Jeanne Moreau: Uma vida em sete filmes

Durante 70 anos brilhou no cinema e brilhou no teatro, onde começou e de onde nunca realmente saiu. E encantou. Jeanne Moreau encantou sempre. Quando foi protagonista, quando teve de dar troco à Bardot, e mesmo quando a sua presença foi fugaz
Jeanne Moreau in The Bride Wore Black
Por Rui Monteiro |
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Patti Smith comparou-a a “uma vedação de arame farpado em chamas.” E essa pode muito bem ser a melhor definição do trabalho de Jeanne Moreau, a actriz que se tornou ícone da nova vaga do cinema francês, mas não ficou por aí. Além do teatro, entrou em dezenas de filmes. Muitos maus, ou assim-assim. Mas nestes sete que seguem, A Moreau é sempre sublime.  

Jeanne Moreau: Uma vida em sete filmes

Fim-de-Semana no Ascensor (1958)

Ao fundo a música de Miles Davis, em primeiro plano o rosto de Florence, fechado sobre o corpo que vagueia pelos Campos Elísios, pensando se o amante militar levara avante o plano de matar o seu rico e distante marido, ou pura e simplesmente fugira. Foi neste filme que Louis Malle rompeu com as regras e adoptou a luz natural e a câmara móvel contra a artificialidade do estúdio, introduzindo uma nova forma de filmar que quase se tornou o novo cânone. Porém, além do brilhantismo da realização, é a presença de Jeanne Moreau que se impõe enquanto cria a sua complexa personagem de mulher independente e, como se costuma dizer, senhora do seu nariz, assombrada pela ansiedade do desejo de liberdade e a paixão.

Os Amantes (1958)

No mesmo ano, e mais uma vez com Louis Malle, em fase particularmente inspirada e provocatória (ao ponto de ter de se defender em tribunal, e ser absolvido, das acusações de pornografia pela sua representação do prazer sexual feminino), Jeanne Moreau consolidou a sua recente fama de símbolo sexual cerebral. O que foi francamente ampliado quando a actriz recebeu o prémio especial do júri do Festival de Veneza, com esta sátira aos valores burgueses provocando o choque dos puritanos e a felicidade dos libertinos. Embora, hoje, o filme pareça bastante casto e incapaz de fazer levantar um sobrolho, a ideia de que as mulheres tinham (e procuravam activamente) prazer sexual, era, então, uma heresia – que as décadas seguintes iriam pulverizar.

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A Noite (1961)

Um ano antes, no Festival de Cannes, Jeanne Moreau salva o medíocre filme de Peter Brook, Recusa, e arrebata o prémio para Melhor Actriz. Contudo, a fama, cada vez mais consolidada pelas suas interpretações, não lhe diminui o ímpeto criativo e, nesta película abertamente feminista de Michelangelo Antonioni (vencedor do Globo de Ouro no Festival de Berlim) sobre o aborrecimento conjugal, a actriz praticamente cria o paradigma da “nova mulher”, que os ventos sociais e progressistas das décadas seguintes viriam a banalizar.

Jules e Jim (1962)

A obra de François Truffaut (que ele próprio classificou como “um filme subversivo recheado de doçura”) é, para os cinéfilos, uma espécie de lição sobre as técnicas cinematográficas da nova vaga francesa. Para todos os outros espectadores, a adaptação do romance de Henri-Pierre Roché é sustentada pela luminosa e quase ofuscante presença d’ A Moreau, interpretando Catherine, uma mulher, emancipada, como antes se dizia, dividida por dois amores. Escreveu ainda Truffaut a propósito: “As suas qualidades como actriz e como mulher tornaram Catherine real aos nossos olhos, tornaram-na plausível, doida, possessiva, apaixonada, mas acima de tudo adorável.”

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Viva Maria! (1965)

O regresso à companhia de Louis Malle é um verdadeiro desafio para Jeanne Moreau, que, como agora se diz, teve de sair da sua zona de conforto. Obrigada a abandonar as suas personagens cerebrais e intuitivas nesta comédia musical paródica (banhada por tanto e tão acutilante subtexto político que J. Edgar Hoover, o mítico reaccionário que durante décadas dirigiu o F.B.I., o considerou um incentivo ao comunismo) e, por assim dizer, a enfrentar o maior e mais duradouro símbolo sexual de França, Brigitte Bardot, a actriz não se ficou nas covas. E, mais uma vez, roubou a ribalta, mostrando não apenas a sua versatilidade e a sua qualidade cómica, mas ainda apresentando-se como uma cantora muito estimável e uma dançarina perfeitamente capaz de dar troco a Bardot, mesmo numa cena de striptease.

Querelle (1982)

É um exagero dizer que Jeanne Moreau andou por aí perdida nestes 17 anos, entre os filmes de Malle e a adaptação de Rainer Werner Fassbinder do romance de Jean Genet. Na verdade continuou tão activa como dantes, embora as suas escolhas de argumentos e realizadores não tenham sido as melhores, difícil como é encontrar um filme à sua altura durante esta época. Querelle, porém, acabou com as dúvidas sobre o seu “apagamento” e A Moreau, com o seu pequeno papel, acrescenta consistência a esta fábula homoerótica sobre a liberdade sexual.

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O Gebo e a Sombra (2012)

Foi o seu penúltimo filme, mais uma vez com um pequeno mas determinante papel, nesta película dirigida por Manoel de Oliveira a partir de Raul Brandão. Com a companhia de Michael Lonsdale, Claudia Cardinale, Leonor Silveira, Luís Miguel Cintra e Ricardo Trêpa, numa obra do mestre português, filmada em regime de austera serenidade claustrofóbica, o bónus de alguns minutos em cena de Jeanne Moreau, o seu rosto e a sua voz rompendo o denso manto de nuvens como um raio de sol subversivo, é sinal de como a sua arte, mesmo na velhice e na doença, não se esvaneceu, antes se apurou.

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Para eles é noir ou polar, o que nem interessa, pois o cinema policial francês, descendendo de e por vezes imitando o padrão norte-americano, tem toda uma vida à parte preenchida por crimes filmados com agilidade, requinte e substância. Como estes sete – que, verdade se diga, podiam ser 70 sem desprimor.

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