Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Nove óperas sobre a realeza britânica

Nove óperas sobre a realeza britânica

O Teatro Nacional de São Carlos leva à cena 'Anna Bolena', de Donizetti: um bom pretexto para recordar outras óperas sobre a família real britânica (sorry, não há ainda nada sobre Carlos e Diana)

Painting Henry VIII with Prince Edward and Jane Seymour (unknown artist)
Alamy Henrique VIII
Por José Carlos Fernandes |
Publicidade

Anna Bolena, de Donizetti, estará em cena em Fevereiro no Teatro Nacional de São Carlos, com Elena Mosuc, Burak Bilgil, Jennifer Holloway, o Coro do TNSC e a Orquestra Sinfónica Portuguesa, com direcção de Giampaolo Bisanti e encenação de Graham Vick. Não é a única, nem foi a primeira, a inspirar-se na família real britânica.

Sábado 4, segunda-feira 6, quinta-feira 9 e terça-feira 14, às 20.00, domingo 12 às 16.00, 20-60€

Nove óperas sobre a realeza britânica

Camera

King Arthur, de Purcell

Monarca: Artur, viragem dos séculos V-VI, se é que teve existência real.

King Arthur or the British Worthy, estreada em Londres em 1691, não é bem uma ópera, pois os ingleses de então não apreciavam muito o género, é antes uma peça de teatro com interlúdios musicais, essencialmente a cargo de personagens secundárias, pois as personagens principais quase só têm partes faladas. O libreto de John Dryden descarta os usuais mitos arturianos, cola-se a A Tempestade de Shakespeare e faz intervir divindades da mitologia greco-romana e nórdica, mas estas liberdades não fazem muita mossa na “verdade histórica”, pois tudo em volta de Artur é tão nebuloso que alguns historiadores defendem que terá sido tão mitológico quanto Vénus ou Thor.

Os trechos mais famosos da ópera são a ária do Génio do Frio “What Power Art Thou?” (ver oito peças clássicas para ouvir junto à lareira) e a ária de Vénus “Fairest Isle”: “Oh, mais bela das ilhas, que todas as outras suplanta, sede do prazer e do amor, Vénus escolhe fazer dela a sua residência”. 

[“Fairest Isle”, pela soprano Barbara Bonney (Vénus) e o Concentus Musicus Wien, com direcção de Nikolaus Harnoncourt]

Camera

Riccardo Primo, de Handel

Monarca: Ricardo I “Coração de Leão” (Lionheart) (1157-1199)

A ópera, estreada em Londres em 1719, envolve um rei inglês mas o episódio tratado no libreto passa-se no estrangeiro. Em 1191, Ricardo I ia a caminho da Terra Santa (no âmbito da III Cruzada) quando uma tempestade dispersou a sua frota e fez naufragar ou procurar refúgio na costa de Chipre vários navios, incluindo os que levavam o tesouro real e a sua noiva, Berengaria de Navarra (Costanza no libreto musicado por Handel). Isaac Comneno, o governante da ilha, apresou os navios e prendeu os náufragos e nem a chegada do resto da frota de Ricardo I a Limassol o demoveu dos seus intentos. Ricardo I desembarcou, derrotou as tropas de Isaac, conquistou a ilha e libertou Berengaria, com quem se casou um Limassol em Maio de 1791, antes de seguir para a Terra Santa. 

[Dueto “T’Amo Sí”, de Riccardo Primo, pelo contratenor Franco Fagioli (Riccardo Primo) e pela soprano Emily Hindrichs (Costanza), com os Deutsche Händelsolisten e o maestro Michael Hofstetter, ao vivo no Festival Handel de Karlsruhe, Fevereiro de 2014]

Publicidade
Camera

Alfred, de Arne

Monarca: Alfredo, o Grande (849-899).

Alfredo, o Grande, é lembrado por ter repelido os invasores vikings e por ter expandido o seu domínio, inicialmente confinado ao Wessex, a boa parte do que é hoje a Inglaterra. O libreto da ópera de Arne começa em tempos sombrios, com Artur em busca de refúgio após uma derrota infligida pelos vikings, mas acaba em tom triunfal: Alfred parte novamente para a guerra contra os vikings, o filho, Eduardo, saúda o regresso dos “valores britânicos” e, no famoso número final, “Rule Britannia!”, Alfred exalta (anacronicamente) o domínio britânico dos mares, no que é secundado fervorosamente pelo coro. A ópera nasceu como uma modesta masque em 1740, mas Thomas Arne, um dos raros compositores setecentistas de algum renome a ter nascido em solo britânico, expandiu-a, em 1753, para as dimensões que hoje se conhecem. O coro “Rule Britannia!” acabaria por autonomizar-se e tornar-se num hino nacional e não é improvável que Nigel Farage o cante no duche.



[“Rule Britannia!”, por Jamie MacDougall (Alfred), Jennifer Smith (Altruda) e Philharmonia Chorale & Baroque Orchestra, direcção de Nicholas McGegan (CD Deutsche Harmonia Mundi/Sony)]

Camera

Elisabetta, Regina d’Inghilterra, de Rossini

Monarca: Isabel I (1533-1603)

O facto de Isabel I nunca ter casado – o que lhe valeu o cognome de “Rainha Virgem” – não impediu os historiadores, romancistas, dramaturgos e libretistas de dar largas à especulação e de lhe arranjar incontáveis casos amorosos. É certo que Isabel considerou vários pretendentes, ingleses e estrangeiros, e que um dos que esteve mais perto do casamento foi Robert Dudley, Conde de Leicester, seu amigo de infância e membro do círculo de favoritos. Porém, as circunstâncias históricas do relacionamento entre Isabel e Leicester não têm nada a ver com os do rocambolesco libreto desta ópera, redigido por Giovanni Schmidt a partir da peça Il Paggio di Leicester, de Carlo Federici, que, por sua vez, adaptava o romance The Recess (1785), de Sophia Lee.

Elisabetta estreou no San Carlo de Nápoles em 1815 e foi a primeira das nove óperas que Rossini compôs para este teatro, pelo que se sentiu à vontade para reciclar numerosos trechos de óperas suas que nunca tinham sido apresentadas em Nápoles. 

[Cavatina “Quant’É Grato all’Alma Mia”, pela mezzo-soprano Joyce DiDonato, Coro & Orquestra da Academia Nacional de Santa Cecília, com direcção de Edoardo Müller; incluída no álbum Colbran, the Muse (Erato/Warner)]

Publicidade
Camera

Il Castello di Kenilworth, de Donizetti

Monarca: Isabel I (1533-1603)

Com excepção dos jornais tablóides britânicos e das revistas de mexericos, ninguém dedicou tanta atenção à vida sentimental da realeza britânica como Donizetti, que compôs uma famosa série de quatro óperas sobre os Tudors –  Il Castello di Kenilworth ou Elisabetta al Castello di Kenilworth (1829), Anna Bolena (1830), Maria Stuarda (1834-35) e Roberto Devereux (1837) – e anda se ocupou dos amores entre Henrique II e Rosamund Clifford, em Rosmonda d’Inghilterra (1829), e de Alfredo, o Grande, em Alfredo il Grande (1823)

O libreto de Elisabetta al Castello di Kenilworth adapta uma peça de Victor Hugo e outra do prolífico Eugene Scribe, ambas com raiz no romance Kenilworth, de Walter Scott. Tal como Elisabetta, Regina d’Inghilterra, de Rossini, fantasia relações amorosas entre Isabel I e o seu favorito, o Conde de Leicester. Este está apaixonado por Amelia Robsart e, ao receber a notícia da visita da rainha ao seu castelo de Kenilworth, trata de esconder Amelia, receando os ciúmes de Isabel. Ao contrário das outras três “óperas Tudor”, que acabam todas com cabeças cortadas, esta tem um desenlace feliz. 

[“Par Che Me Dica Ancora”, por Joan Sutherland (Amelia), com direcção de Richard Bonynge]

Camera

Anna Bolena, de Donizetti

Monarcas: Henrique VIII (1491-1547), Anne Boleyn (c.1501-1536)

Henrique VIII de Inglaterra estava casado com Catarina de Aragão quando se enamorou por Anne Boleyn, filha do Conde de Wiltshire, após já ter tido como amante a irmã mais nova de Anne, Mary. Como Anne se recusou a ser mais uma das amantes do rei, Henrique solicitou ao Papa a anulação do casamento com Catarina. O Papa não cedeu, pelo que, em 1533, Henrique instruiu o Arcebispo de Cantuária para que anulasse o casamento com Catarina e validasse o casamento com Anne, o que teve como consequência a excomunhão pelo Papa de Henrique e do Arcebispo, o que acabaria por conduzir à ruptura entre a Igreja Anglicana e a Santa Sé. Anne foi coroada rainha nesse ano, mas esteve apenas três anos no trono, pois em Março de 1536 o coração inconstante do rei descobriu um novo e ardente foco de interesse: Jane Seymour, uma sua prima em 5.º grau. Desta feita, Henrique foi mais expedito: fez acusar Anne de adultério e alta traição e a infeliz rainha foi encarcerada na Torre de Londres, onde acabaria por ser decapitada.

Esta trágica história inspirou incontáveis romances e peças de teatro, bem como um libreto de Felice Romani, que Donizetti musicou e estreou em Milão, a 26 de Dezembro de 1830, com um elenco de luxo, encabeçado pela célebre Giuditta Pasta. 

[“Dio, Che Me Vedi in Core”, com a soprano Anna Netrebko (Anna Bolena), a mezzo-soprano Elina Garanca (Giovanna Seymour) e o Coro & Orquestra da Ópera Estatal de Viena, sob direcção de Evelino Pidò, encenação de Eric Genovese (DVD Deutsche Grammophon/Universal)]

Publicidade
Camera

Maria Stuarda, de Donizetti

Monarcas: Maria I da Escócia (1542-87), que os britânicos conhecem como Mary, Queen of the Scots; Isabel I (1533-1603)

O libreto de Maria Stuarda convoca novamente as supostas relações sentimentais entre Isabel I e o Conde de Leicester: a rainha é roída pela suspeita de que o seu amante Leicester está apaixonado por Maria, que Isabel mantém aprisionada no castelo de Fotheringay. Acicatada pelo ciúme, acaba por ordenar a execução de Maria, a pretexto de esta ter engendrado o assassinato do seu marido, Lord Darnley, e a ópera termina com a subida de Maria ao patíbulo.

Para se compreender o entusiasmo dos italianos por estes enredos é preciso ter em consideração o contexto religioso: Maria, que era católica, fora candidata ao trono inglês, que acabou por ficar para Isabel; ora esta, sendo protestante, era vista na católica Itália como uma herege e uma bastarda (era filha do segundo casamento de Henrique VIII, com Anne Boleyn, e o Papa não anulara o primeiro casamento). Aos olhos italianos, era Maria a legítima herdeira do trono e a sua execução fez dela uma mártir do catolicismo. Em “Figlia Impura di Bolena”, um dos momentos climácticos da ópera, muitos corações devem ter vibrado por Maria quando esta, falsamente acusada por Isabel, retorque assim: “Filha Impura da Bolena, falas-me tu de desonra? Meretriz indigna e obscena, coro de vergonha por ti. Profanado foi o solo inglês pelos teus pés, ó vil bastarda!”. 

[“Figlia Impura di Bolena”, pela mezzo-soprano Joyce DiDonato (Maria), a soprano Elza van den Heever (Elisabetta) e o tenor Matthew Polenzani (Leicester), num ensaio geral da temporada de 2012-23 da Metropolitan Opera de Nova Iorque]

Camera

Henry VIII, de Saint-Saëns

Monarcas: Henrique VIII (1491-1547), Catarina de Aragão (1485-1536), Anne Boleyn (c.1501-1536)

A intriga da ópera de Camille Saint-Saëns, estreada em 1883, tem pontos de contacto com a de Anna Bolena de Donizetti, embora se detenha antes de Henrique VIII ter começado a matutar em descartar-se de Anne Boleyn – a ópera termina com o rei a ameaçá-la com o machado do carrasco caso a apanhe em adultério. Saint-Saëns deu-se ao trabalho de estudar a música inglesa do século XVI, de forma a dar um cunho de época à sua ópera.

 

[Cena final de Henry VIII, com Philippe Rouillon (Henry VIII), Lucie Vignon (Anne Boleyn), Michèle Command (Catherine d’Aragon) e Alain Gabriel (Don Gomez de Feria, embaixador de Espanha), produção do Teatro Imperial de Compiègne]

Publicidade
Camera

Gloriana, de Britten

Monarca: Isabel I (1533-1603), popularmente conhecida por “Gloriana”, por Edmund Spenser ter dado tal nome à personagem de Isabel I no poema The Faerie Queene.

A ópera é sobre Isabel I, mas foi composta para Isabel II, mais precisamente para a cerimónia de coroação desta, em 1953. A recepção foi fria, talvez por se esperar que a ópera, cingindo-se às circunstâncias da encomenda, glorificasse o reinado de Isabel I e, indirectamente, a nova rainha. Porém, Britten e o seu libretista, William Plomer, pintaram uma rainha com virtudes e defeitos, algo frívola e indecisa, dividida entre o amor por Robert Devereux (o mesmo da ópera de Donizetti) e o dever de manter a ordem e sufocar rebeliões, e que é atormentada pela consciência do seu envelhecimento e da sua mortalidade. E não há nada como a velhice e a morte para estragar uma festa de coroação.

[“Soliloquy & Prayer”: Leontyne Price (Elizabeth I) medita sobre as pesadas responsabilidades do seu cargo]

Clássica para todos

Tristão e isolda com a poção,  John William Waterhouse
©DR
Música, Clássica e ópera

Nove grandes duetos de amor na ópera

A definição de ópera de George Bernard Shaw – “um tenor e uma soprano querem ir para a cama, mas são impedidos de o fazer por um barítono” – tem algum fundamento, mas é uma base que permite imensas variações

Romeu e Julieta - Baz Luhrmann - 1996
©DR
Música, Clássica e ópera

7 peças clássicas inspiradas em Romeu e Julieta

Os “star-crossed lovers” Romeu e Julieta estão na origem de incontáveis peças de música erudita. Há a contabilizar pelo menos 27 óperas, a primeira das quais foi o singspiel Romeo und Julie, surgido em 1776, pela mão do compositor boémio Georg Benda

Publicidade
András Schiff
©Birgitta Kowsky
Música, Clássica e ópera

Dez concertos para piano que precisa de ouvir

Desde Mozart até aos nossos dias, o concerto para piano é um dos géneros mais apreciados, ao equilibrar a imponência e colorido orquestral com o brilho e virtuosismo do solista, e muitos foram os compositores/ que nele investiram a sua melhor inspiração

Publicidade