Pedro Pinho: “Este filme funda-se na angústia da dúvida”

Pedro Pinho discute ‘A Fábrica de Nada’, o filme mais original feito até agora sobre a crise
a fábrica de nada
Por Eurico de Barros |
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Um grupo de operários de uma fábrica nos arredores de Lisboa começa uma experiência de autogestão, depois de terem feito greve e de a administração se ter sumido sem dizer água vai, deixando-os em situação de falência. Baseado numa ideia de Jorge Silva Melo e na peça A Fábrica de Nada, de Judith Herzberg, que já foi encenada por este, A Fábrica de Nada, de Pedro Pinho, é mais um filme sobre a crise mas que não quer reduzir-se a ser apenas isso, misturando ficção, documento e reflexão, e incluindo mesmo um momento musical. Ganhou o Prémio da Crítica Internacional no Festival de Cannes, e o de Melhor Filme no Festival de Munique. A Time Out entrevistou o realizador.

 

Dos vários filmes portugueses feitos até agora sobre a crise, o seu é o mais abertamente político e militante, que até inclui e transporta uma discussão sobre o sistema laboral e a situação e o futuro do capitalismo. Houve sempre a intenção de fazer um filme assim, ou foi o resultado de uma evolução na sua concepção?

O filme não tem nada de militante e eu não gosto mesmo nada dessa palavra, que pressupõe um projecto e uma direcção político-ideológica bem definida e uma vontade inabalável de a defender. A Fábrica de Nada pretendeu construir-se precisamente no contrário disso. O filme convoca um conjunto de ideias filosóficas e políticas e propõe uma reflexão sobre um tempo, que é aquele que estamos viver. Mas é fundado precisamente pela angústia da dúvida. Pelo sentimento de que as narrativas políticas do século XX não nos satisfazem como ferramentas para pensar este tempo. Pela constatação da dificuldade em encontrar um discurso que seja operacional e válido para sairmos do estado de impotência em que estamos mergulhados.

A personalidade multiforme e não-linear da fita foi também decidida  desde logo?

Acho que foi a própria natureza da realidade que encontrámos quando iniciámos a pesquisa e a escrita do argumento que, pela sua gravidade e imponência, nos convenceu de que não poderíamos apenas fazer uma historieta sobre o fecho de uma fábrica. De alguma forma sentimos que tínhamos que ser sugados para dentro do filme, sujar as botas e expor também o nosso desnorte e a nossa impotência, a par da das personagens. A “personalidade multiforme” do filme tem que ver com essa introdução de um olhar perdido e que procura, que é também o nosso, no meio da história.

Apesar de ser assinado por si, A Fábrica de Nada é apresentado como um filme colectivo (e que parte de uma ideia de Jorge Silva Melo), que faz lembrar certas experiências do género feitas após o 25 de Abril e durante o PREC no cinema português. Será um modelo para continuar, ou só uma experiência pontual?

Espero que seja para continuar, não sei. Eu tenho a impressão que o cinema é sempre uma actividade colaborativa. Acho que muita gente sente isso. A minha actividade no cinema, o pensamento, a escrita, a câmara, tem sido sempre muito partilhada. Co-realizei dois filmes. Funciono melhor assim. Como se diz às tantas neste filme “o ser humano em colectivo é sempre mais inteligente”. Eu acho que isso é frequentemente verdade. Com excepções calamitosas.

Além disso a importância que se dá à autoria de um objecto (sobretudo no cinema) é muitas vezes completamente desfasada e é uma coisa que vem de um projecto específico dos anos 70 em França. Antes não era assim. Eu não faço disso uma grande bandeira, mas não me sinto confortável nesse papel. Sinto sempre que é uma usurpação de um trabalho que não foi feito só por mim. Neste caso é tão obvio que o filme foi pensado e escrito a várias mãos, que quisemos atribuir a autoria a essas cabeças todas.

Como é que correu a experiência de misturar e dirigir actores profissionais e não-actores? De onde vêm estes? Alguns deles viveram situações laborais como a que o filme descreve?

A maioria dos actores do filme não tinha nenhuma experiência anterior como actores. Surgiram de um casting que fizemos na zona, entre operários desempregados ou em vias disso. Outros ainda são amigos nossos que achámos que tinham características nas suas vidas que poderíamos importar para as personagens. Há situações de vida muito próximas do que se vê no filme. Foi aliás a partir delas que construímos a narrativa.

Há alguma dificuldade em misturar esses dois registos. Actores com um background técnico – com um conjunto de ferramentas, ao nível do trabalho do texto, etc - a quem se pede para repensar parcialmente a sua postura na cena e gente que tem como principal ferramenta a sua espontaneidade e a sua memória emocional. Mas como estávamos todos com muita vontade de o fazer, acabou por correr bem.

A figura do argentino (economista?) que surge de repente na história e que passa a acompanhar os trabalhadores da fábrica no seu percurso, pode ser vista como que a “consciência” ou o “moderador” dos mesmos  nas suas acções, e/ou do próprio filme?

A aparição da personagem do Daniele Incalcaterra (que é um realizador de documentários italiano-argentino) no filme - e que é literalmente uma aparição - pode ser vista como a tentativa de introdução de um movimento perpendicular à realidade, de um olhar próximo do nosso, sobre aquele contexto que ali encontrámos. Essa perturbação permitiu-nos introduzir de alguma forma a nossa perplexidade, os nossos questionamentos e uma luta a mais com os restantes personagens para sairmos dali todos vivos e em pé. No final não é bem certo que seja isso o que acontece. Mas há quem acredite que sim.

Fala-se muito no filme de capitalismo, de auto-gestão e de formas de gestão alternativas, e há uma sequência de negação de um possível recurso à violência armada. A intenção do filme, mais do que apontar um qualquer caminho político-ideológico rígido, é deixar ideias e pistas para um debate?

Acho que o filme, mais que nada pretende pensar sobre os seres humanos naquele lugar e naquele tempo. A forma como aqueles corpos e aquelas ilusões são expostas à brutalidade que é a Economia. E como tentam reagir, sempre em desvantagem e em derrota permanente, a essas adversidades. O filme, ao pretender suscitar alguma reflexão, convoca uma série de ideias e de atitudes (que fazem parte do nosso património colectivo) e que achámos serem válidas para dar resposta às violências que são infligidas às personagens. O objectivo era de alguma forma mostrar algumas das virtudes e dos defeitos dessas ideias e saber que - o que quer que tentemos fazer daqui para a frente - é melhor que contemos não só com as virtudes, mas também com os defeitos das nossas ideias.

Que filmes, e que realizadores, inspiraram ou influenciaram A Fábrica de Nada, e a si?

É mesmo muito difícil responder a isso. Poderia dizer que todos os filmes que vi e amei (que não são assim tantos, também) influenciam a minha maneira de tentar fazer filmes. Mas isso é muito vago. Se disser que a forma como procurámos relacionar a câmara com o décor e com as personagens vai tanto beber ao Cassavetes ou ao Abdellatif Kechiche como ao Bela Tarr ou até aos Straub, então aí dirá que sou tolo. Por isso não sei bem o que dizer, preferia não ter que dizer nada.

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