10 versões de “Autumn Leaves”

Estas folhas outonais têm ascendência franco-húngara mas só quando o vento as soprou sobre o Atlântico e chegaram aos EUA se tornaram num dos standards favoritos dos músicos de jazz
Folhas de Outono
©DR
Por José Carlos Fernandes |
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O rasto destas folhas de outono leva-nos até Budapeste, onde nasceu, em 1905, o autor da música. Chamava-se então József Kosma, mas quando se mudou para Paris em 1933 adoptou um mais pronunciável “Joseph”. A composição nasceu como um trecho instrumental para o bailado Le Rendez-Vous (1945), com enredo de Jacques Prévert e coreografia de Roland Petit, e seria convertida, no ano seguinte, com letra de Prévert e com o título “Les Feuilles Mortes”, numa canção da banda sonora da adaptação cinematográfica do bailado por Marcel Carné, que teve por título Les Portes de la Nuit e contou com Yves Montand e Nathalie Nattier nos papéis principais.

A canção chegou aos ouvidos de Johnny Mercer, que reconheceu o seu potencial e, em 1949, lhe enxertou uma letra em inglês. A letra de Prévert recorda uma paixão passada – “Naquele tempo a vida era mais bela/ E o sol mais caloroso do que hoje” – e contempla-a numa perspectiva agridoce: “As folhas mortas agarram-se à pele/ Como as recordações e os remorsos/ Mas o meu amor, silencioso e fiel,/ Não deixa de sorrir e agradece à vida// Amava-te tanto e eras tão bela/ Como posso eu esquecer-te?”. E conclui, em tom resignado: “A vida separa os que se amam/ Muito suavemente, sem ruído/ E o mar apaga na areia/ Os passos deixados pelos amantes desunidos”.

A letra de Mercer para “Autumn Leaves” é substancialmente diferente, mas retém a analogia entre o Verão da paixão – “os lábios, os beijos de Verão, as mãos bronzeadas que eu costumava agarrar” – e o Outono da solidão, cujos dias, embora sejam astronomicamente mais curtos, são sentidos, psicologicamente, como mais longos.

10 versões de “Autumn Leaves”

Yves Montand

Ano: 1949
Álbum: Unreleased, Rare & Essential (compilação DRG)

O filme Les Portes de la Nuit foi um fiasco comercial mas “Les Feuilles Mortes” ganhou vida própria e foi gravada, algures entre 1948 e 1950, por Cora Vaucaire e Yves Montand, embora não seja claro quem o terá feito primeiro, devido a discrepâncias entre as reivindicações de primazia dos cantores e os registos da Biblioteca Nacional de França. Seja como for, a canção ficou associada a Montand, que, todavia, sempre se recusou a cantá-la na versão inglesa (uma manifestação de intransigência patriótica algo inesperada, atendendo a que Montand nascera em Itália e o seu verdadeiro nome era Ivo Livi).

Ahmad Jamal

Ano: 1958
Álbum: Portfolio of Ahmad Jamal (Argo)

Nos EUA a canção foi popularizada pelo pianista Roger Williams, em 1955, numa versão sumamente canastrona (adequada para animar cocktail parties), mas não tardou que os músicos a sério a descobrissem. O pioneiro foi o pianista Ahmad Jamal – um dos músicos que Miles Davis mais admirava – que a incluiu nesse mesmo ano em The Ahmad Jamal Trio (Epic/Columbia) e nunca mais deixaria de a tocar e gravar.

Esta versão provém das sessões no clube Spotlite, em Washington, em Setembro de 1958, com Israel Crosby (contrabaixo) e Vernel Fournier (bateria) e foi editada originalmente no álbum Portfolio of Ahmad Jamal (Argo). As sessões no Spotlite, que foram repartidas pelo álbum Ahmad Jamal Trio vol.4 (Argo), foram reunidas num CD duplo da Gambit com o título Complete Live at the Spotlite Club 1958. Numa ou noutra edição, ninguém pode dispensar esta leitura, onde se mesclam economia, transparência, sentido de humor e inventividade.

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Frank Sinatra

Ano: 1957
Álbum: Where are you? (Capitol)

Um ano antes da gravação de Jamal no Spotlite, Sinatra tinha registado “Autumn Leaves” num dos magníficos álbuns com Nelson Riddle para a Capitol, que são o cume da sua prolífica carreira. Note-se a relutância com que Sinatra deixa “cair as folhas” no último verso (“When Autumn leaves start to fall”).

Julian “Cannonball” Adderley

Ano: 1958
Álbum: Somethin' Else (Blue Note)

O saxofonista Julian “Cannonball” Adderley gravou-a no seu único registo para a Blue Note – que é talvez o seu melhor álbum. Para a excelência desta sessão contribui um dream team com Hank Jones (piano), Sam Jones (contrabaixo), Art Blakey (bateria) e (surpresa!) Miles Davis, numa das suas raríssimas aparições como sideman (as suas intervenções em “Autumn Leaves” são soberbas).

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Art Farmer

Ano: 1959
Álbum: Brass Shout (United Artists)

Brass Shout é um dos picos da vasta discografia do trompetista Art Farmer. O álbum faz alinhar um invulgar decateto (oito metais + contrabaixo e bateria), onde surgiam nomes como Lee Morgan, Curtis Fuller, Percy Heath e Philly Joe Jones, e contou com sumptuosos arranjos de Benny Golson, que colocam em relevo os inspirados solos de Farmer.

A colaboração Farmer/Golson revelou-se tão recompensadora que a dupla lhe deu seguimento com a criação de um sexteto que adoptaria o nome de The Jazztet e desenvolveria intensa actividade em 1960-62 (sendo reactivado em 1982-86). Mas Brass Shout ficou como uma peça sem par do jazz orquestral dos 50s.

Bill Evans

Ano: 1959
Álbum: Portrait in Jazz (Riverside)

Bill Evans tinha-se estreado como líder com New Jazz Conceptions (1956), a que se seguira Everybody Digs Bill Evans (1958), que já tinham indiciado que havia novidades no domínio do trio com piano. Mas foi com o seu terceiro álbum, Portrait in Jazz, que marca o início da sua – tragicamente breve – associação com a dupla Scott LaFaro (contrabaixo) e Paul Motian (bateria), que ficou claro que estava em curso uma revolução e qie o trio com piano não voltaria a ser o mesmo.

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Gene Ammons & Sonny Stitt

Ano: 1961
Álbum: Boss Tenors (Verve)

Uma das mais calorosas versões de “Autumn Leaves” resultou deste encontro de dois mestres do saxofone tenor, Gene Ammons e Sonny Stitt, músicos cuja primeiria colaboração datava de 1947 e tinham trabalhado regularmente juntos na década de 1950 –o seu grau de cumplicidade é bem audível neste registo, em que são acompanhados por John Houston (piano), Buster Williams (contrabaixo) e George Brown (bateria). O álbum não deve ser confundido com Boss Tenor, gravado no ano anterior para a Prestige por Ammons.

Miles Davis

Ano: 1965
Álbum: Live at the Plugged Nickel (Columbia/Legacy)

Sete anos depois da sessão com “Cannonball” Adderlet, Miles assinaria uma versão bem mais oblíqua de “Autumn Leaves”, nas sessões no clube Plugged Nickel, em Chicago, à frente do quinteto com Wayne Shorter (saxofone), Herbie Hancock (piano), Ron Carter (contrabaixo) e Tony Williams (bateria). A nova versão é paradigmática dos passos de gigante que Miles e os seus músicos tinham dado no início da década de 60.

“Autumn Leaves” apenas está disponível na caixa de sete CDs The Complete Live at the Plugged Nickel, que restitui na íntegra as duas noites de actuações, não sendo incluída no CD Highlights from the Plugged Nickel.

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Keith Jarrett

Ano: 1994
Álbum: At the Blue Note: The Complete Recordings (ECM)

Atendendo a que o combustível do Standards Trio de Jarrett, com Gary Peacock (contrabaixo) e Jack DeJohnette (bateria), são os grandes standards, seria inevitável que “Autumn Leaves” fosse incorporado no repertório. Após um primeiro registo em Still Live (1986), que documenta um concerto em Munique em 1986, o trio voltou a gravar a canção, numa abordagem bem diferente, com 26’43 de duração, no clube Blue Note, em Nova Iorque (as três noites no Blue Note foram editadas na íntegra pela ECM numa caixa de seis CDs).

Marc Perrenoud

Ano: 2011
Álbum: Two Lost Churches (Challenge)

“Autumn Leaves” continua a fascinar as gerações mais novas e o pianista suíço Marc Perrenoud (n. 1981) incluiu uma versão extraordinariamente enérgica e ritmada de “Autumn Leaves” no seu álbum Two Lost Churches, com Marco Müller (contrabaixo) e Cyril Regamey (bateria). Na indisponibilidade dessa faixa na Internet, eis um registo similar do mesmo trio, um ano depois, ao vivo em Nova Iorque.

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