IndieLisboa 2018, ou a voragem do cinema: Lucretia Martel

Classificada pelo festival Heroína Independente, a cineasta argentina Lucretia Martel, figura principal do cinema latino-americano deste século, tem direito a uma retrospectiva no IndieLisboa 2018.
Lucretia Marcel
DR Lucretia Marcel
Por Rui Monteiro |
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São ainda poucos filmes, mas são únicos e, como Lucretia Martel, singulares exemplos de uma diferente visão do cinema e da realidade. Vamos a eles.

Lucretia Martel

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Historias Breves I: Rey Muerto

Foi na curta-metragem que Lucretia Martel começou a mostrar a sua diferença e preparou a sua obra maior. Cinco desses filmes estão presentes nesta retrospectiva.

A começar pelos 12 minutos da ficção Historias Breves I: Rey Muerto, de 1995, história de uma mulher em fuga de um marido violento com os seus três filhos, com interpretação de Oscar Muñoz, Ariel Ramirez, Sergio Farias, Hector Sarmiento e Guillermo E. Castro. (Dom, 29, S. Jorge, 21.45)

Depois segue um trio iniciado com Muta, realizado em 2011, e uma história completamente diferente, pois trata-se de uma encomenda da marca de moda Miu Miu, isto é, um anúncio com seis minutos de duração. E nele a cineasta faz evoluir, a bordo de um paquete, estranhas figuras (as modelos María Alché, Julia Anderson, Cecilia Barros, Emilienne de Souza, Piren Larrieu Iturre) de alta-costura vestidas, vagueando pelo tombadilho e pelos interiores como zombies em filme de terror.

Prosseguindo com esta sessão de curtas-metragens, é a vez de Nueva Argirópolis, oito minutos, criados em 2010, na qual a realizadora tece uma trama de narrativas fragmentadas compondo um retrato coral da população ameríndia como um caudal de movimentos, gestos e olhares.

Sendo o filme de encerramento da sessão o muito rápido Pescados, também de 2010, que, em quatro minutos, mostra que Lucretia Martel tem sentido de humor, criando, com a sonoplasta e música Juana Molina, um coro de carpas que sonham ser um carro. (Seg, 30, S. Jorge, 21.45)

A concluir o programa de curtas-metragens desta retrospectiva está Leguas (El Aula Vacía), de 2012, parte do projecto lançado pelo actor Gael García Bernal dedicado ao abandono escolar na América Latina, onde a cineasta explora a segregação das comunidades indígenas, embora proibida, na prática instituída pelas escolas. (Qua, 2 Maio, S. Jorge, 21:45)

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Zama

Despachadas as curtas-metragens, chega vez dos filmes de maior fôlego. E para baralhar cronologias o festival começa por apresentar a última realização de Lucretia Martel, criação do ano passado, quase uma década depois de A Mulher Sem Cabeça (que será o último dos seus trabalhos a ser exibido no IndieLisboa deste ano).

Este filme, co-produção portuguesa (com direcção de fotografia de Rui Poças), considerado o melhor de 2017 por um conjunto de 135 programadores, críticos e cineastas de todo o mundo, nasce do romance de Antonio Di Benedetto, escrito em 1956, sobre Don Diego de Zama (Daniel Giménez Cacho), um magistrado espanhol, no século XVII, que espera transferência para Lerma, onde se encontram mulher e filhos. Porém, esta delirante viagem ao passado conduzida por Martel é, na verdade, um olhar irreverente e subversivo sobre o gérmen de uma identidade latino-americana fundada nos modos do colonialismo. (Sáb, 28, Culturgest, 21.30).

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O Pântano

Passado um dia, a retrospectiva vai até 2001, ano de realização da primeira longa-metragem da cineasta argentina.

Este filme, como quase sempre, é sobre o colonialismo na América do Sul e entrou directamente na competição oficial do Festival de Cinema de Berlim. Sem se fazer rogado, venceu o prémio Alfred Bauer. Para muitos críticos é uma obra “tchekhoviana”, classificação muita influenciada pela exaustiva exploração dos tempos mortos na vida da burguesia, habitando um ambiente pantanoso, e sintomático do sentido classista que separa a preguiça alcoolizada dos patrões das acusações de roubo contra os criados índios. No elenco encontram-se Graciela Borges, Mercedes Morán, Martín Adjemián, Daniel Valenzuela e Juan Cruz Bordeu. (Dom, 29, S. Jorge, 21.45).

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A Rapariga Santa

Foi na edição de 2004 que o IndieLisboa apresentou este filme, segundo na filmografia da realizadora, concluído no mesmo ano e protagonizado por um par de adolescentes, Josefina e Amalia (Julieta Zylberberg e María Alché, que, aliás, se tornaria realizadora e cuja curta-metragem, Noelia, receberia o prémio de Melhor Ficção na edição de 2013 do Indie), às voltas com o sexo e a religião.

A obra, baseada nas memórias de infância de Lucretia Martel (produzida por Pedro Almodóvar e estreada no Festival de Cannes), é daquelas onde a vocação religiosa se confronta com o desejo, ou, por outras palavras, onde a vida choca com o que parecem as mais fortes e arreigadas convicções. (Seg, 30, S. Jorge, 21.45).

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A Mulher Sem Cabeça

O trauma, seja ele qual for, ou de que maneira é apresentado, parece sempre presente no trabalho da realizadora argentina. Neste filme, talvez o mais radical da sua ousada filmografia, produzido em 2008, é fundamental.

Com argumento de Martel, e interpretação de María Onetto, Inés Efrón, Claudia Cantero, César Bordón e Daniel Genoud, a obra centra-se em Vero, uma mulher burguesa (claro), de meia-idade (evidentemente), que atropela “qualquer coisa” (um cão, presume-se), não pára para verificar, e entretanto perde a memória. Dedicando-se a cineasta a representar a acção através do olhar confuso da protagonista, aos poucos o enredo transformando-se em metáfora sobre a má consciência da classe média argentina relativamente não apenas ao passado colonial do país, mas também à sua colaboração com a ditadura militar. (Qua, 2 Maio, S. Jorge. 21.45).

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