Paul Schrader: "Uma depressão nunca se esquece"

Entrevista a Paul Schrader. Porque vale a pena ver e ouvir o que o realizador americano tem para nos contar
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Paul Schrader é uma das vozes mais influentes do cinema contemporâneo. Escreveu Taxi Driver e Touro Enraivecido para Martin Scorsese, antes de dirigir os seus próprios clássicos de culto. O mais recente, No Coração da Escuridão, é um filme cru e duro sobre um pastor (Ethan Hawke) que se debate com questões espirituais e ambientais.

 

Quando estavas a escrever No Coração da Escuridão percebeste que era puro Paul Schrader?

Foi um prazer fazer este filme. Assim que decidi escrever algo sobre a vida espiritual tudo aconteceu de uma forma muito rápida e natural. Recusei escrever este filme durante muito tempo, em parte porque nunca pensei que alguém o financiasse. Mas entretanto a economia do cinema mudou.

O filme tem um humor negro – de certa forma, o reverendo Toller (Ethan Hawke) é muito engraçado. Concordas?

Quando as pessoas falam dos filmes a primeira coisa que comentam é o argumento, mas a última de que se esquecem é das personagens. É isso que fica com as pessoas. Posso dizer que esculpir uma personagem feita de contradições é um grande privilégio.

O estado de espírito do Toller reflecte o teu?

Quando uma pessoa tem uma experiência de depressão clínica ou desespero existencial nunca o esquece. Tal como uma mulher grávida se lembra do que é a gravidez, mesmo que não volte a engravidar. Não tens de estar clinicamente deprimido para escreveres sobre isso, se já o sentiste.

O filme parece versar sobre um certo mal-estar espiritual. As pessoas não conseguem aguentar a vida se não tiverem, se não encontrarem, um propósito. Estavas a pensar nisso quando o escreveste?

Sim. Todos arranjamos uma maneira de aguentar os dias. Mas quis analisar o que acontece quando estabeleces uma ligação entre o teu desespero e a tua salvação. Como se garantisses a tua redenção através do teu sofrimento. Isso é um pecado. É uma patologia.

É difícil não comparar este filme com o Taxi Driver, devido ao protagonista, o diário, a narração. Foi algo consciente?

No argumento e na filmagem há alguns piscares de olho ao filme do Marty. Mas nunca senti que o Taxi Driver fosse fulcral para este filme.

Disseste que escrever o Taxi Driver foi algo terapêutico. Escrever No Coração da Escuridão também?

Não. Escrevi o Taxi Driver porque tinha medo de me tornar naquele personagem. Neste caso não tinha esse receio. Tenho 71 anos. Não vou chegar ao final deste século. Posso achar o futuro muito negro, mas esse já não é o meu problema. O que este filme fez foi trazer-me de volta a casa. Passas boa parte da tua vida a pensar que estás a fugir e um dia olhas e apercebes-te que estás a voltar a casa.

Muitos filmes são comparados ao Taxi Driver, mas as semelhanças são sempre superficiais. Há algo de poético no facto de aqui as comparações serem merecidas. Parece que és o único que consegue fazer isto.

[Risos] Mas a verdade é que, esteticamente, não têm nada ver. Este filme é muito mais contido.

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