Sundance: a república do cinema independente

Apesar do cinema independente ter crescido e com isso ter ganho valor comercial não desprezível, o Festival de Sundance, em cena até dia 28, ainda é dos lugares mais prováveis para encontrar cinema inovador, ou pelo menos diferente.
keira knightley
Colette
Por Rui Monteiro |
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Fundado por Robert Redford, na distante Park City, no frio Utah, o Festival de Cinema de Sundance é a Meca do cinema independente e, de facto, o berço gerador e divulgador de boa percentagem do melhor cinema americano nas últimas quatro décadas. Uma dúzia de filmes dá uma pequena ideia do que aí vem.

Sundance: a república do cinema independente

Damsel - Still 1

Damsel

Volta não volta e lá vai acontecendo que um género dado como morto encontra uns aventureiros convencidos de serem capaz de o ressuscitar. Ora, na edição 2018, esta espécie de Complexo de Frankenstein afectou os realizadores David e Nathan Zellner, que se atiraram ao filme de cowboys com convicção, mas também com considerável dose de ironia. De resto, a película, com Robert Pattinson, Mia Wasikowska e Robert Forster no elenco, é uma história clássica do velho Oeste, pelo menos na versão Hollywood, onde um homem procura o amor, o verdadeiro e genuíno, e, no seu caminho, entre copos, cruzam-se outro homem, do tipo bêbado singelo, Penélope, mulher que sabe o seu caminho, e o vilão, um canalha oleoso com uma queda por camurça.

Wildlife

Empenhado em ser levado sério, o actor Paul Dano dirige Carey Mulligan e Jake Gyllenhaal na sua estreia por detrás da câmara, logo como uma daquelas histórias de disrupção. Adaptando, com Zoe Kazan, um romance de Richard Ford, o enredo é dado pelo ponto de vista de Joe (Ed Oxenbould), o filho de 14 anos de Jeanette e Jerry, habitantes de pequena cidade no Montana na década de 1960. Gente normal, vulgar, até Jerry perder o emprego e ficar sem razão para se levantar da cama. O que leva a mulher a abandonar o papel de dona de casa e, mostrando como não estava domesticada, com determinação e envolvimento, pôr em causa o que era esperado da família nuclear e assumir um papel raro entre as mulheres da sua época.

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Studio 54 - Still 1
Bettmann

Studio 54

Cada vez que o ambiente político-psico-social anda pelo nublado com hipóteses de chuva, como acontece nos Estados Unidos, por razões conhecidas, há sempre quem se lembre do hedonismo. E quando alguém se lembra do hedonismo eis que vem à baila essa grande sala de baile e sexo e disco e cocaína e excentricidade como forma de vida, isso, o Studio 54. Matt Tyrnauer é, desta vez, o responsável por recordar esse ícone da boémia dos anos de 1970 na sua gloriosa ascensão, mas também na sua estrepitosa queda, em documentário recheado de imagens eloquentes e, muitas delas, pouco ou nada conhecidas.

Monster

Voltando ao tal ambiente político-psico-social, aqui está, na estreia na realização de Anthony Mandler, um filme que toca em ferida bem aberta. A partir do romance de Walter Dean Myers, o realizador (um veterano da publicidade e do teledisco) conta a história de Steve Harmon (Kelvin Harrison Jr., num elenco que inclui Jeffrey Wright, Jennifer Hudson, Jennifer Ehle e Tim Blake Nelson), um rapaz de 17 anos, bom estudante com aspirações a cineasta, presente em tribunal por ter sido apanhado de vigia a um sangrento assalto a um restaurante no Harlem.

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Madeline’s Madeline

A experiente, e lídima praticante expressionista, Josephine Decker, deita agora o seu olhar sobre o trabalho do actor como quem reflecte, em sentido mais universalista, sobre o estado da arte. A jovem Helena Howard, no seu primeiro papel significativo, é praticamente o que a realizador precisa (apesar dos importantes papéis de Miranda July e Molly Parker) para levar avante este filme inclinado ao ensaio sobre os desafios, as dúvidas, a ética e a competição perante as quais são colocados os jovens artistas. Neste caso através de história de actriz levada ao limite, para quem a linha entre interpretação e realidade se torna cada vez mais ténue, e como o seu transtorno a levará à descoberta em si de forças particularmente destrutivas.

Bisbee '17 - Still 1

Bisbee ’17

Mais uma vez, mostrando como atenção à actualidade e à realidade também é uma maneira de ser do cinema independente, regressa-se ao ambiente político-psico-social dos Estados Unidos neste documentário de Robert Greene. Agora para tratar de maneira ligeiramente enviesada assuntos como a emigração e o racismo através de um episódico histórico. Acontece que em Bisbee, uma cidade mineira, no Arizona, praticamente na fronteira com o México, em 1917, 1200 mineiros em greve, muitos deles nascidos do outro lado da fronteira, foram violentamente expulsos das suas casas e abandonados à morte no deserto. O acontecimento ficou conhecido como a Deportação de Bisbee, e, na comemoração do 100º aniversário, Greene filma as várias reencenações daquela triste história, isto é, a maneira como diferentes grupos vêem a mesma história, firmando-se nas convicções mesmo contra factos documentados.

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Colette

É verdade, não é nada costume, mas o cinema independente já está crescidinho o suficiente para se chegar ao drama histórico. Embora o faça com cautelas, trazendo, à laia de seguro, Keira Knightley para o papel da romancista francesa, Wash Westmoreland é o realizador desta “excepção” na programação do festival. Viagem por uma obra tão provocadora como vívida, traduzida em muitos e muitos volumes de ficção, jornalismo, memorialismo, ou dramaturgia, que agitaram consciências e moral no século XX europeu, e de Colette fizeram um ícone da mulher independente, emancipada, exemplo de feminismo, capaz de quebrar até o direito exclusivo do homem à libertinagem, afirmando a sua sexualidade sem vergonha. Mulher que, por vezes, se dava à dúvida e chegava a hesitar, como se intui dessoutro retrato que argumento e realização introduzem, mais interior e psicológico e, por ventura, mais realista do que a imagem de estrela pop literária.

Shirkers

O cinema independente está tão crescido que já gera a sua própria descendência. Sandi Tan, a realizadora de Singapura, é um desses exemplos, aqui recorrendo à infecção da ficção pelo documentário (ou vice-versa). Para mostrar, como uma biografia, a história de um filme perdido e recuperado, o qual, por sua vez, dá origem a outro filme onde convive com uma miríade de situações, circunstâncias e personagens, confrontações e apaziguamentos, os retalhos compondo uma colcha de recordações do idealismo da última década do século passado até ao confronto com a realidade do novo século.

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The Tale

As voltas que a vida dá. Depois de queridinha de Sundance, mais ou menos desprezada quando transferida para a corrente dominante do cinema norte-americano, entretanto recuperada pela televisão, Laura Dern regressa ao festival de Park City na primeira longa-metragem de Jennifer Fox. Aqui, a actriz, tem o papel de uma jornalista e professora, vivendo uma relação inviável em Nova Iorque. Vida que se transforma quando a mãe descobre um conto que Jennifer escrevera 40 anos antes. Escrito, para a autora, muito desligado da sua memória dos acontecimentos que relata, o que a leva a uma tentativa de descoberta da verdade, isto é, enceta mais um caminho de dúvida e revelação.

The Happy Prince

O conhecido actor Rupert Everett escreve, realiza e interpreta este filme de época dedicado aos últimos três anos (1897-1900) de vida do escritor irlandês Oscar Wilde. Com aquele jeito “made in BBC”, Everett não poupa no detalhe nem na precisão histórica da sua narrativa, ilustrando este período, conturbado pelo caluniante e degradante processo judicial por homossexualidade (ou “indecência”, como se dizia na altura e consta da sentença), a partir da sua saída da prisão e retirada estratégica para França planeada pelos seus amigos interpretados por Edwin Thomas e Colin Firth. Época, aliás, traduzida em grande produtividade, e, segundo Everett, experiências de muita intimidade.

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