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Sete policiais franceses para noites de insónia

Que os filmes franceses são um aborrecimento é, pode-se dizer, o sentimento geral. Errado. Porque quando se olha para o policial, a vida em França é um corrupio

Para eles é noir ou polar, o que nem interessa, pois o cinema policial francês, descendendo de e por vezes imitando o padrão norte-americano, tem toda uma vida à parte preenchida por crimes filmados com agilidade, requinte e substância. Como estes sete – que, verdade se diga, podiam ser 70 sem desprimor.

Sete policiais franceses para noites de insónia

O Salário do Medo (1953), de Henri-Georges Clouzot

Henri-Georges Clouzot criou, com este filme protagonizado por Jean Gabin, a primeira obra-prima do cinema policial francês. Graças a uma ardilosa mistura de géneros, o que parece uma arriscada missão profissional torna-se em road movie e película de investigação, antes de desembocar num suspense denso, que permite ao realizador explorar as mais profundas e negras, digamos, deficiências de carácter dos seres humanos, traçando o seu retrato como uma delirante orgia de misoginia, sadomasoquismo e ganância.

Rififi (1955), de Jules Dassin

Tony sai da prisão mas não vem reabilitado e logo se junta a antigos parceiros com planos de assalto. Perante a modéstia do projecto deles, porém, propõe outro mais ousado, mais lucrativo, mais perigoso. Corre tudo bem, mas com um quarto de milhão no bolso um dos membros da quadrilha comete um erro, pequeno, mas o suficiente para despertar a inveja e a vontade de vingança de um gangue rival. Com certeza sem querer, o realizador Jules Dassin, além de acrescentar ao género uma considerável dose de realismo e maldade crua, ainda contribui para o desenvolvimento do que anos mais tarde seria a nouvelle vague do cinema francês.



O Carteirista (1959), de Robert Bresson

Robert Bresson apresenta o caso de um homem incapaz de controlar o seu desejo de roubar como se fosse um estudo científico, uma investigação ao interior de um cérebro que, depois de uma estada na prisão, decide ficar à parte e não se regular pelas regras sociais, desenvolvendo o sentimento de pertença a uma classe de privilegiados acima das convenções e das leis, prosseguindo a sua carreira de carteirista com algum êxito. Bresson explora a queda de Michel (Martin LaSalle) para o roubo como um vício, introduzindo dose considerável de psicanálise nesta aventura de pecado e redenção.  



O Acossado (1960), Jean-Luc Godard

Ainda no horizonte se desenhavam os contornos do cinema engendrado pela nouvelle vague, quando Jean-Luc Godard e o argumentista (embora já tivesse dirigido 400 Golpes) François Truffaut meteram mãos a esta homenagem ao cinema americano. O realizador chamou-lhe um documentário sobre Jean Seberg e Jean-Paul Belmondo, mas O Acossado está longe do documental na sua desembestada narrativa das aventuras do bandido de meia-tijela e sangue na guelra Michel Poicard, em fuga para Paris depois de matar um polícia e aproveitando para cobrar uma dívida quando, a bem dizer, choca de frente com Patricia… e a vida nunca mais será como era.   

   

A Piscina (1969), de Jacques Deray

Foi um pequeno escândalo em Portugal quando Jacques Deray expôs o peito nu de Romy Schneider e a censura deixou passar. Tirando o fait-divers numa sociedade puritana e atrasada, A Piscina é uma espécie de derivado do policial com grande percentagem de drama psicológico na sua disputa de favores sentimentais e carnais, e correspondente dose de ciumeira, entre o frustrado escritor interpretado por Alan Delon, a sua esbelta Marianne, mais o seu antigo amor, Harry (Maurice Ronet), e Penelope (Jane Birkin), a filha deste, que vai libertar os demónios interiores das personagens.



Diva (1981), de Jean-Jacques Beineix

O impressionismo e o existencialismo nunca foram alheios à obra de Jean-Jacques Beineix, mas no dealbar da década de 1980, no seu primeiro filme, eram ainda pistas para o futuro do seu cinema. Nesta altura, com este filme estilizado e plástico iniciava uma nova tendência do cinema policial francês (como se verá, mais tarde, com Luc Besson e Leos Carax) com a história de um fanático de ópera que grava clandestinamente o recital de uma diva (interpretada pela cantora Wilhelmenia Fernandez), conhece uma rapariga por quem se apaixona, mais o seu misterioso mentor, e daí em diante entra numa aventurosa montanha russa de acção, que inclui uma das mais disparatadas e divertidas perseguições da história do cinema.  



De Tanto Bater Meu Coração Parou (2005), de Jacques Audiard

Cinema negro e realismo social não são os companheiros mais habituais, mas na película de Jacques Audiard (a partir de Fingers, um filme menor de James Toback, que, aliás, não fez filmes “maiores”) são unha com carne, substância de uma obra que acompanha a vida do filho de um bandido encarreirado para prosseguir a tradição familiar, até descobrir no piano uma possível alternativa de vida. A vida, porém, é mais crua, e o dilema interpretado por Romain Duris torna-se um drama violentamente radical. 



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