11 canções pop para o fim do Verão

O esmorecer do fulgor do sol e o encurtar dos dias parecem ter o condão de inspirar os músicos a compor canções de travo agridoce, ou até a despertar as mais tenebrosas cogitações

@Jesse DylanTom Waits

11 canções pop para o fim do Verão

“Summer’s Almost Gone”, de The Doors

Os escritores de canções não vêem o fim do Verão na óptica dos meteorologistas ou dos astrónomos, mas como uma metáfora do fim de uma época de fruição despreocupada da vida, da irreversibilidade da marcha do tempo e do declínio da paixão. É o caso desta canção de Waiting for the Sun (1968), o terceiro álbum dos Doors. Nunca Jim Morrison soou tão magoado, melancólico e resignado: “O Verão está quase terminado, vivemos bons momentos, mas ficaram para trás e o Inverno aproxima-se”.

“Summer’s Gone”, dos Placebo

O fim do Verão também mostra os Placebo na sua faceta mais melancólica e atmosférica – não estamos longe das atmosferas da dream pop. A canção faz parte de Without You I’m Nothing (1998), o sexto álbum da banda.

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“September”, de David Sylvian

Faz parte de Secrets of the Beehive (1987), o quarto álbum a solo de David Sylvian em quatro anos – o músico enveredaria em seguida por projectos cooperativos (o reencontro dos Japan como Rain Tree Crow e as parcerias com Holger Czukay, Robert Fripp e Russell Mills), de forma que seria preciso esperar 12 anos até que surgisse o quinto álbum a solo. Porém, as canções de Secrets of the Beehive são tão boas que toleram reaudições repetidas e ajudaram a tornar mais suportável os 12 anos de interregno. “September” é um prenúncio de Outono e um lamento antecipado pelo fim do Verão condensados em 1’15 de música diáfana e envolta numa poalha dourada. O sol ainda vai alto, ouvem-se risos, “dizemos que estamos apaixonados e ansiamos secretamente pela chuva”.

“Red Earth (As Summertime Ends)”, dos Rain Tree Crow

Os Japan dissolveram-se em 1982 e cada um dos seus membros – David Sylvian, Mick Karn, Steve Jansen e Richard Barbieri – seguiu o seu caminho; porém, em 1989-90 voltaram a juntar-se para gravar, sob o nome de Rain Tree Crow, um disco, homónimo, lançado em 1991. O Verão aproxima-se do fim, mas ainda não caíram as primeiras chuvas, a poeira cobre tudo e a terra está ressequida e gretada.

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“September Come Take This Heart Away”, dos Carissas’s Wierd

No seu tempo – 1995-2003 – os Carissas’s Wierd, de Matt Brooke, Jenn Ghetto e Ben Bridwell, nunca ultrapassaram o patamar de “banda de culto” e acabou por ser o projecto seguinte de Bridwell e (passageiramente) Brooke – os Band of Horses – a alcançar (merecida) notoriedade. Os Carissas’s Wierd deixaram três álbuns de originais (entretanto complementados por outros três de compilações) e esta canção faz parte do segundo, Songs About Leaving (2002).

Como o título sugere, é um disco sobre separações e amores que chegam ao fim e “September Come Take This Heart Away” é uma mansa e resignada “breakup song”: “Espero que as estações te tratem bem, melhor do que eu alguma vez fui capaz [...] Espero que tenhas um casaco para te manter quente, mais quente do que as últimas vezes que falámos, mais quente do que as últimas palavras que trocámos”. Enquanto outras canções pré-outonais se apegam às recordações do tempo luminoso e cálido em que se foi feliz, esta anseia por que Setembro traga ventos frios e o apagamento da memória: “Espero que nada reste que te lembre de mim”.

“Summer’s End”, dos Foo Fighters

A canção, que faz parte de Echoes, Silence, Patience & Grace (2007), o sexto álbum da banda, está muito mais perto de Neil Young do que da power pop apunkalhada usual nos Foo Fighters. O Verão é metáfora do amor que não poderá durar indefinidamente e a canção é assombrada por um sonho recorrente em que o sol se extingue.

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“The Summer Ends”, dos American Football

Mais uma canção que usa o fim do Verão como analogia para o desgaste de uma relação amorosa. Canta Mike Kinsella: “Estou a pensar em partir e sobre como deverei despedir-me: com um aperto de mão, um abraço ou um beijo na face, ou talvez os três juntos [...] Temos sido ambos tão infelizes, vamos ver o que acontecerá quando o Verão terminar”. A canção faz parte do álbum de estreia, American Football (1999).

“Un Matin de Septembre”, dos Collection D’Arnell-Andréa

Os franceses Collection D’Arnell-Andréa nasceram em 1986, alcançaram uma muito modesta visibilidade na viragem das décadas de 1980-90 e têm vivido na penumbra desde então, embora ainda se mantenham activos. A sua estética foi definida como uma abordagem coldwave ao barroco e ao neo-classicismo, os seus parentes mais próximos são os Dead Can Dance e os This Mortail Coil e as suas letras estão enraizadas na poesia simbolista francesa da viragem dos séculos XIX-XX “Un Matin de Septembre” provém do seu segundo álbum, Au Val des Roses (1990), e, apesar da menção à manhã no título, é decididamente crepuscular, como quase tudo o que o grupo compôs: “Um soldado demasiado jovem pousa a cabeça nua sobre uma sombra de lama, e o seu rosto de miséria com perfume de orvalho dissimula os prantos de um Outono perdido”.

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“Dandelion Wine”, de Gregory Alan Isakov

O Verão está a acabar e não tardará que as maçãs, bem maduras, comecem a tombar no chão. O ambiente desta canção do álbum This Empty Northern Hemisphere (2009), o quarto de Isakov, é de perda, melancolia e um entorpecimento induzido pelo vinho de dente-de-leão.

A receita para esta invulgar beberagem provém do extraordinário romance Dandelion wine (1957), de Ray Bradbury, que foi publicada por cá com o título A cidade fantástica e que narra, através de um filtro onírico, as alegrias simples do Verão de Douglas Spaulding, um rapaz de 12 anos, numa bucólica cidadezinha (ficcional) do Illinois, em 1928 (cidade e infância que têm seguramente pontos de contacto com as experiências reais de Bradbury, nascido em 1920). É o avô de Douglas que tem o segredo da confecção do exótico licor que funciona como um concentrado de Verão engarrafado, um destilado de experiências e descobertas. As “auroras de Junho, meios-dias de Julho, tardes de Agosto” ficaram para trás, deixando-nos “apenas o sentido de todas aquelas coisas na cabeça”. Mas se as esquecermos, podemos sempre recuperá-las enquanto tomamos um trago da garrafa de vinho de dente-de-leão.

“September”, de Ryan Adams & The Cardinals

Uma famosa linha de The Wasteland, de T.S. Eliot, assegura que “Abril é o mais cruel do meses”, mas a maioria dos songwriters estão inclinados para atribuir tal distinção a Setembro. Nesta canção do álbum Jacksonville City Nights (2005), Ryan Adams esboça, com extraordinária concisão – 2’28 – e economia de meios, uma história pungente: “Laura está aos pés da cama/ E simula um laço de forca com o fio do telefone/ Enquanto fala com o médico/ Depois desliga e diz/ ‘Não verei mais nenhum Inverno’/ E então, não sei porquê, sorri [...] Gravaram o teu nome numa pedra e colocaram-na na terra/ Passo os dedos pelos sulcos/ Quando não há ninguém por perto”.

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