7 peças clássicas inspiradas em Romeu e Julieta

A história de Romeu e Julieta tem uma longa tradição anterior a Shakespeare, mas foi a peça do dramaturgo inglês que cristalizou o modelo e serviu de inspiração às óperas e peças orquestrais mais ouvidas nos nossos dias
Romeu e Julieta - Baz Luhrmann - 1996
©DR
Por José Carlos Fernandes |
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Os “star-crossed lovers” Romeu e Julieta estão na origem de incontáveis peças de música erudita. Há a contabilizar pelo menos 27 óperas, a primeira das quais foi o singspiel Romeo und Julie, surgido em 1776, pela mão do compositor boémio Georg Benda, a partir de um libreto que desemboca num final feliz, como era convenção na ópera daquele tempo: quando, no túmulo de Julieta, Romeu se prepara para cravar um punhal no peito, Julieta desperta e o par canta um enlevado dueto de amor; para a felicidade ser completa, Frei Lourenço consegue persuadir o pai de Julieta a aceitar Romeu como genro. O tema inflamou a imaginação de libretistas e compositores de ópera italianos (Marescalchi, Zingarelli, Guglielmi, Vaccai) na viragem dos séculos XVIII-XIX, mas nenhuma destas óperas gozou de fama prolongada e acabaram por ser as óperas e a música orquestral surgidas durante o período Romântico a perpetuar hoje a paixão trágica de Romeu e Julieta nos teatros e salas de concerto.

No sábado 21 de Janeiro, pelas 18.00, na Fundação Gulbenkian, poderá assistir-se à transmissão directa Live in HD a partir da Metropolitan Opera de Nova Iorque a uma récita do Roméo et Juliette de Gounod, com Diana Damrau e Vittorio Grigolo nos papéis principais, direcção de Gianandrea Noseda e encenação de Bartlett Sher.

7 peças clássicas inspiradas em Romeu e Julieta

Camera

Bellini: I Capuletti e i Montecchi (1830)

A história de que Shakespeare se apropriou para o seu Romeu e Julieta era italiana e foram essas fontes italianas que o libretista Felice Romani usou como base para o seu libreto, não a peça do dramaturgo inglês. O libreto de I Capuletti e i Montecchi não é mais do que uma reciclagem sumária de Giulietta e Romeo, que Romani escrevera em 1825 para Nicola Vaccai, mas o libretista não teve grande escolha, dado o prazo apertadíssimo que lhe foi dado. Quanto a Bellini, despacharia a sua parte em apenas sete semanas, recorrendo também à reciclagem, mais precisamente à sua ópera anterior, Zaira, que fora um fiasco completo. Ao público mais habituado às convenções naturalistas poderá parecer insólito que o papel de Romeu seja confiado a uma mezzo-soprano, mas a escolha não é deslocada nas convenções da época.

[Duetos “Si, fuggire, a noi non resta” e “Ah, crudel, d’onor ragioni”, com a mezzo-soprano Elina Garanca como Romeu e a soprano Anna Netrebko como Julieta, com a Sinfónica de Viena sob a direcção de Fabio Luisi (Deutsche Grammophon)]

Camera

Berlioz: Roméo et Juliette (1839, Sinfonia dramática)

Hector Berlioz era um devoto de Shakespeare, pelo que não é de estranhar a escolha de Romeu e Julieta para tema de uma imponente obra (hora e meia de duração) que o autor classificou como “sinfonia dramática”, mas cujas partes para solistas vocais e coro podem também levar a que a obra também possa ser vista como uma “ópera de concerto” ou uma cantata. Até os compositores mais assolapadamente românticos estão constrangidos pelas vis necessidades materiais e a composição desta sinfonia dramática só foi possível porque o Berlioz gozou de um período de algum desafogo quando o virtuoso do violino Niccolo Paganini se ofereceu, generosamente, para pagar as dívidas que sufocavam o compositor – este, reconhecido, dedicou a obra ao benfeitor.

[“Cena de amor/Noite serena”, de Roméo et Juliette, pela Orchestre Révolutionnaire et Romantique (em instrumentos de época), com direcção de John Eliot Gardiner]

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Gounod: Roméo et Juliette (1867, Ópera)

Roméo et Juliette foi o maior sucesso de Gounod, ultrapassando um total de 100 récitas logo no ano da estreia. Alguns críticos reprovam o excessivo protagonismo concedido por Gounod ao par de apaixonados e descrevem a ópera como “quatro duetos de amor, com uns enfeites” (na verdade até são seis duetos, se contarmos com um trio e um quarteto em que as outras vozes têm papel apagado). O libreto de Jules Barbier e Michel Carré tem a particularidade (como o de Romani) de prolongar a agonia de Romeu até Julieta despertar, de forma a permitir fechar a ópera com um dueto.

[Dueto “Nuit d’hyméné”, com a soprano Angela Gheorghiu e o tenor Roberto Alagna, direcção de Michel Plasson, em 2002]
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Tchaikovsky: Romeu e Julieta (1869-80, Abertura-Fantasia)

Tchaikovsky tinha Shakespeare em grande estima e viria a compor mais duas aberturas inspiradas em peças do “Bardo”: A tempestade (1873) e Hamlet (1888). Quem o incitou a compor Romeu e Julieta foi outro compositor russo apaixonado por Shakespeare, Miri Balakirev (ele próprio autor de uma abertura Rei Lear), que, inclusive, lhe fez sugestões quanto ao plano da obra e à natureza dos vários temas. Tchaikovsky adoptou parcialmente estas sugestões bem como a algumas das críticas que Balakirev foi fazendo à medida que a partitura progredia. O fiasco da estreia, a 16 de Março de 1870, por razões alheias à obra (o maestro Nikolai Rubinstein estava envolvido num processo judicial escandaloso e foi nele, não na música, que a atenção do público se focou), levou Tchaikovsky a admitir que muitos dos reparos feitos por Balakirev eram fundamentados, pelo que empreendeu uma profunda revisão da partitura. Voltaria a fazê-lo em 1880 e é a terceira versão que hoje costuma ser ouvida.

[Abertura-Fantasia Romeu e Julieta pela Orquestra Sinfónica de Londres, com direcção de Valery Gergiev]

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Delius: A Village Romeo and Juliet (1907, Ópera)

O libreto, cozinhado pelo próprio compositor e pela sua esposa, a partir de um conto do suíço Gottfried Keller, coloca a história de Romeu e Julieta num cenário rural: as duas crianças, unidas desde novas por profunda amizade, vêem-se separadas à força por uma desavença entre as respectivas famílias em torno da propriedade de uma parcela de terreno. A intriga, ostensivamente mesquinha e sórdida, contrasta com a opulência wagneriana da música, bem patente no dueto final, onde podem ouvir-se ecos do célebre Liebestod que encerra Tristão e Isolda.

[“See, the Silver Moonlight Kisses the Woods”, dueto final de A Village Romeo and Juliet, por Robert Tear (Sali) e Elizabeth Harwood (Vreli), Royal Philharmonic Orchestra, direcção de Meredith Davies (EMI/Warner)]

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Prokofiev: Romeu e Julieta (1935, Bailado)

O enredo concebido para o bailado por Adrian Piotrovsky e Sergey Radlov seguia o enredo da peça de Shakespeare, mas Prokofiev insistiu num final feliz, em que Romeu e Julieta ficam vivos, alegando, com alguma sensatez, que “os mortos não dançam”. O desvio ao cânone desagradou à direcção do Teatro Bolshoi, de Moscovo e Prokofiev acabou por modificar o final, em sintonia com o original de Shakespeare, mas a direcção do teatro passou a manifestar reticências quanto à música, que considerou pouco adequada a ser dançada. Foi por esta razão que o bailado acabou por estrear, a 30 de Dezembro de 1938, em Brno, na Checoslováquia. Como se isto não bastasse, Piotrovsky caiu em desgraça junto do regime soviético, o que remeteu o bailado para o limbo. Quando finalmente estreou no Teatro Kirov de Leningrado, a 11 de Janeiro de 1940, o nome de Piotrovsky tinha sido suprimido dos créditos e substituído pelo do coreógrafo Leonid Lavrovsky. Do bailado Prokofiev extraiu três suítes orquestrais, que são ouvidas mais frequentemente do que a versão integral (que tem, nas suas duas horas de duração, vários trechos mortos, apesar de os protagonistas estarem vivos).

[“Cena da varanda”, pela Orquestra Filarmónica do Estado Checo, com direcção de Frank Dicksee]

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Bernstein: West Side Story (1957, Musical)

A acção decorre não na Idade Média mas na década de 1950, passa-se não em Verona mas no Upper East Side de Nova Iorque, envolve rivalidades figadais não entre as famílias dos Capuletti e dos Montecchi mas entre os gangs dos Jets (brancos) e dos Sharks (porto-riquenhos), mas não há que enganar: Tony e Maria de West Side Story espelham Romeu e Julieta (embora Maria não morra no fim). O libreto foi redigido por Arthur Laurents e um então muito jovem Stephen Sondheim. O musical teve numerosas representações na Broadway e ganhou dois Tonys, mas foi a adaptação ao cinema, surgida em 1961, com Natalie Wood e Richard Beymer nos papéis principais (dobrados nas partes cantadas) e realização de Robert Wise e Jerome Robbins (o coreógrafo do musical) que conquistou o imaginário.

[Dueto “Tonight” (equivalente à cena da varanda em Romeu e Julieta), com Natalie Wood (voz de Marni Nixon) e Richard Beymer (voz de Jim Bryant) no filme West Side Story]

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