del Toro em discurso directo

Entrevista: James Cameron e Guillermo del Toro em discurso directo

Os realizadores de "O Exterminador Implacável" e "O Labirinto do Fauno" discutem os limites e os cruzamentos do terror e da ficção científica

Por Editores da Time Out Lisboa |
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James Cameron - Story of Science Fiction
© Michael Moriatis / AMC James Cameron, Guillermo del Toro

No decurso das últimas duas décadas, Guillermo del Toro concebeu mundos ficcionais efabulados e assustadores, povoados por monstros e marginais. Desde Cronos, a fábula vampiresca com que se estreou em 1993, à recente, premiada e monstruosa história de amor que é A Forma da Água, o trabalho realizador mexicano sempre desafiou as convenções, inspirando-se em diversos géneros sem perder a marca autoral. A sua relação com a animação e os filmes de monstros japoneses estão por detrás do seu filme mais próximo da ficção científica, Batalha do Pacífico, de 2013; enquanto o seu fascínio pelos horrores da natureza informou o seu primeiro filme em inglês, Predadores de Nova Iorque (1997).

Durante a rodagem da série AMC Visionaries: James Cameron – A História da Ficção Científica, que se estreia sexta-feira às 22.50 no AMC, o realizador James Cameron sentou-se à conversa com ele. E falaram sobre a intercepção do terror, a ficção científica e a fantasia ao longo dos anos.

James Cameron: És um homem do terror, como fazes questão de me dizer sempre que falamos do assunto. Mas onde é que o terror se cruza com a ficção científica?

Guillermo del Toro: A inspiração das histórias de terror fundadoras é sempre espiritual. Vem da crença no bem e no mal. A cosmologia da tradição judaico-cristã, o diabo, anjos e demónios. Até as narrativas orientais – Japão, China – estão ligadas aos reinos espirituais. Mas há um momento na literatura ocidental, um pouco depois do iluminismo, por estranho que possa parecer – estou a pensar sobretudo no Frankenstein –, em que a ciência passa a ser encarada como a força motora de todas as anomalias. A partir desse momento tudo mudou.

JC: Hoje temos a radioactividade, a engenharia genética, a robótica – os nossos monstros vêm de tantos lugares diferentes. Dantes os monstros vinham do folclore, da mitologia, os demónios e o mundo sobrenatural. Onde é que colocarias o Frankenstein neste espectro?

GDT: Acho que algumas das questões inerentes ao Frankenstein são espirituais e existenciais. Há o componente miltoniano da história, em que a criatura questiona a sua própria natureza. Qual é o seu propósito? Qual é o propósito do mundo? [Ele está a questionar] o bem e o mal. Mas a força motora é a ciência.

JC: Exacto. Uma perversão da ciência.

GDT: Uma perversão da ciência e muita arrogância, muita arrogância humana. O livro abre com um capitão que é tão arrogante como o Victor Frankenstein, e tenta desafiar a ordem natural das coisas. Ao longo do conto, esse capitão aprende a sua lição e torna-se mais humilde. Podemos dizer que é uma história de terror, porque em última análise versa sobre a reanimação de um cadáver, ou uma série de cadáveres, que são uma mistura de animal, humano – é mesmo chocante. Porém levanta uma bela questão: em qual destas partes reside a alma?

JC: Não é essa a questão que o livro e os filmes colocam?

GDT:  Sim. E há um momento… talvez um dos melhores do livro, que é um momento de puro terror – porque a essência do terror é o que devia ser e não ser, ou o que não devia ser e é. O momento em que o Victor, muito simbolicamente, vai dormir depois de tentar animar a criatura. E como [Francisco] Goya disse: “O sono da razão produz monstros”. Ele está a dormir e sente algo a observá-lo. Mal acorda vê a criatura a olhar para ele. Isso para mim é terror. Porque não devia ser e é.

JC: Mas as questões existenciais também são o pão nosso de cada dia da ficção científica. Quem somos nós? Porque estamos aqui? O que é a consciência? O que é a alma? O que é essencialmente humano? Concordas que há um espectro onde, num extremo, se situa aquilo que é indiscutivelmente ficção científica, no meio há uma zona de transição onde se encontram híbridos de ficção científica e terror, e no outro extremo está aquilo que é indiscutivelmente o terror?

GDT: Completamente de acordo. No meio desse espectro tens coisas que são um híbrido dos dois géneros, como o Alien, o Oitavo Passageiro (1979), que está ali entre um filme de monstros e de casa assombrada.

JC: É ficção científica clássica e terror puro e duro ao mesmo tempo.

GDT: O [H.P.] Lovecraft também tentou misturar ficção científica e terror de vez em quando.

JC: The Shadow Out of Time era um livro de ficção científica.

GDT: [O conto] The Colour Out of Space também.

JC: Mas os Mitos de Cthulhu...

GDT: Já não. Acho que a partir do momento em que dependes de elementos fantásticos, que não são governados por regras científicas, entras no campo da fantasia. Ou do terror.

JC: E a telepatia? É um poder sobrenatural ou algo que, no contexto da ficção científica, pode ser algo que os cientistas ainda não compreendem, mas estão a tentar chegar lá?

GDT: De uma maneira geral acho que a telepatia entra no campo da ficção científica.

JC: Mas é sobrenatural porque não tens provas do poder da telepatia.

GDT: Mas há exemplos na literatura, sem dúvida. Lembro-me por exemplo do Carrion Comfort do Dan Simmons [sobre uma tribo de médiuns poderosos], onde a explicação para o que se passa não é divina ou espiritual. Ou seja, mesmo que não haja provas, a explicação [não está enraizada no terror ou na fantasia].

JC: É empírico, de alguma forma. Sentes que podia haver algum instrumento para detectar aquele poder. Como em A Cidade dos Amaldiçoados [de John Carptenter]. Que é suposto ser um filme de ficção científica.

GDT: [O argumentista inglês] Nigel Kneale também faz muito isso. Muita ficção científica inglesa tem elementos de terror, e vice-versa. É o caso do The Stone Tape, em que ele diz basicamente que as casas são como cassetes de pedra que gravam memórias, os momentos de dor.

JC: Então e o Five Million Years to Earth [ou Quatermass and the Pit] em que o Kneale trata os demónios e o diabo como se fossem personagens de ficção científica?

GDT: Esse é um exemplo muito interessante. Raro e precioso, diria mesmo.

JC: E O Planeta dos Vampiros [o filme do Mario Bava de 1965]? Foi uma inspiração directa do Alien, O Oitavo Passageiro, certo? Aterram num planeta alienígena. Há uma nave espacial que se despenhou.

GDT: O corpo gigante...

JC: O cadáver, sim.

GDT: O que é lindo no Bava é que, estilisticamente, ele combina os dois mundos. Não ao nível da história ou da forma como ela é tratada, ou dos personagens, ou das coisas empíricas. Mas a forma como ele ilumina as coisas, as cores e o design, os elementos visuais misturam terror e ficção científica.

JC: O Mario Bava e muitos italianos faziam isso. Então e o vampirismo? Normalmente é considerado terror – uma coisa sobrenatural e demoníaca. Mas tu fizeste The Strain, em que um patógeno explicava, pelo menos parcialmente, o fenómeno.

GDT: O vampirismo encontra-se em todas as culturas. Há vampiros gregos, vampiros da Europa Oriental, japoneses, filipinos. Estão em todo o lado. É um mito como o dragão, que existe em todas as culturas. A minha teoria é que, até certa altura, nós éramos canibais como os macacos. E algo tão assustador como comermos-nos uns aos outros precisava de um mito para explicá-lo. Acho que os lobisomens e vampiros surgiram dessa necessidade de cristalizar esse desejo passado. Ou desejo presente.

JC: O animal que há em nós. Quando vejo um filme de vampiros onde eles fogem da cruz, ou começam a arder quando vêem o sol, para mim isso não é científico, é sobrenatural. Mas quando vejo um filme como Eu Sou a Lenda, onde o comportamento vampírico é explicado por um patógeno, mudando as pessoas presumivelmente de alguma forma epigenética, eu diria que isso é ficção científica.

GDT: O Richard Matheson [autor do livro Eu Sou a Lenda] mistura duas coisas lindamente. A ciência e o urbanismo. O Stephen King pega nos subúrbios, na pequena cidade, e vai mais longe. Mas a beleza de Richard Matheson é ele olhar para as nossas cidades. As nossas ruas. E isso muda tudo.

JC: Eu Sou a Lenda foi escrito nos anos 50. E essa história foi contada várias vezes desde então. Acho que O Último Homem na Terra [L'ultimo uomo della terra, de Ubaldo Ragona Sidney Salkow, em 1964] foi uma tentativa de filmar o Eu Sou A Lenda. E O Último Homem na Terra [The Omega Man, de Boris Sagal, em 1971] também, claro.

GDT: Mas a versão contrafeita de Eu Sou a Lenda mais importante, para mim, é A Noite dos Mortos-Vivos (1968). Introduziu uma mitologia nova no terror. E nunca se afasta do terror porque o [realizador George] Romero se recusa a definir o que levou àquele estado das coisas.

JC: Muitos filmes [de zombies] posteriores tentaram explicar que foi uma doença, um patógeno, algo transmissível, e criaram clichés à volta disso. Se és mordido, aquilo entra na tua corrente sanguínea e assim. Mas se pensares a sério sobre o assunto, estamos no campo do terror. Porque quando tens um corpo completamente podre não pode haver nenhum tipo de metabolismo. Não pode haver musculatura. Está a ser animado por qualquer força sobrenatural.

Excerto cedido por Insight Editions, retirado do livro James Cameron’s Story of Science Fiction. © 2018 AMC Network Entertainment LLC. All rights reserved.

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