Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Adriana Calcanhotto: “A solução está nas mãos das crianças”

Adriana Calcanhotto: “A solução está nas mãos das crianças”

“Margem” fecha a trilogia marítima que Adriana Calcanhotto começou em 1998. Hoje, acredita que a resposta à questão ambiental só virá depois de nós, os adultos.

Adriana Calcanhotto
DR Adriana Calcanhotto
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Adriana Calcanhotto anda a circum-navegar os problemas relacionados com os mares desde Marítimo, há mais de duas décadas. Maré foi um arquipélago que cruzou a meio caminho para o álbum que é lançado esta sexta-feira, Margem, e que fecha a trilogia. É um alerta: “Tudo o que está acontecendo com a civilização humana está acontecendo pelos oceanos”. Tudo o que está a acontecer de mau, entenda-se.

Há oito anos que não havia um disco de canções adultas. O que demorou?
[Risos.] Fiz muita coisa: canções para não adultos, dei aulas, fiz projectos, encomendas, o Olhos de Onda, o Uma Noite Única, com canções do Lupicínio Rodrigues. Muita coisa que não era ir para estúdio. E aí chegou esse momento. Eu vinha pensando neste álbum desde que o segundo da trilogia marinha [Maré, 2008] foi lançado. Tem inclusive duas canções que chegaram a ser gravadas para o segundo, mas eu não gostei de mim. Eu já sabia que o terceiro se ia chamar Margem. No princípio pensei em margem com “n”, como se fosse um gene do mar, que todos temos. Viemos do mar.

Em “O Príncipe das Marés”, canta “a minha terra é o mar”. É uma das canções que vêm de Maré. E a outra?
“Os Ilhéus”. É uma coisa engraçada: na verdade ela tem mais a ver com o Margem como um todo, porque o poema do António Cícero está falando dessa coisa de as civilizações estarem umas acima das outras, no plano físico mesmo. O que ele está dizendo é que daqui a pouco estaremos alguns metros abaixo de civilizações que vão estar igualmente encantadas com o mar e igualmente se questionando sobre as mesmas questões. Acho isso de uma beleza sem par.

Seremos engolidos pela subida das águas. Uma consequência do aquecimento global, que tem na base um grave problema de poluição.
No primeiro [disco da trilogia, 1998], Marítimo, a preocupação eram os barcos japoneses que se camuflavam para poderem caçar as baleias. Agora, num estalar de dedos, o mar está neste estado, cheio de plástico. As pessoas estão comendo peixes entupidos de plástico. Junto com isso, os refugiados, indo de um lado para o outro, naquela condição miserável, sub-humana. Todas essas coisas passam pelos oceanos. Tudo o que está acontecendo com a civilização humana está acontecendo pelos oceanos.

Isso requer uma resposta da cúpula política e económica, ou de cada um?
A solução está na mão das crianças. Nós já estragámos tudo. As crianças, além de terem uma atitude correcta em relação ao meio ambiente, não só agem como corrigem as pessoas que não pensaram sobre isso.

Não será demasiado tarde?
Já é tarde. Mas eu sou optimista. As crianças estão realmente mobilizadas, comprometidas, agindo. Quero crer que é possível.

Mas países importantes como os EUA ou o Brasil estão a regredir em relação a uma eventual solução.
As crianças daqui a pouco estarão presidindo as nações. Serão os parlamentos, os congressos e já estão agindo.

“O Príncipe das Marés” parece ser um momento de inflexão no disco. Depois aparecem “Oguntê” e “Meu Bonde”, com uma toada que casa bem com a destruição do planeta.
O riff de “O Príncipe das Marés” é do [Alexandre] Kassin. Quando fui gravar agora, ele botou a cítara. É uma canção meio guitarreira. “Oguntê”, não. Programei no laptop. São canções mais cheias. Talvez seja isso. Compus “Oguntê”, “Lá Lá Lá” e “Margem” evitando a guitarra. Faço loops muito simples e aquilo fica rodando e eu fico fazendo as canções, para tentar caminhos diferentes, até simplificar melodias e fazer coisas mais rentes à fala, mais parecidas com o hip-hop.

O que é Oguntê?
É uma entidade do candomblé. Iemanjá é a rainha dos mares, mas ela é uma entidade subdividida em outras e Oguntê é uma delas. Se chama Oguntê porque tem uma mistura com Ogum, que no sincretismo é São Jorge. Ou seja, é Iemanjá da guerra. E a saudação que se faz para qualquer Iemanjá é odoyá. Eu não sou do candomblé, nem religiosa, mas acho muito bonita essa visão de que, sendo a mãe dos mares, a senhora dos mares, é portanto mãe de todos.

O mar é também um elemento de ligação óbvio entre Portugal e Brasil. Tem passado muito tempo cá – e isso fez com que incluísse uma guitarra portuguesa em dois temas.
“Esquadros”, que é de 1992, “Nós não conseguimos pensar musicalmente da forma que um português pensa.”tem uma guitarra portuguesa. Tem a sonoridade, que é tão linda. Mas tem intervalos, notas, frases musicais pensadas e tocadas por um brasileiro. Nós não conseguimos pensar musicalmente da forma que um português pensa.

Porquê?
É outra lógica. É impossível para nós. Os acordes que armamos não dão certo. Chamei o Ricardo [Parreira] porque dessa vez não queria o som da guitarra portuguesa, queria música portuguesa, esse jeito de ouvir a música que os portugueses têm. Quando ouço aquilo estou ouvindo toda a minha relação com Portugal dentro da minha música. É uma coisa fantástica. Que comove. Eu não poderia, em anos, chegar a uma frase musical daquelas. E é com uma dinâmica, um sentimento, um negócio inacreditável.

Produziu o disco sozinha. Preferiu concentrar o processo criativo em si?
É evidente que todo o processo é colectivo. Trabalho com músicos que são compositores. Muitas vezes produzi, mas dei a assinatura. Não achava importante. E me dei conta de que nunca a assinei sozinha.

Vai ter espectáculos  de apresentação em Portugal?
16 de Novembro em Lisboa, no Tivoli, e 19 de Novembro na Casa da Música. Depois provavelmente vamos voltar  para fazer outras cidades.

O que podemos esperar?
É nesses concertos que os discos de mar vão se encontrar. A trilogia vai estar conversando no palco. Claro que vai ter alguns êxitos e possivelmente canções de outros autores, coisas correlativas à trilogia ou, sei lá, alguma coisa que apareça, que me arrebate.

Como está a ser a experiência na Universidade de Coimbra?
Maravilhosa. Nunca imaginei. Começou há três anos. Eu venho de uma família de professores, mas nunca reparei num detalhe: ensinar é estudar, que é a coisa de que eu mais gosto. Descobri isso e vou voltar para o ano, ampliando a minha actuação na Universidade: vou dar o meu curso, algumas aulas a convite de outros cursos e vou colaborar com o Centro de Estudos Sociais. Ou seja, vou ter que estudar mais, o que é uma maravilha. E fico lá até me expulsarem. [Risos.]

Qual é o curso que dá em Coimbra?
Como escrever canções. O que significa que dou a história da canção desde a Grécia, passando pelos trovadores. Dou as ferramentas, ensino estrofe, verso, refrão, tecitura, contraste, dinâmica, prosódia. Faço eles comporem, analisamos as canções, dou exemplos de vários compositores... Esse ano trabalhámos uma coisa que eu nunca tinha pensado: que em Portugal chama-se canção de intervenção e no Brasil chama-se de canção de protesto. Uma diferença que eu fui fuçar. Foi uma experiência rica: tive que estudar, pesquisar sobre isso, ouvir muito as canções do 25 de Abril e realizei melhor o quanto as canções moldaram o 25 de Abril, o quanto aquilo não é uma trilha [sonora] do movimento, aquilo é acção, é realmente intervenção. Fiquei tão feliz! Nunca tinha pensado sobre isso. E aí pensei sobre o meu disco, Margem, que mais do que um disco de contestação é um disco de constatação da situação dos oceanos.

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