10 versões de “It Might As Well Be Spring”

Uma das mais extraordinárias canções que fala da Primavera não tem flores a desabrochar nem pássaros a chilrear, porque na verdade não se passa na Primavera. Eis 10 leituras superlativas deste delicioso paradoxo
State Fair
Por José Carlos Fernandes |
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O compositor Richard Rodgers e o letrista Oscar Hammerstein II compuseram dezenas de musicais para a Broadway – alguns dos quais foram adaptados ao cinema – mas apenas compuseram uma banda sonora directamente para o grande ecrã: State Fair (1945), realizado por Walter Lang.

O filme começa numa quinta numa zona rural do Iowa, com a família Frake a preparar-se para o grande evento anual que é a Iowa State Fair, em Des Moines, com expectativas bem diversas: enquanto o pai, Abel, sonha obter um primeiro prémio com o seu porco Blue Boy e a mãe, Melissa, se afadiga com o prato que submeterá ao concurso de culinária, a filha, Margy, entediada com a modorrenta vida na quinta, vê a feira como uma bem-vinda quebra na rotina.

É nesse estado de excitação e expectativa que Margy Frake canta “It Might As Well Be Spring”. A letra (uma das mais conseguidas de Hammerstein) transmite o desassossego sem causa nem forma definida que formiga em Margy e que, como o desenrolar do filme revelará, resulta em parte do enfado com o seu baço e provinciano namorado, Harry – na feira irá conhecer Pat, repórter de um jornal de Des Moines e homem viajado e cosmopolita, que rapidamente expulsará do seu coração o campónio Harry (que ficara na sua quinta a tratar das vacas).

[Excerto de State Fair em que Jeanne Crain, no papel de Margy Frake, “canta” “It Might As Well Be Spring” (dobrada por Louanne Hogan)]

O que deixa Margy desinquieta não é a “febre da Primavera” – tradução literal da “Spring fever” inglesa, essa nebulosa “perturbação afectiva sazonal” –, até porque a Iowa State Fair tem lugar em Agosto, mas a aspiração a algo que transcenda a sua vida entorpecente, previsível e de horizontes fechados:

“As coisas de que costumava gostar, já não me satisfazem/ E quero muitas coisas que nunca tive antes/ [...]// Estou tão irrequieta como um salgueiro num vendaval/ Tão nervosa como uma marioneta suspensa dos fios/ Dir-se-ia que estou com a febre de Primavera/ Mas bem sei que não é Primavera// Estou com disposição sonhadora e insatisfeita/ Como um rouxinol sem canção para cantar/ Mas porque falo eu de febre de Primavera/ Se bem sei que não é Primavera?// Estou sempre a desejar ser outra pessoa/ Caminhando por uma rua estranha e nova/ Ouvindo palavras que nunca ouvi/ De um homem que ainda não conheci// Estou tão atarefada como uma aranha a tecer sonhos acordados/ Tão esfuziante como uma criança num baloiço/ Não vi ainda desabrochar flores/ Ou um pisco ou um tordo/ Mas sinto-me tão alegre, de uma forma melancólica,/ Que é como se fosse Primavera”.

A canção ganhou o Óscar para Melhor Canção Original – por uma vez, a Academia acertou em cheio. E caso tenham ficado com curiosidade: o porco Blue Boy também ganhou o primeiro prémio na feira.

10 versões de “It Might As Well Be Spring”

Sarah Vaughan

Ano: 1950
Álbum: The Columbia Years: 1949-1953 (Columbia)

Sarah Vaughan é acompanhada por George Treadwell & His All Stars, um octeto que tem a curiosidade de incluir Miles Davis numa das suas raríssimas aparições como sideman. A canção faz parte de uma série de sessões de Vaughan para a Columbia que seriam mais tarde compiladas em álbum (na viragem dos anos 40-50 o LP ainda não fizera a sua aparição).

Blossom Dearie

Ano: 1956
Álbum: Blossom Dearie (Verve)

Na sua estreia a solo, Blossom Dearie escolheu abordar a canção num tempo invulgarmente arrastado e em francês (no início da década de 50, Dearie viveu em Paris, onde formou o grupo vocal Blue Stars) . O acompanhamento rarefeito de piano (a própria Dearie), guitarra (Herb Ellis), contrabaixo (Ray Brown) e bateria (Jo Jones) é complementado por uns coros que não acrescentam muito.

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Ahmad Jamal

Ano: 1958
Álbum: At the Pershing vol. 2 (Argo)

O álbum At the Pershing: But Not For Me, gravado ao vivo no clube Pershing Lounge, em Chicago, a 16 de Janeiro de 1958, foi decisivo na carreira do pianista Ahmad Jamal. O seu sucesso levou a que, três anos depois, a Argo recuperasse 11 faixas dessa noite inesquecível – entre as quais está “It Might As Well Be Spring” – e as lançasse num segundo volume (a sessão completa está hoje disponível em Complete Live at the Pershing Lounge, na American Jazz Classics).

Kenny Dorham & Julian “Cannonball” Adderley

Ano: 1959
Álbum: Blue Spring (Riverside)

Blue Spring é um álbum “monotemático”, em que “It Might As Well Be Spring” tem a companhia de “Spring Is Here” (da parceria Rodgers & Hart) e de quatro composições do trompetista Kenny Dorham com “Spring” no título. O septeto, co-liderado pelo saxofonista Julian “Cannonball” Adderley, adopta uma postura cool e relaxada.

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Nina Simone

Ano: 1959
Álbum: The Amazing Nina Simone (Colpix)

A versão incluída no segundo álbum de Simone mostra a cantora em estado de graça: a sua voz grave, escura e velada coloca cada sílabas com uma precisão e delicadeza e estudadas, ao mesmo tempo que as impregna de emoção. Os arranjos orquestrais são de Bob Mersey.

Ike Quebec

Ano: 1961
Álbum: It Might As Well Be Spring (Blue Note)

O saxofonista Ike Quebec escolheu um tempo langoroso e uma abordagem de intensa sensualidade – este é daqueles casos em que o saxofone se converte num “sexofone”. Nesta opulenta versão, que explica a fama de Quebec como intérprete de baladas românticas, tem o acompanhamento de Freddie Roach (órgão), Milt Hinton (contrabaixo) e Al Harewood (bateria).

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Stan Kenton

Ano: 1961
Álbum: Sophisticated Approach (Capitol)

A popularidade da orquestra de Stan Kenton foi, como a da maioria das big bands, erodindo-se ao longo da década de 1950. Depois de ter batido no fundo em 1959, Kenton restruturou a banda e logrou no início dos anos 60 averbar alguns sucessos que a trouxeram de novo para a ribalta. Um dos álbuns da “retoma” foi Sophisticated Approach que inclui esta versão de “It Might As Well Be Spring” (que pode também ser ouvida na reedição em CD do álbum Adventures in Jazz, gravado no mesmo ano e que seria distinguido em 1963 com um Grammy).

Bill Evans

Ano: 1962
Álbum: Moon Beams (Riverside)

A morte do contrabaixista Scott LaFaro em Julho de 1961, num acidente de viação, foi um rude golpe para Bill Evans, que só regressaria ao estúdio em Maio de 1962, com Chuck Israels a tomar o lugar de LaFaro no trio com o baterista Paul Motian. A versão então gravada de “It Might As Well Be Spring” prima pela delicadeza e intimismo.

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Astrud Gilberto & Stan Getz

Ano: 1964
Álbum: Getz au Go Go (Verve)

Embora Getz au Go Go seja apresentado como documentando uma sessão com Astrud e o New Stan Getz Quartet ao vivo no Café Au Go Go, em Greenwich Village, Nova Iorque, em Maio de 1964 (complementada por excertos de um concerto do quarteto no Carnegie Hall, em Outubro), há indícios de que a realidade é outra. O concerto decorreu mesmo, mas a qualidade do registo não terá correspondido às expectativas e para a edição em disco as canções terão sido refeitas no estúdio de Rudy Van Gelder, tendo sido adicionado “ruído ambiente” para simular o live. A ser verdade, não há que ficar chocado: a prática era comum na época e esta colaboração de Astrud com Getz, animada por um doce embalo de bossa nova, é um clássico.

Brad Mehldau

Ano: 1995
Álbum: Introducing Brad Mehldau (Warner)

Richard Rodgers concebera “It Might As Well Be Spring” como uma canção num efervescente tempo médio – de forma a exprimir o desassossego da personagem –, mas durante a rodagem do filme o director musical da 20th Century Fox entendeu que a canção funcionaria melhor num tempo bem mais lento (e não pediu autorização ao compositor para fazer a alteração, limitou-se a notificá-lo). A verdade é que a canção funciona muito bem no tempo lento em que se tornou usual tocá-la, mas o pianista Brad Mehldau (com Larry Grenadier e Jorge Rossy) devolve-lhe o nervosismo previsto no conceito original e o resultado não é menos cativante.

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