Música clássica: oito séculos de culto mariano

Sejam quais forem os planos para o próximo fim-de-semana – ir a Fátima, ver as cerimónias na televisão, ir à praia ou observar aves – vale a pena ouvir o que de melhor os compositores escreveram em honra de Maria, do séc. XIII aos nossos dias
Coroação da Virgem Maria - Catedral Basílica do São Salvador da Bahia
©DR Coroação da Virgem Maria
Por José Carlos Fernandes |
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Independentemente do que se pense do que aconteceu em Fátima em 1917 (embuste, milagre, aparição, visão interior), da atitude em relação à fé católica ou a qualquer crença em divindades (adesão, rejeição, indiferença) e da expectativa em relação à visita papal (fervor extático, indiferença, saturação), uma coisa é certa e está para lá de qualquer subjectividade: a música sacra que irá ouvir-se nas cerimónias de Fátima nos próximos dias será de pífia qualidade e mediocremente executada.

Se a solidez da Igreja Católica e Apostólica Romana fosse aferida exclusivamente pela excelência da música que acompanha os seus rituais, concluir-se-ia que, do século XVIII até hoje a instituição passou por um vertiginoso declínio, pois embora continuem, esporadicamente, a compor-se obras dignas, estas muito raramente são executadas. A selecção exclui, naturalmente, os compositores da Europa protestante, onde o culto mariano tem sido secundarizado e até dissuadido, e exclui Stabat Maters e Magnificats, para se concentrar em obras cujo cerne é o louvor de Maria.

Música clássica: oito séculos de culto mariano

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Benedicta et Venerabilis, de Léonin

De Léonin ou Magister Leoninus sabe-se muito pouco de concreto: esteve activo na segunda metade do século XIII, sendo o mais antigo compositor da escola polifónica associada à catedral de Notre Dame, em Paris, de quem se conhece o nome. Um dos grupos que mais se tem debruçado sobre a música desta época, o Ensemble Organum, dirigido por Marcel Pérès, reconstituiu no CD École de Notre-Dame: Messe de la Nativité de la Vierge (Harmonia Mundi) uma Missa da Natividade da Virgem, celebrada a 8 de Setembro, mediante a combinação de obras de Léonin, Pérotin e anónimos seus contemporâneos.

O texto Benedicta et Venerabilis diz-nos “Bendita e venerável sois vós, oh Virgem Maria, que sem que a tua virgindade tenha sido maculada, foste mãe do Salvador. Virgem Maria, mãe de Deus, aquele que é maior que o mundo mas que, encerrado no teu ventre, se fez homem”.

[Pelo Ensemble Organum, com direcção de Marcel Pérès]
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Quen crevér na Virgen Santa, de Afonso X, o Sábio

As Cantigas de Santa Maria foram compiladas por Afonso X, o Sábio (1221-1284), rei de Castela, e incluem 400 peças sobre a Virgem, das quais cerca de 1/10 são “cantigas de loor” (de louvor), que fazem um louvor abstracto e geral das suas qualidades. Os outros 9/10 são “cantigas de milagro”, que descrevem um evento milagroso específico atribuído à Virgem, o que perfaz 360 milagres, só na Península Ibérica.

A Cantiga de Santa Maria n.º 107, Quen crevér na Virgen Santa, faz parte das segundas: relata o caso de uma mulher judia de Segóvia que, por ter cometido uma falta (não especificada) foi atirada do alto de um penhasco, mas encomendou-se à Virgem e esta amparou-lhe a queda. A mulher, agradecida, encaminhou-se logo para a igreja mais próxima e fez-se baptizar.

[Pelo ensemble Musica Antigua, de Eduardo Paniagua (Pneuma)]
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Salve Regina, de Obrecht

Jacob Obrecht (c.1457-1505) foi o mais célebre mestre da escola franco-flamenga do final da Idade Média. Ocupou vários cargos de mestre de coro na Flandres e a sua fama estendeu-se até Itália, tendo sido viajado até Ferrara em 1487 e 1504, a convite do duque Ercole I, que considerava a sua música superior à de qualquer outro compositor. A segunda visita ser-lhe-ia fatal, pois sucumbiu à epidemia de peste que devastou a cidade.

[Pela Oxford Camerata, com direcção de Jeremy Summerly (Naxos)]
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Ave Maris Stella a 4 vozes, de Palestrina

Giovanni Pierluigi da Palestrina (c.1525-1594) foi um dos mais importantes compositores da Renascença e também o mais prolífico, deixando cerca de uma centena de missas, 375 motetos, 35 Magnificats, 80 hinos e várias outras peças sacras. Foi mestre de capela nas mais importantes igrejas de Roma e cantou na Capela Sistina. Com excepção de dois livros de madrigais, a sua produção confina-se ao âmbito sacro e as suas missas e motetos tornaram-se no “modelo oficial” aprovado pela Igreja Católica e influenciaram os compositores da Contra-Reforma.

O hino mariano Ave Maris Stella, um dos mais populares entre os compositores, da Idade Média aos nossos dias, equipara Maria à “estrela do mar” (maris stella), isto é, a Estrela Polar, que guia os marinheiros através da escuridão e do desconhecido.

[Pelo coro Currende]
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Salve Regina II, de Monteverdi

A obra sacra mais célebre de Claudio Monteverdi (1567-1643) são as Vespro della Beata Vergine publicadas em 1610, mas a sua produção de temática mariana não se esgota nela. A colecção Selva Morale e Spirituale, impressa em Veneza, 30 anos depois e recolhendo obras compostas para a catedral de São Marcos desde 1613, inclui três diferentes versões do Salve Regina: a segunda delas destina-se a dois tenores e baixo contínuo.

[Por Marco Beasley (tenor, dobrando-se a si mesmo) e Accordone, com direcção de Guido Morini]
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Litanies de la Vierge H.83, de Charpentier

Tendo Luís XIII consagrado França à Virgem Maria, não é de estranhar que os compositores barrocos franceses tenham composto numerosas obras a Maria. Entre os que deu mais notáveis contributos neste domínio está Marc-Antoine Charpentier (1643-1704), que musicou por nove vezes as Litanies de la Vierge – a versão mais ouvida é a que se destina a seis vozes e duas violas da gamba soprano (H.83), composta em 1863-64 para Marie de Lorraine, duquesa de Guise, a cujo serviço o compositor esteve durante 17 anos, entre 1671 e 1688.

[Excerto, por La Capella Reial de Catalunya e Le Concert des Nations, com direcção de Jordi Savall, ao vivo na Capela Real do Palácio de Versailles, a 9 de Outubro de 2004 (DVD Alia Vox)]
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Salve Regina RV 616, de Vivaldi

A celebridade de As Quatro Estações e dos concertos para violino em geral ofuscou durante muito tempo o facto de Antonio Vivaldi (1678-1741) ter sido também um inspirado e prolífico compositor de música sacra. O Salve Regina RV 616 (há outro, o RV 617) foi composto para a catedral de São Marcos, em Veneza, e destina-se a contralto, duas flautas de bisel, flauta transversa e dupla orquestra de cordas.

[Por Carlos Mena (contratenor) e Ricercar Consort, com direcção de Philippe Pierlot (Mirare)]
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Regina coeli K 108, de Mozart

Embora não seja a faceta mais visível da obra de Mozart, este compôs durante a juventude uma impressionante quantidade de música sacra para a catedral de Salzburgo. Porém, este Regina coeli composto aos 16 anos, em 1771 (escreveria mais dois, o K 127 em 1772 e o K 276 em 1779), foi provavelmente destinado a outro local, pois a sua rica orquestração (que inclui trompetes, trompas, oboés e timbales) não é compatível com os recursos e as práticas da catedral de Salzburgo. O tom é jubilatório e luminoso, como pede um texto que exalta a “Rainha dos Céus”.

[Por Emma Kirkby (soprano), Westminster Cathedral Boys Choir e Academy of Ancient Music, com direcção de Christopher Hogwood (L’Oiseau-Lyre/Decca)]
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Ave Maria a sete vozes, de Bruckner

Ao contrário da maioria dos sinfonistas do Romantismo, o austríaco Anton Bruckner (1824-1896) deixou relevante produção de música sacra, alguma dela surgida no âmbito dos cargos que desempenhou no mosteiro de St. Florian e na catedral de Linz. Foi para esta que compôs uma primeira Ave Maria a quatro vozes, em 1856, que funcionou como “ensaio” para esta Ave Maria a sete vozes, em 1861, que figura entre os seus motetos mais conseguidos.

[Pelo coro norueguês Schola Cantorum, com direcção de Tone Bianca Sparre Dahl]
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Salve Regina, de Pärt

O estónio Arvo Pärt (n. 1935) é o mais popular compositor de música sacra do nosso tempo e a sua música combina influências medievais, minimalismo e misticismo. Pärt musicou os principais textos litúrgicos ligados à Virgem Maria – Magnificat (1989), Stabat Mater (1985), Salve Regina (2002) – e também textos menos correntes ou ortodoxos, como Most Holy Mother of God (2003) e Virgencita (2012).

Nos últimos anos, a música de Pärt tem dado sinais de esgotamento, com as mesmas fórmulas a repetirem-se indefinidamente e o minimalismo a confundir-se com escassez de ideias; desta fase faz parte uma peça dedicada aos pastorinhos de Fátima, Drei Hirtenkinder aus Fatima (2014), composta após uma visita a Fátima em 2012.

[Pelo Coro da Rádio Letã e Sinfonietta Riga, com direcção de Tonu Kaljuste, ao vivo na Catedral de Riga, 2011]

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