10 obras de Brahms que precisa de ouvir

O CCB inicia a temporada 2017/18 com o Concerto para piano n.º 1 de Brahms, com Artur Pizarro como solista

©DR

Compositores como Mozart ou Vivaldi tinham a fama de compor de um jacto, vertendo directamente para o papel obras acabadas e despendendo pouco ou nenhum tempo com revisões. Mas Brahms não só viveu num tempo em que os compositores possuíam uma consciência mais aguda do seu estatuto como artistas e preocupavam-se com a forma como o seu tempo e a posteridade iriam julgar a sua obra, como a sua própria personalidade o predispunha a ser muito exigente consigo mesmo. Daí resultou que muitas das suas obras tivessem uma génese laboriosa e retorcida e que muitas tivessem acabado por ser destruídas pelo compositor por não as achar dignas de serem ouvidas. Nunca saberemos qual o valor das partituras que acabaram na lareira, mas tudo o que Brahms tornou público – com excepção da Abertura para uma Festa Académica (1880), uma obra de circunstância – é de uma qualidade que mostra que o seu crivo era muito apertado.

Johannes Brahms nasceu em Hamburgo em 1833, numa família humilde e em adolescente tocou piano em bares pouco recomendáveis na zona portuária da cidade, de forma a ajudar ao sustento da família. Aos 17 anos juntou-se ao violinista Ede Reményi, com o qual se apresentou em concerto pela Europa. No decurso dessas tournées travou conhecimento com o violinista Joseph Joachim, que se tornaria seu amigo e um dos mais atentos e exigentes críticos das suas partituras, e com o casal Robert e Clara Schumann, que ficaram entusiasmados com o talento e a natureza afável do jovem músico. Robert elogiou-o num artigo como uma das mais extraordinárias promessas da música, o que deixou Brahms ainda mais inseguro sobre as suas capacidades, por recear não corresponder a tão elevadas expectativas.

A sua obra viria a confirmar que os elogios e expectativas de Schumann nada tinham de exagerado.

10 obras de Brahms que precisa de ouvir

Sonata para piano n.º 1 op.1 (1853)

É natural que Schumann tenha ficado deslumbrado quando, em 1853, conheceu um rapaz que, embora tendo apenas 20 anos, era capaz de compor obras tão maduras e originais como esta sonata, que foi a primeira peça que publicou. Não está entre as peças mais conhecidas de Brahms, mas não é uma mera “obra de juventude”, pois, ao mesmo tempo que se assume como admirador de Beethoven, Brahms mostra que não quer limitar-se a compor à maneira do seu ídolo.

[IV andamento (Finale: Allegro con fuoco), por Sviatoslav Richter, gravação de 1987]

Concerto para piano n.º 1 op. 15 (1858)

O concerto tem um lugar tão incontestável no repertório canónico que poderá parecer inesperado que a sua génese tenha sido tão tortuosa e hesitante. Tudo começou em 1854, com a composição de uma sonata para dois pianos que Brahms não achou satisfatória e tentou converter numa sinfonia. No processo de orquestração, em que se sentia pouco à-vontade e em que pediu amiúde conselho a dois amigos, Joseph Joachim e o compositor e maestro Julius Otto Grimm, Brahms acabou por concluir que aquele material teria mais viabilidade como concerto para piano. A estreia teve lugar em 1858, em Hannover, com a orquestra da corte sob a direcção de Joachim e com Brahms como solista.

[Início do I andamento, por Vladimir Ashkenazy (piano) e a Filarmónica de Los Angeles, dirigida por Carlo Maria Giulini]

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Quinteto com piano op.34 (1864)

Outra obra de gestação complicada: nasceu como quinteto de cordas em 1861-62, mas quando o fez tocar, em privado, em 1863, Brahms acabou por destruir a partitura, influenciado pelas críticas negativas de Joachim e de Clara Schumann, cujos julgamentos tinha em mais alta conta do que os seus. Mais tarde, reciclaria, de memória, parte do material para criar uma sonata para dois pianos (que só seria publicada em 1872), a partir da qual prepararia o quinteto de cordas que estreou em Viena em 1864. Ouvindo esta sublime partitura ninguém adivinharia quão atribulada foi a sua composição.

[I andamento (Allegro non troppo), por Till Felner (piano) e o Belcea Quartet (Alpha)]

Um Requiem Alemão op. 45 (1868)

O texto do Requiem Alemão (Ein Deutsches Requiem) foi compilado pelo compositor a partir da Bíblia luterana e põe em relevo a fragilidade e efemeridade da vida humana e os muitos padecimentos lhe estão reservados na vida terrena, mas promete que os que choram serão consolados e que “a dor e os suspiros serão escorraçados” e substituídos pela “alegria eterna”. A música de Brahms evoca magistralmente este jogo de sombras e luzes, naquele que é um dos mais geniais Requiem de sempre.

[I andamento (“Selig Sind Die Da Leid Tragen), pelo Wiener Staatsopernchor e pela Sinfónica de Viena, dirigidos por Nikolaus Harnoncourt, ao vivo em 1988. “Abençoados sejam os que choram, pois serão confortados; os que semeiam com lágrimas, com cantos de alegria colherão”]

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Quarteto com piano n.º 3 op.60 (1875)

Este quarteto é mais um exemplo do prolongado e labiríntico labor que envolveu muitas obras de Brahms: começou a ser esboçado em 1856, foi profundamente remodelado em 1861 e só ficou terminado em 1875. Porém, quem seria capaz de adivinhá-lo ao ouvir as melodias fluidas e enlevadas do seu Andante?

[Excerto do III andamento (Andante), por Salvatore Accardo (violino), Antoine Tamestit (viola), Gautier Capuçon (violoncelo) e Menahem Pressler (piano), ao vivo no Festival de Verbier, Suíça, 2008]

Sinfonia n.º 1 op.68 (1876)

“Nunca escreverei uma sinfonia! Não faz ideia do que é estar sempre a ouvir os passos de um gigante atrás de si!” As palavras são de Brahms e o gigante é Beethoven. Fritz Simrock, o editor de Brahms, bem o espicaçava para que compusesse uma sinfonia: “Não tem nada de novo para me mostrar? Não terei uma sinfonia sua este ano?”, perguntava numa carta de 1873. Por esta altura Brahms já era quarentão e conquistara o reconhecimento do público e da crítica. E logo em 1854 começara a trabalhar numa sinfonia, que acabara por não passar do estado de esboço. Entretanto, compusera apreciável quantidade de peças para piano, música de câmara, música sacra, música coral profana, um concerto para piano e copioso número de Lieder. Sinfonias é que não – o espectro do seu venerado Beethoven e das suas Nove Magníficas tolhia-lhe a criatividade. Só em 1874, lá ganhou coragem: a Sinfonia n.º 1 estreou a 4 de Novembro de 1876, em Karlsruhe, e a estreia vienense teve lugar um mês depois, sendo muito bem acolhida pelo exigente crítico Eduard Hanslick.

[Excerto do IV andamento, pela Orquestra Sinfónica de Berlim, dirigida por Simon Rattle, ao vivo na Berlin Philharmonie, 2008. Brahms conseguiu superar o bloqueio causado pelas sinfonias de Beethoven, mas não conseguiu libertar-se da sua sombra: no início deste excerto pode ouvir-se uma melodia que evoca um trecho da Sinfonia n.º 9, em jeito de homenagem ao seu ídolo (e atormentador involuntário)]

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Quinteto com clarinete op.115 (1891)

Em 1890, aos 57 anos, Brahms pensou em abandonar a composição, por achar que já tinha deixado um número suficiente de obras válidas. Porém, ao ouvir Richard Mühlfeld, clarinetista da orquestra da corte ducal de Meiningen, sentiu nascer nele um impulso para escrever várias obras para clarinete, Deste surto de actividade nasceram quatro obras sublimes: as duas Sonatas para clarinete op.120 (1894), o Trio com clarinete op.114 (1891) e o Quinteto com clarinete op.115. O quinteto foi composto muito rapidamente – pelos padrões de Brahms – e estreado em Meiningen por Mühlfeld, com Joachim no primeiro violino e membros da orquestra de Meiningen.

[I andamento (Allegro), por Sharon Kam (clarinete) e o Jerusalem String Quartet, ao vivo, 2013]

Duplo concerto para violino e violoncelo op.102 (1887)

Os concertos para dois solistas eram comuns no período barroco, mas uma raridade no período romântico, pelo que esta escolha de Brahms é inusitada. A obra foi estreada pelos dedicatários, Joseph Joachim e Robert Hausmann (violoncelista do Joachim Quartet), com Brahms a dirigir. Brahms e Joachim tinham tido uma pequena zanga algum tempo antes e a dedicatória do concerto marcou a reconciliação dos dois amigos.

[I andamento (Allegro), por Renaud Capuçon (violino) e Gautier Capuçon (violoncelo) e a Orquestra Sinfónica Yomiuri Nippon, dirigida por Hirokami Junichi, ao vivo no Suntory Hall, Tóquio, 2008]

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Seis peças op.118 (1893)

Após as Duas Rapsódias op.79, de 1979, Brahms passou 13 anos sem escrever para piano solo. Porém, nas férias de Verão de 1892 e 1893, regressou ao seu instrumento e rubricou quatro colecções de miniaturas – op.116 a 119 – que representam o cume da sua produção pianística.

As Seis Peças (Klavierstücke) op.118 datam de 1893 e cobrem um espectro emocional que vai da terna poesia da n.º 2 à atmosfera trágica e desesperada da n.º 6.

[n.º 2 Intermezzo (Andante teneramente), por Radu Lupu, gravação de 1976]

Quatro Canções Sérias op.121 (1896)

São três canções para baixo e piano sobre textos do Velho Testamento, que abordam os temas da morte e da efemeridade da vida, rematadas por uma canção sobre texto do Novo Testamento, que fala de fé, esperança e caridade, e podem ser vistas como o testamento musical de Brahms. Estas quatro “canções espirituais” foram a sua derradeira obra, compostas ao mesmo tempo que os Onze Prelúdios Corais para órgão op.122, que só seriam publicados postumamente. Brahms morreria em Viena um ano depois, com 63 anos.

[n.º 1 “Den Es Gehet Dem Menschen”, por Dietrich Fischer-Dieskau (barítono) e Daniel Barenboim (piano) (Deutsche Grammophon). O texto provém do Eclesíastes. “O destino do homem é o mesmo das bestas; assim como morre um, também morre o outro; todos têm o mesmo fôlego; e o homem não tem vantagem sobre a besta, pois tudo é vão; Tudo desemboca no mesmo lugar; tudo é feito de pó e ao pó voltará”]

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