10 motivos para se apaixonar por Mahler

Quem ache que a música clássica é sempre sisuda e solene, provavelmente não conhece a música de Mahler, onde há espaço para todo o espectro das emoções humanas. Aqui ficam dez sugestões e a recomendação para ir ouvir a Sinfonia n.º 4 na Fundação Gulbenkian
Gustav Mahler
©Leonhard Berlin-Bieber Gustav Mahler
Por José Carlos Fernandes |
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Gustav Mahler (1860-1911) deixou uma obra relativamente breve, pois faleceu com apenas 50 anos e boa parte do seu tempo estava tomado pelos afazeres como maestro e director da Ópera da Corte (Hofoper) de Viena, pelo que só nas férias de Verão podia consagrar-se à composição. O espectro de géneros a que se dedicou foi também invulgarmente limitado: sinfonias e canções, para voz e piano e ou voz e orquestra.

Não deve ver-se nesta escolha um sinal de conservadorismo ou estreiteza de espírito – a perspectiva de Mahler sobre o que deveria ser uma sinfonia era muito abrangente, como ficou bem explícito na famosa resposta que deu ao compositor finlandês Jean Sibelius que cultivava um conceito de sinfonia regido por regras austeras e uma lógica interna muito coerente: “Não! A sinfonia deve ser como o mundo, deve abarcar tudo”. E. com efeito, nas sinfonias e canções de Mahler está o mundo inteiro.

A Sinfonia n.º 4 em Lisboa

Fundação Gulbenkian, sexta-feira 7 de Setembro, 20.00, 30-90€

10 motivos para se apaixonar por Mahler

Lieder eines Fahrenden Gesellen (1884-1896)

O ciclo Lieder eines Fahrenden Gesellen (Canções do Viandante), uma das primeiras obras maduras de Mahler, nasceu de um desgosto amoroso: a sua paixão pela soprano Johanna Richter, que cantava no Teatro Real de Kassel, onde Mahler assumira, em 1883, funções de maestro, não foi correspondida. Entre a dezena de poemas que a paixão por Richter lhe inspirou, Mahler tomou três, sobre o tema da ruptura amorosa, somou-lhes outro adaptado da colectânea de poesia popular Des Knaben Wunderhorn e transformou-os num ciclo de Lieder para barítono e piano – esta obra de 1884 ganharia depois roupagens orquestrais, numa versão que estreou em 1896.

[“Ich Hab Ein Glühend Messer”, de Lieder eines Fahrenden Gesellen: O amante rejeitado sente uma faca incandescente dentro do peito e as instruções do compositor quanto ao carácter a dar à partitura são explícitas: “tempestuoso e selvagem”. Por Thomas Hampson (barítono) e Filarmónica de Viena, com direcção de Leonard Bernstein]

Sinfonia n.º 1 (1888)

É provável que Mahler se tenha identificado com Albano de Cesara, o herói do romance Titã, que Jean Paul publicou entre 1800 e 1803. Na luta que Albano trava, sozinho e armado apenas da sua força interior, contra as armadilhas do destino, terá talvez Mahler visto espelhada a sua luta pela afirmação no meio artístico. O certo é que deu à primeira versão da sua primeira sinfonia o título de Titã, embora esclarecesse que a sinfonia não era sobre o romance de Jean-Paul e o programa que delineou para ela nada tivesse a ver com o livro. Nas sucessivas revisões da obra, Mahler descartou o título e o programa, bem como o andamento inicial, “Blumine”, mas o título acabou por ficar colado à sinfonia. Reconhece-se facilmente no III andamento a ingénua melodia da canção infantil “Frére Jacques” (“Bruder Martin” no mundo germânico), que Mahler faz assumir várias facetas, umas satíricas, outras demoníacas.

[III andamento da Sinfonia n.º 1, pela Filarmónica de Los Angeles, dirigida por Gustavo Dudamel]

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Des Knaben Wunderhorn (1899-1905)

Mahler fez da colecção de “velhas canções alemãs”, publicada entre 1805 e 1808, com o título Des Knaben Wunderhorn pelos poetas Achim von Arnim e Clemens Brentano, o fulcro da sua actividade criativa. Esta vasta compilação – meio milhar de textos – onde se mesclam canções de amor, canções de soldados, cantigas de roda, contos fantásticos, uns de tom ingénuo, outros tétricos, outros cómicos, provenientes da tradição oral, serviu-lhe de inspiração para compor 24 canções: nove fazem parte das Canções de Juventude para voz e piano, publicadas em 1892 e muito menos conhecidas do que as restantes; das 13 canções para voz e orquestra publicadas como Wunderhorn-Lieder em 1899, algumas foram incorporadas nas Sinfonias n.º 2, 3 e 4, tendo sido retiradas da lista quando da republicação em 1905, sob o título Des Knaben Wunderhorn. Mahler recorreria ainda à colecção de Arnim e Brentano para mais duas canções, “Revelge” e “Der Tamboursg’ sell”, que têm temática comum: um jovem tamborileiro que marcha para a morte.

[“Revelge”, uma canção com texto proveniente da compilação Des Knaben Wunderhorn: sob a superfície de petulância e bravata, a crua tragédia da guerra. Interpretação de Dietrich Fischer-Dieskau e Orquestra Sinfónica de Londres, dirigida por George Szell, 1968]

Des Knaben Wunderhorn de Mahler não é propriamente um ciclo, pois não existe nele sequência narrativa ou afinidade temática. Entre as canções estão, por exemplo, “Verlor’ne Mihr”, que retrata, com humor, o fim da relação entre um hussardo e a sua namorada, cada qual a fazer-se mais fanfarrão que o outro; “Des Antonius von Padua Fischpredigt” (“O Sermão de Santo António aos Peixes”), com o santo, desconsolado perante a nula afluência à sua igreja, a ir pregar para um ribeiro e cativando a atenção dos seus habitantes; ou “Lob des Hohen Verstandes”, em que um cuco e um rouxinol discutem sobre qual deles será o melhor cantor e acabam por nomear como árbitro um burro (pode ver-se nesta escolha uma farpa de Mahler aos críticos musicais).

[“Des Antonius von Padua Fischpredigt”, pela soprano Lucia Popp e pela Orquestra do Royal Concertgebouw, dirigida por Leonard Bernstein]

Sinfonia n.º 2 (1894)

Em 1888, Mahler começou a trabalhar no poema sinfónico Totenfeier (“Cerimónia Fúnebre”), que viria a converter-se no I andamento da Sinfonia n.º 2. A este andamento patético e sombrio foi acoplado um Andante moderato em ritmo de Ländler (um parente da valsa), despreocupado e quase fútil. A este sucede-se um III andamento em moto perpetuum, sardónico e às vezes demoníaco, que é uma versão orquestral de um dos Wunderhorn-Lieder, “Des Antonius von Padua Fischpredigt” (“O Sermão de Santo António aos Peixes”).

[III andamento da Sinfonia n.º 2, pela Orquestra Sinfónica Simón Bolívar de Venezuela, dirigida por Gustavo Dudamel, BBC Proms, 2011, Royal Albert Hall, Londres]

E quando o moto perpetuum, mecânico e impessoal, se extingue como um brinquedo de corda quando a corda acaba, entra, sem quebra, a voz da contralto entoando uma das mais sublimes e etéreas melodias jamais compostas: “Urlicht” (“Luz Primordial”), outro dos Wunderhorn-Lieder.

[IV andamento “Urlicht”, da Sinfonia n.º 2, por Janet Baker (mezzo-soprano) e Orquestra Sinfónica de Londres, dirigida por Leonard Bernstein]

A atmosfera apaziguadora assim criada é estilhaçada com a brutalidade de um martelo contra um vidro: é o início do V andamento, que dura quase 40 minutos, ou seja, mais do que muitas sinfonias completas e que conclui com um hino de Friedrich Gottlieb Klopstock celebrando a ressurreição (daí o título de “Ressurreição” por vezes aposto à sinfonia).

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Sinfonia n.º 4 (1900)

Para o IV andamento da Sinfonia n.º 4, Mahler escolheu a canção “Das Himmlische Leben” (“A Vida Celeste”), outro dos Wunderhorn-Lieder, que oferece uma visão ingénua e prosaica da vida no Paraíso, um lugar onde “o vinho não custa um cêntimo”, a padaria está a cargo dos anjos, há fartura de legumes (“espargos, feijões e tudo o que possa desejar-se”) e não é preciso andar pelo mato à caça de lebres, pois elas passeiam pelas ruas: e caso seja dia de abstinência de carne, não há problema, pois os peixes nadarão alegremente ao nosso encontro. Mahler pretendia que tão pueris deleites fossem cantados por uma voz de criança, mas hoje em dia é usualmente cantada por sopranos.

[IV andamento da Sinfonia n.º 4, por Helmut Wittek (rapaz soprano) e pela Concertgebouw de Amesterdão, dirigida por Leonard Bernstein]

Rückert-Lieder (1901)

O ciclo de cinco canções sobre poemas de Friedrich Rückert estreou em 1905. Mahler revia-se plenamente numa delas, “Ich Bin der Welt Abhanden Gekommen” (“Estou Perdido para o Mundo” ou “Tornei-me num Estranho para o Mundo”), que nos transporta para um lugar sereno à margem da vida, um refúgio do “tumulto do mundo”, onde até a marcha do tempo se suspende. O poema sugere que este isolamento não é sinónimo de solidão, mas de auto-suficiência e bem-aventurança.

[“Ich Bin der Welt Abhanden Gekommen”, um Rückert-Lieder, por Magdalena Kozena (mezzo-soprano) e Orquestra do Festival de Lucerna, dirigida por Claudio Abbado]

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Sinfonia n.º 5 (1902)

A sinfonia abre com uma trompete isolada que convoca a orquestra para uma marcha fúnebre, que se move com uma elegância grave por uma paisagem desolada. As marchas fúnebres são recorrentes nas sinfonias de Mahler, mas nenhuma é tão elegíaca e nobre como esta.

[I andamento (Trauermarsch) da Sinfonia n.º 5, pela Filarmónica de Berlim, dirigida por Claudio Abbado, ao vivo na Mahler Feest, Concertgebouw, Amesterdão, 1995]

O IV andamento (Adagietto) é, de longe, o trecho mais popular do compositor e muitas paixões por Mahler começaram com a sua descoberta. O andamento tem afinidades, na construção e na atmosfera de serenidade extra-terrena, com o Rückert-Lieder “Ich Bin der Welt Abhanden Gekommen”.

[IV andamento (Adagietto) da Sinfonia n.º 5, pela Filarmónica de Viena, dirigida por Leonard Bernstein]

Sinfonia n.º 7 (1905)

Mahler deu aos andamentos II e IV da sua Sinfonia n.º 7 os títulos de Nachtmusik, mas o I andamento também tem um clima nocturno e o IV, um Scherzo, leva por título Schattenhaft, o que, em tradução literal equivale a “como uma sombra”, mas que também tem o significado de “espectral”. Após quatro andamentos passado entre sombras, algumas vagamente inquietantes, outras ameaçadoras, outras grotescas, a sinfonia desemboca num luminoso e triunfal Finale. Enquanto para as suas outras sinfonias Mahler associou os desenvolvimentos musicais a um programa, por vezes bastante detalhado, para a n.º 7 Mahler limitou-se a declarar que representava uma progressão da noite para o dia. É a sinfonia mais mal-amada de Mahler, talvez por causa da abundância de dissonâncias e rupturas abruptas. Tem a particularidade de fazer intervir, no IV andamento, uma guitarra e um bandolim, instrumentos completamente alheios à tradição sinfónica.

[I parte do IV andamento da Sinfonia n.º 7, pela Filarmónica de Viena, dirigida por Leonard Bernstein]

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Das Lied von der Erde (1909)

Não fosse Mahler supersticioso e Das Lied von der Erde (A Canção da Terra) teria sido a sua Sinfonia n.º 9. Em 1908, com 48 anos de idade, Mahler pôs-se a fazer contas: Beethoven, Schubert e Bruckner não tinham conseguido compor mais de nove sinfonias e ele próprio não estava a sentir-se lá muito bem. O ano de 1907 tinha assestado três rudes golpes no compositor: morte da filha mais velha, afastamento, graças a maquinações anti-semitas, do cargo de director da Ópera de Viena, e a revelação de que sofria de uma doença cardíaca incurável. Pode imaginar-se que pensamentos o dominavam durante as férias de Verão em Toblach, repousando da sua primeira temporada como maestro em Nova Iorque. Foi aí que compôs um ciclo de seis Lieder orquestrais, que podem também ser encarados como uma sinfonia em seis andamentos para dois solistas vocais. Os textos provêm de uma compilação de poesia chinesa livremente traduzida por Hans Bethge, e têm por tema recorrente a despedida. Mesmo “Trinklied von Jammer der Erde” (“Canção Báquica da Miséria Terrena”), que poderia parecer como um canto de celebração do vinho e dos prazeres, é assombrado por um verso que lembra, insistentemente, “Sombria é a vida, sombria é a morte”.

[“Trinklied von Jammer der Erde”, pelo tenor Jonas Kaufmann e a Filarmónica de Berlim, dirigida por Claudio Abbado, 2011]

“Der Einsame im Herbst” (“O Solitário no Outono”), é um dos momentos mais belos e pungentes da obra de Mahler, repassado pela consciência da efemeridade da vida e servido por uma orquestração refinadíssima.

[“Der Einsame im Herbst”, pela contralto Christa Ludwig e a Filarmónica de Israel, com direcção de Leonard Bernstein]

Sinfonia n.º 9 (1909)

Mahler não poderia adivinhar que lhe restava tão pouco tempo, mas a Sinfonia n.º 9 está cheia de premonições de morte, o seu Andante comodo cita a Sonata op. 81a de Beethoven, conhecida como Les Adieux, e Leonard Bernstein sugeriu mesmo que o ritmo irregular dos violoncelos nesse andamento ecoa o batimento vacilante do coração de Mahler. O compositor começou, em 1910 a trabalhar na que seria a Sinfonia nº. 10 – e só foi capaz de concluir o Adagio antes de sucumbir a problemas cardíacos.

[I parte do I andamento da Sinfonia n.º 9, pela Filarmónica de Viena, dirigida por Leonard Bernstein]

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