Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Dez clássicos do jazz para ouvir ao luar

Dez clássicos do jazz para ouvir ao luar

Sendo o jazz uma música eminentemente nocturna, não é de estranhar que a lua ilumine tantas das canções favoritas dos jazzmen.

Frank Sinatra
Frank Sinatra
Por José Carlos Fernandes |
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Algumas canções, mais melancólicas, traçam um retrato de solidão e melancolia, outras descrevem, com ironia, os efeitos perturbadores que o luar produz no comportamento dos casais de apaixonados. Pelas vozes de Ella Fitzgerald ou Frank Sinatra, ou pelas teclas de Dave Brubeck ou Brad Mehldau, escolhemos uma dezena de canções lunares. Identificamos os autores, o ano da criação, o que esteve na origem das composições e escolhemos as melhores interpretações para cada uma delas. Não deixamos nenhuma coordenada escondida: até os discos em que estas versões foram editadas estão aqui para que ninguém se perca.

Recomendado: Dez versões clássicas de “‘Round Midnight”
 

Dez clássicos do jazz para ouvir ao luar

Reaching For the Moon

Autores: Irving Berlin
Ano: 1930

Origem: Foi composta para o filme musical homónimo, mas o realizador acabou por descartar a maior parte da música composta por Berlin e, embora “Reaching For the Moon” tenha sobrevivido à “limpeza”, foi relegada para o papel de música de fundo

A nossa escolha: Zoot Sims, no álbum New Beat Bossa Nova vol.2 (1962, Colpix). 1962 foi o ano em que a febre da bossa nova tomou conta dos EUA, após o sucesso do álbum Jazz Samba, de Stan Getz & Charlie Byrd, e muitos foram os jazzmen que, por iniciativa própria, ou pressionados pelas editoras, lançaram o seu disco de bossa nova – o saxofonista Zoot Sims gravou mesmo dois, um em Agosto e outro em Novembro, sendo o segundo o que inclui este “Reaching For the Moon” tropicalizado.

It’s Only a Paper Moon

Autores: Harold Arlen (música), Yip Harburg & Billy Rose (letra)
Ano: 1932

Origem: Composta (com o título original de “If You Believed in Me”) para o musical da Broadway The Great Magoo, que foi um fiasco, o que levou a que fossem necessários alguns anos até que a canção ganhasse fama.

A nossa escolha: Morgana King, no álbum Sings the Blues (1958, Mercury). King foi Carmela Corleone nos dois primeiros The Godfather (de 1972 e 1974) e essa prestação no meio cinematográfico faz, por vezes, esquecer que ela tinha também uma carreira como cantora de jazz que remontava a meados dos anos 50. Sings the blues foi o seu segundo LP e conta com uma banda formada por Harvey Leonard, Barry Galbraith, Ernie Furtado e Ralph Pollack e o vibrafonista Terry Gibbs como convidado (bem audível em “It’s Only a Paper Moon”).

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What a Little Moonlight Can Do

Autores: Harry M. Woods
Ano: 1934

Origem: Composta para a banda sonora do filme britânico Road House, realizado por Maurice Elvey. O filme está hoje completamente olvidado a não ser por esta canção, que Billie Holiday tomou logo em 1935 e que não mais deixaria o seu repertório.

A nossa escolha: Anita O’Day, em Trav’lin’ Light (1961, Verve), em que a cantora é acompanhada por Don Fagerquist e Ben Webster (saxofones), Jimmy Rowles (piano), Barney Kessel (guitarra), Buddy Clark (contrabaixo) e Mel Lewis (bateria).

Blue Moon

Autores: Richard Rodgers (música), Lorenz Hart (letra)
Ano: 1934

Origem: Composta para a banda sonora de Hollywood Party (1934), mas acabou por ser excluída da montagem final, pelo que foi reciclada para o filme Manhattan Melodrama, desse mesmo ano.

A nossa escolha: Ella Fitzgerald, no álbum Ella Fitzgerald Sings the Rodgers & Hart Songbook (1956), acompanhada por orquestra arranjada e dirigida por Buddy Bregman.

Ella Fitzgerald é por vezes alvo de reparos por colocar uma tal vitalidade no canto que retira gravitas às canções tristes, mas aqui a cantora impregna a canção de uma inefável melancolia.

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Moonlight Serenade

Autores: Glenn Miller (música), Mitchell Parish (letra)
Ano: 1938

Origem: Miller já usava “Moonlight Serenade” como tema de apresentação da sua orquestra, ainda antes de a ter gravado, a 4 de Abril de 1939, para a RCA Bluebird, na versão instrumental, que chegou ao n.º 3 no top americano. A peça tornou-se numa das mais conhecidas da orquestra de Glenn Miller e foi alvo de numerosas versões, embora na área do jazz apenas os cantores lhe tenham dado atenção.

A nossa escolha: Ella Fitzgerald, no álbum Sings Sweets Songs For Swingers (1959, Verve), acompanhada por uma orquestra arranjada e dirigida por Frank DeVol.

How High the Moon

Autores: Morgan Lewis (música), Nancy Hamilton (letra)
Ano: 1940

Origem: Composta para o musical da Broadway Two For the Show e o primeiro músico de jazz a apropriar-se dela, logo em 1940, foi o clarinetista Benny Goodman.

A nossa escolha: Dave Brubeck no álbum Jazz at Oberlin (1953, Fantasy), com Paul Desmond (saxofone), Dave Brubeck (piano), Ron Crotty (contrabaixo) e Lloyd Davis (bateria). Jazz at Oberlin, gravado ao vivo no Oberlin College, em Oberlin, Ohio, é um dos álbuns que documenta a investida de Brubeck, em 1953-54, para tentar conquistar público no meio universitário e, ao mesmo tempo, reclamar para o jazz uma “respeitabilidade” análoga à da música clássica.

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Moonlight in Vermont

Autores: Karl Suessdorf (música) e John Blackburn (letra)
Ano: 1944

Origem: Inesperadamente, este retrato do estado americano de Vermont, em meia dúzia de sumárias vinhetas iluminadas pelo luar, tornou-se numa música popular entre milhões de pessoas que nunca visitaram o estado ou nem sequer fazem ideia da onde ficará Vermont no globo terrestre. Entre os músicos de jazz que a cantaram ou tocaram estão Ella Fitzgerald, Frank Sinatra, Sarah Vaughan, Billy Eckstine, Stan Kenton, Chet Baker, Gerry Mulligan, Billie Holiday e Ahmad Jamal.

A nossa escolha: Betty Carter & Ray Bryant, no álbum Betty Carter & Ray Bryant (1955, Epic/Columbia), em que o piano de Bryant tem a companhia de Wendel Marshall (contrabaixo) e  Philly Joe Jones (bateria) e os arranjos são de Quincy Jones (que, à data, tinha apenas 22 anos, mas era já um arranjador muito requisitado).

Old Devil Moon

Autores: Burton Lane (música), Yip Harburg (letra)
Ano: 1947

Origem: Composta para o musical da Broadway Finian’s Rainbow (que seria adaptado ao cinema, 21 anos depois, por um jovem e ignoto realizador chamado Francis Ford Coppola). A primeira voz a dar-lhe visibilidade foi Margaret Whiting, logo em 1947, e desde que, no mesmo ano, Gene Krupa se apropriou dela, nunca deixou de estar entre as favoritas dos jazzmen.

A nossa escolha: Bud Shank, no álbum Jazz at Cal-Tech (1956, Pacific Jazz), num registo ao vivo no Instituto de Tecnologia da Califórnia, em Pasadena, em que o saxofonista conta com Claude Williamson (piano), Don Prell (contrabaixo) e Chuck Flores (bateria).

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Fly Me To the Moon

Autores: Bart Howard
Ano: 1954

Origem: Havia 20 anos que Bart Howard, um pianista de cabaret, tentava em vão compor uma canção de sucesso – e bastaram-lhe 20 minutos para compor, por encomenda, uma canção que começou por chamar-se “In Other Words”. Já vários cantores de jazz tinham gravado “In Other Words” quando Peggy Lee a cantou no The Ed Sullivan Show em 1960, empurrando-a definitivamente para a fama, agora com o título “Fly Me To the Moon”.

A nossa escolha: Frank Sinatra e Count Basie, no álbum It Might as Well Be Swing (1964, Reprise), a primeira colaboração em estúdio do cantor e do líder de big band, que contou com arranjos de Quincy Jones.

Moon River

Autores: Henry Mancini (música) e Johnny Mercer (letra)
Ano: 1961

Origem: Composta para a banda sonora do filme Breakfast at Tiffany’s, realizado por Blake Edwards e com Audrey Hepburn e George Peppard nos papéis principais. No filme, é a própria Audrey Hepburn (encarnando Holly Golightly) que a canta e voltaria a ser ela a gravá-la com a orquestra de Mancini no primeiro registo em disco. A canção tem sido alvo de incontáveis versões, na área da pop e do jazz, algumas das quais venderam milhões de discos.

A nossa escolha: Brad Mehldau, no álbum The Art of the Trio vol.2: Live at the Village Vanguard (Nonesuch), que documenta um concerto ao vivo registado em 1997. O piano de Mehldau, com a cumplicidade de Larry Grenadier (contrabaixo) e Jordi Rossy (bateria), oferece-nos uma leitura rarefeita, melancólica e oblíqua, que desconstrói, pouco a pouco, a melodia de Mancini, sem atraiçoar o espírito da canção.

[Por Seong-Jin Cho, na Siemesnvilla, Berlim]

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