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Luar
Imagem de mcbeaner por Pixabay

Sete obras clássicas para ouvir ao luar

A Time In sugere-lhe música clássica para ouvir enquanto contempla a beleza nocturna do céu e em especial a da Lua

Por José Carlos Fernandes
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Além de tornar as noites menos escuras e de fazer subir e descer a superfície dos mares, o satélite da Terra também agita os cantos escuros e misteriosos das almas dos compositores. De uma peça obscura de um autor ibérico anónimo do século XVI ao celebérrimo Clair de Lune, de Debussy, muitos foram os compositores que foram inspirados pela lua – como foi o caso de Haydn, Schubert ou Schumann. Nesta lista não podia faltar a Sonata ao Luar, de Beethoven, que é tão célebre como Clair de Lune, embora seja provável que Beethoven não tivesse pensado na lua quando a compôs.

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Sete obras clássicas para ouvir ao luar

1. Ay Luna, que Reluces, de autor anónimo

Ano: c.1524-54

“Ai lua que reluzes/ Toda a noite me alumias/ Ai lua tão bela/ Alumias-me pela serra/ Onde quer que eu vá ou de onde venha/ Toda a noite me alumias” – assim reza a letra deste villancico incluído no Cancioneiro do Duque da Calábria. O volume é também conhecido como Cancioneiro de Uppsala, pois embora tenha sido impresso em Veneza em 1556, é na biblioteca universitária daquela cidade sueca que se encontra o único exemplar que se conhece. Trata-se de uma colecção de villancicos de autores ibéricos compostos entre c.1524 e c.1554, para fruição da corte de Fernando (Ferran) de Aragão (1488-1550), que foi Duque da Calábria e vice-rei do Reino de Valência. A corte de Fernando em Valência foi um farol cultural da Europa mediterrânica e o Cancioneiro do Duque da Calábria dá testemunho do esplendor da música ibérica da Renascença.

[Por Guillemette Laurens (soprano) e Unda Maris (Alpha)]

2. Alla Luna, de Marini

Ano: 1622

“Mãe de sombras e medos é a noite/ Que das grutas emerge, rodeada de horrores/ As canções são as armas que temos para a derrotar/ Descobre o rosto, argêntea lua/ Sois a irmã, não menos formosa, do sol/ Ainda que sejas trigueira/ Pois ser trigueira não é sinal de menor beleza”.

Esta encantadora canzonetta faz parte da colecção Scherzi e Canzonette op.5, publicada em 1622 por Biagio Marini (1594-1663), reputado violinista e compositor, que nasceu em Brescia e ocupou postos de prestígio em Bruxelas, Neuburg, Düsseldorf e várias cidades italianas, como Parma e Veneza (onde trabalhou na basílica de S. Marcos, sob a direcção de Monteverdi). A sua obra para violino destina-se a executantes de elevado nível técnico, em contraste com a sua música vocal, que é singela e despretensiosa, por vezes não muito distante da música popular.

[Por Emmanuela Galli e o Ensemble Galilei, em instrumentos de época, com direcção de Paul Beier (Stradivarius/Dulcimer)]
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3. Il Mondo della Luna, de Haydn

Ano: 1777

A copiosa produção de sinfonias e música de câmara de Joseph Haydn (1732-1809) faz por vezes esquecer que as suas obrigações como Kappelmeister da família Esterházy incluíam a direcção da ópera no palácio de Esterháza, que estava equipado com dois teatros de ópera. Chegaram os nossos dias 14 óperas de Haydn, a maioria no género cómico, entre as quais se conta Il Mondo della Luna, estreada em 1777 e adaptando um libreto de Carlo Goldoni. Nesta comédia de equívocos, o falso astrónomo Ecclitico convence Buonafede de que o Imperador da Lua o convidou a visitar o astro; após uma viagem rápida, mediante ingestão de um elixir, Buonafede desperta na Lua (o jardim de Ecclitico, extravagantemente decorado). Toda a farsa é montada com o fito de obter de Buonafede o assentimento para o casamento das suas duas filhas e da sua jovem criada – Buonafede não só dá o assentimento como, após o “regresso à Terra”, se mostra arrependido de ter sido tão severo para com as filhas.

[“Al Comando Tuo Lunatico”, ao vivo no Teatro Alessandro Bonci, Cesena, Itália, em 2009, com direcção de Giuseppe Camerlingo e encenação de Gabriella Medetti]

4. Sonata para piano n.º 14 op.27/2 Ao Luar, de Beethoven

Ano: 1801

A Sonata Ao Luar é uma das primeiras do “segundo período” (1800-1815) de Beethoven, e o compositor é completamente alheio ao título, que foi uma pura invenção do poeta Ludwig Rellstab, que proclamou, após a morte de Beethoven, que a sonata seria a evocação de um passeio ao luar pelo Lago dos Quatro Cantões, na Suíça, onde, de resto, Beethoven nunca esteve. O título da edição original, de 1802, em Viena, refere-a como “Sonata quasi una fantasia, dedicada à Condessa Giulietta Guicciardi”, uma aluna do compositor.

O hipnótico e melancólico I andamento (Adagio sostenuto) tornou-se tão popular que muitos ouvintes distraídos desconhecem a existência dos outros dois – um Allegretto despretensioso e bem-humorado e um Presto agitato tempestuoso, cujas enxurradas de notas e ímpeto descontrolado podem ser vistas como a libertação de tensões acumuladas durante o Adagio sostenuto.

[Por Valentina Lisitsa]
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5. An den Mond D.193, de Schubert

Ano: 1815

É certamente por coincidência que a evocação da lua neste Lied de Schubert (o mais genial dos três que compôs com este título em 1815) é próxima, em termos de atmosfera, do Adagio sostenuto da Sonata n.º 14 de Beethoven, já que o título “Ao Luar” só seria colado a esta mais tarde.

O poema, de Ludwig Heinrich Hölty (1748-1776), esboça uma plácida e singela paisagem nocturna, mas o ambiente bucólico dos primeiros versos vai impregnando-se de melancolia e sentimentos mórbidos:

“Derrama, querida lua, o teu resplendor prateado/ Através do verde das faias/ Onde fantasmas e sonhos/ Perante mim flutuam!/ Descobre-te, para que eu possa encontrar/ O lugar onde a minha amada costumava sentar-se [...]/ Para que eu possa depositar uma coroa de flores/ No prado em que ela escutava o regato/ E então, querida lua, vela-te de novo/ E lamenta este teu amigo/ E chora entre as nuvens/ Por desta alma abandonada”.

[Por Ian Bostridge (tenor) e Julius Drake (piano), 1998]

6. Mondnacht, de Schumann

Ano: 1840

“Era como se o céu tivesse/ Silenciosamente beijado a terra/ E que no resplendor das flores/ Ela ainda sonhasse com ele./ A brisa acariciava os campos/ Fazendo ondular as espigas do trigo/ E os bosques murmuravam suavemente/ Na noite cintilando de estrelas./ E a minha alma/ Abriu as suas asas/ E voou sobre a terra adormecida/ Como se regressasse a casa”.

É uma esplêndida noite de luar a que nos descreve Mondnacht, a canção n.º 5 da colecção Liederkreis op.39, sobre poemas extraídos da colecção Intermezzo, de Joseph Eichendorff, autor a que Robert Schumann já recorrera no Liederkreis op.24. A produção de Lieder de Schumann em 1840-41 é assombrosa em quantidade, mas nem por isso deixa de ser de qualidade superlativa.

[Por Matthias Goerne (barítono) e Eric Schneider (piano), gravação de 1998 (Decca)]
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7. Clair de Lune, de Debussy

Ano: c.1890

A Suite Bergamasque, que Claude Debussy compôs por volta de 1890, quando tinha 28 anos (e só publicou, com revisões substanciais, em 1905), é a primeira afirmação clara de uma linguagem inovadora e pessoal pela parte do compositor na música para piano. E o III andamento, Clair de Lune, é a peça que melhor prefigura o que viria a ser o Debussy da plena maturidade.

A temática lunar fascinava certamente Debussy, uma vez que, algures entre 1888 e 1891, compôs uma canção intitulada Clair de Lune, sobre poema de Paul Verlaine, e voltam a surgir (magníficas) paisagens iluminadas pelo luar no II Livro de Images, de 1907, e no II Livro de Préludes, de 1910-12.

[Por Seong-Jin Cho, na Siemesnvilla, Berlim]

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