José Mário Branco: "Ainda é só inquietação, inquietação"

Gastámos uma tarde a tentar perceber por que razão ele não volta aos discos em nome próprio. E não ficámos convencidos.
José Mário Branco
Arlindo Camacho
Por João Pedro Oliveira |
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A comemoração dos 50 anos de carreira já valeu um álbum de inéditos, a reedição integral da sua discografia e uma nova colectânea. Aqui, pouco se fala disso. Nesta tarde em sua casa, fala-se de música e política, porque uma sempre levou à outra. Fala-se do fado que não mais foi o mesmo, depois que o músico que lhe tinha aversão se apaixonou por uma mulher apaixonada pela canção. Fala-se de um mundo que não se recomenda e que o deixa sem saber o que dizer, mesmo que não se cale quando começa a falar disso. Fala-se sobretudo da inquietação que não passa. Eis José Mário Branco, 76 anos, do Porto, muito mais vivo que morto. Contai com isto dele, para cantar e para o resto.

José Mário Branco, 76 anos, do Porto, muito mais vivo do que morto…
Precisamente. Freguesia de Santo ildefonso, Ordem da Trindade, atrás da Câmara Municipal. Número 4, segundo andar. Nascido em 1942, Maio, mês das flores.

Comemorar 50 anos de carreira. Se tivesse que adivinhar, diria que tiveram de o convencer...
O motivo passa-me completamente ao lado, confesso. Havia um tipo que tinha um grupo em Oeiras… como é que ele se chamava?... Bem, um grupo de teatro semi-profissional lá no auditório em Oeiras. De repente telefonava-me e dizia: “ó Zé Mário, no dia tal, gostava de fazer aqui uma homenagem a propósito dos 17 anos e seis meses da publicação da tua música tal. Depois telefonava ao Carlos Paulo a convidar para uma homenagem dos 23 anos de carreira. Fazia isso com actores, músicos, etc. É um bocado isto.

Arbitrário?
É. Parece o bingo.

Não deixa de ser um número. Começamos a contar a partir de onde, qual é o momento inaugural?
Não sei… onde é que as coisas começam?... Depende do critério. Para estes 50 foi a edição do primeiro EP. Que na verdade foi gravado em 1967 e editado em 1968. E isso foi enquanto cantautor, que enquanto arranjador já tinha ido para estúdio com o James Ollivier, fazer arranjos e dirigir. No estúdio Davout, em Paris, que era o mais caro que havia. E eu estava cheio de medo! Agarrei no telefone e comecei a ligar a pessoas que conhecia. Quem é o melhor percussionista que anda aí? Fulano de tal. Pimba. Quem é o melhor pianista que anda aí? Melhor baixista, melhor flautista. Quero esses. E então aparecem-me cinco tubarões de estúdio. Os franceses usavam mesmo essa expressão, les requins de studio, gajos muito bons, muito eficazes, com música por todos os lados. Fiz uma grande amizade com um deles,o Michel Delaporte, percussionista, grande músico que depois haveria de entrar nos meus discos e nos discos do Zeca. O Michel Delaporte, percussionista, que eu caí na asneira de pôr a tocar bateria. Um gajo que sabe tudo o que são percussões e que estava furioso de eu o pôr a fazer de baterista. Passou o tempo todo com umas trombas do caraças, aos gritos, “vamos lá a despachar esta merda!”

A voz que se ouve na abertura do Cantigas do Maio, do José Afonso...
Esse. Sempre a mandar vir. Na abertura do disco do Zeca, aquilo é ele “un, deux trois, un deux, trois, un deux, trois…”

Depois ouve-se alguém a reclamar “ó Zé Mário, não se ouve nada!”
(Riso) Isso é o Bóris (Carlos Correia), o guitarrista do Zeca. Estava numa casota, isolado com uma guitarra. Nessa cena aliás só estão esses dois músicos. O Bóris na casota com a guitarra, com um acompanhamento concebido por ele e trazido já de Portugal… tába, tari / tába, tari / tába, tari… e cá fora o Michel, como ele estava sempre, com um estaminé no chão à volta dele. Aqui a tocar as tablas indianas. Essa é a cena do começo…

Aquilo soa a uma coisa prestes a correr mal…
Pois. Para aí à terceira tentativa, ou quarta… o Bóris estava com problema na munição, não ouvia bem. O Michel, já chateado, diz aquilo. E nós pensámos: isto é do caraças para começar o álbum! Isto é uma reportagem! Para as pessoas que ouvem o disco perceberem que isto são seres humanos a fazer música, que tentam, que se enganam, que conseguem. Foi aí que comecei a ter aquela noção de que falo sempre, de encenação sonora, de sonoplastia específica para as canções. Não são arranjos, não são orquestrações. São encenações mesmo.

 

Desde o início que essa ideia está muito presente nos seus discos também.
Logo no meu primeiro disco (Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades), que foi gravado uns meses antes (1971). Aquela coisa da “Gare de Austerlitz”, os emigrantes a chegar. O Sud Express chegava ali, àquela estação, cheio de emigrantes portugueses, e espanhóis também. É uma cena do carago, a gravação dessa coisa. Eu tinha aquele tema a que chamei Austerlitz, só com o acordeão meio parisiense, meio nostálgico. Um tema musical. Ainda por cima um bocadinho estranho harmonicamente… dá ali umas voltas. E eu pensei que o que ficava ali bem era o som dos emigrantes a chegarem. Era um sítio muito forte no meu exílio, a estação de comboios onde as pessoas chegava e se iam embora. Quando a família ia a Paris, os amigos, o próprio Zeca, etc, era ali que eles iam apanhar o comboio para voltar a Portugal. E eu não. Eu ficava no cais a dizer adeus.

Ao Sud Express
Exacto. Então o Gilles (Gilles Sallé, engenheiro de som) arranjou um bom gravador e lá fomos a Austerlitz... Um Uher (gravador de fita) igual ao que o Giacometti tinha usado quando veio para cá em 1959. E eu queria os elementos todos da coisa. O som da estação cheio de gente, o som da voz do chefe da estação a anunciar a entrada do comboio: “Entre en gare le train numéro não sei quê” - e depois a dizer o nome de todas as estações principais por onde o comboio tinha passado - "Lisbonne, Madrid, Hendaye, Bordeaux, etc por aí afora". Queria o chiar das rodas a travarem. O meu primeiro emprego, aos 17 anos anos, foi na rádio, no Porto. Eu sempre tive muita influência desse lado sonoplástico, da rádio. Decidimos gravar aquilo por partes e depois misturar em estúdio. Só que a voz do chefe da estação nunca se conseguia ouvir. Então lá fomos à rasca ter com ele, explicámos tudo… um gajo porreiro… aliás depois fui lhe lá levar um disco. Explicámos para o que era e ele responde: “não há problema nenhum! Olhe, o último comboio chega às onze e quarenta e tal da noite, a estação oficialmente fecha a essa hora. Vocês vêm cá a essa hora, eu faço o anúncio e você grava a minha voz. Foi tipo cinema, estás a ver. A estação fechada, só nós e o ferroviário no microfone, e o Gil a procurar o melhor sítio para captar, dizia: “ó senhor fulano, vá falando para eu ver onde é que a coisa se capta melhor”. E o gajo começou a falar, a dizer parvoíces ao microfone, então anunciava comboios que vinham da República Centro Africana, de Nova Iorque, coisas só para irmos experimentando… nisto começam-se a ouvir sirenes da polícia, ti, tó, ti, tó… estamos três anos depois do Maio de 68, é preciso ter em conta. E vemos chegar para aí dez carrinhas da polícia de choque, a dirigirem-se às grades da estação. O chefe daqueles polícias a perguntar “mas o que se está a passar aqui?! Mas mesmo bruto! “Abra as portas!” O chefe da estação mantém a calma, “diga lá, qual é o problema?”. Diz o polícia: “Então, ouvimos dizer que uns malucos tinham tomado conta da estação e estavam a anunciar comboios vindos de toda a parte”. Desatámos à gargalhada, o gajo com os olhos de fora, “mas o que é que se estão rir?!”. O chefe lá lhe pediu que mantivesse a calma e explicou o que se passava. Resumo: foi um um vizinho que pensou que uns gandulos tinham assaltado a estação. Portanto, a história desse som no meu disco é muito mais engraçada do que o som no meu disco (risos).

 



Lançou um álbum de inéditos recentemente. Porquê ir ao baú agora?
O projecto de um disco com coisas ou que nunca foram publicadas ou que ficaram desaparecidas depois da passagem ao digital, já vem da segunda metade dos anos 90. Mas havia uma certa dificuldade, e não só em termos de escolha…

Dificuldade técnica.
Sim, dificuldades técnicas. Ou tecnológicas, melhor dizendo. Isso tornou-se possível a partir do momento em que uma equipa da Universidade Nova começou a interessar-se pelo meu trabalho, a estudar aquilo, digamos, com rigor académico. Eles sabem coisas sobre mim que nem eu sei. “Fizeste isto e não sei quê…” Ai fiz?! (riso) Interessam-se muito pelo aspecto das condições técnicas da produção da música, as influências da tecnologia na própria produção musical. Havia um caixote enorme, cheio de fitas e gravações num armazém. Algumas coisas já do tempo do digital, mas em suportes que já não se usam. Há fitas que nem se sabe o que está lá, não tem nada escrito, nenhuma indicação, é preciso escavar…

Está a assistir à arqueologia da sua própria música.
Sim. E também a uma arqueologia da tecnologia, coisa que também lhes interessa. Por exemplo, para este disco de inéditos, eles conseguiram uma coisa espantosa. Eu tinha uma peça instrumental que me foi encomendada em 1987 e que foi tocada uma vez ao vivo em Janeiro de 88 e nunca mais. Uma peça para piano, guitarra, contrabaixo e flauta que ao todo tem 12 minutos e meio, 300 e tal compassos. Assim como há software de reconhecimento de texto, isso é possível com a música. Sacaram aquilo, recuperaram-me a partitura inteira..

 

 

No que é que está a trabalhar agora? Imaginava-me a chegar a sua casa e ver uma fila de gente à porta, a tirar senha para trabalhar consigo.
(Riso) Não é isso, mas… há muito pedidos.

Continua a poder escolher.
Oh pá, eu tenho uma sorte!... a música uma amante que arranjei e que me começou a sustentar. E eu tive a sabedoria de nunca me deixar ficar dependente dela. Ou melhor, eu dependo dela, claro. Mas com ela nunca precisei de fazer alguma coisa que me desagradasse para pagar a casa ou pagar o carro ou o que fosse. É uma relação de paixão, por isso falo em amantes. Não é um casamento, um matrimónio carimbado aí num notariado qualquer. A gente encontra-se quando é para ser bom.

E trabalhar alguma coisa para a sua voz?
Ultimamente não. Parei de ir para palco cantar… enfim, não parei, eu suspendi.

O último concerto sozinho será o Mudar de Vida, em 2008. Houve o Três cantos com o Sérgio Godinho e o Fausto em 2009…
Comecei a sentir-me mal, pá.

Fisicamente?
Não, de cabeça mesmo. Aconteceu alguma coisa que me zangasse, que me ferisse? Não, nada, pelo contrário, tudo porreiro, as salas sempre cheias, a adorarem as canções. Mas eram as canções do costume. Eram isqueiros e telemóveis, todos a contarem as canções comigo, depois iam para casa todos contentes. E eu comecei a sentir-me mal no meio daquilo.

Era um casamento já?
Não é isso. É a puta da nostalgia, pá! Isso aconteceu-me agora em Setúbal, numa apresentação dos Inéditos que fui lá fazer, na Casa da Cultura. Casa cheia de gente. E começaram aquilo com um rapaz que eu até já conhecia há uns tempos - rapaz, quer dizer, uns 50 anos - a cantar coisas do Zeca, a "Pedra Filosofal" do Manuel Freire e o "Eu vim de Longe" do Zé Mário Branco. E o pessoal todo "ah! Que bonito!" E eu a seguir comecei a falar disso. "Mas que raio de nostalgia é esta? Estamos derrotados ou que merda é esta? Não temos nada que fazer? O mundo está porreiro? Está tudo bem nas vossas vidas? Na minha não!"

Ninguém lhe devolveu a pergunta?
Como assim?!

Então porque é que não compõe alguma coisa nova sobre este tempo novo, para cantarmos agora?
Ouve uma coisa: foi este estado de espírito que me levou a sentir-me mal em palco. (começa a trautear “Queixa das Almas Jovens Censuradas”) “Dão-nos um lírio e um canivete”... tá bem, já sei! E depois? Como é que está o mundo hoje? E é isso que eu não sei, percebes? Claro que tem aspectos que a gente conhece. Uma certa fascização mundial que está a acontecer, coisas parecidas com as décadas de 20 e 30 do século passado. Mas não é a mesma coisa pá!  

 

 

Mas ainda há dez anos subiu para palco, apresentou o Mudar de Vida, uma coisa em três partes, extensa, em que diz “Mudar de vida é uma coisa que ainda não está resolvida”. Pergunto: porque é que isto não está em disco e não rodou em mais palcos?
Bom, aquilo é uma coisa… sim, claro, é preciso mudar de vida, mas isso está dito. O que faz falta é dar pistas para qualquer coisa. É preciso pensar como está o mundo, a nossa comunidade. Eu podia pensar assim: ó Zé Mário, se não sabes o que dizer faz uma canção precisamente sobre isso (começa a trautear de improviso) “Eu não sei o que hei-de dizer, lá, lá, lá… “ E voltava para o palco. Mas isso não é um olhar sobre o mundo pá! Percebes? Isto está a ficar horrível. A gente não perdeu os valores essenciais, muito gerais, da justiça, da liberdade, do amor e não sei quê. Mas como é que se faz?

Mas já fez. Já pensou, já compôs, já disse. Sente o quê, que perdeu a voz?
Perdi a voz, sim, de certa maneira.

Insisto: em 2008, pôs qualquer coisa cá fora, compôs, levou a palco…
E fui pondo sempre cá fora. A minha obra, como sabes, é extremamente autobiográfica. Mas agora não está a acontecer nada excepto este vazio. (Trauteia) “Olhem só para este vazio, que difícil que é viver, lá, lá, lá…” É só masturbação, percebes? Não me faz muito sentido. Faz-me mais sentido a tal fila à porta, de gente a querer que eu produza. Posso fazer uma certa sementeira, perceber como os mais novos que vêm trabalhar comigo podem ganhar qualidade, ganhar força. Não só o disco ser melhor, é a pessoa crescer. Pronto, isso é um trabalho mais de professor.

Produziu recentemente o novo álbum de Kátia Guerreiro. Como foi esse encontro?Foi surpreendentemente espantoso.

Surpreendente em quê?
Começou muito mal. Ou se calhar muito bem, com cada um a dizer exactamente o que sentia, o que pensava. Houve dois telefonemas longos e um bocado à bruta. Mas depois é incrível, porque eu gostei imenso de trabalhar com ela. Eu e a Manuela (a actriz e letrista Manuela de Freitas, sua mulher). É uma das pessoas mais bonitas que eu conheci na minha vida. Isto dito assim, numa entrevista, pode parecer um bocado esquisito, não é? Uma amiga do Cavaco…

Estava a tentar não rir.
Pois… aliás, a gente brinca com isso. Ela tem duas coisas fundamentais. A primeira é uma capacidade de infância. Infância no duplo sentido de disponibilidade. Ela veio para o trabalho desarmada. E o outro sentido que é o de brincar a sério. “E agora eu era uma fadista e ia cantar o fado”. Estás a perceber? Mas isso é feito a sério e é bom. Não há qualquer peso em cima dos ombros. A capacidade de brincar. Depois, além da infância, outro aspecto que é fundamental: o rigor. Foi o caso da minha vida toda em que se sentia de ensaio para ensaio que o artista ia para casa trabalhar muito. De um ensaio para o seguinte, eu percebia que ela tinha ido trabalhar para casa, que tinha assimilado. É esta noção de rigor no trabalho que eu adoro.

O que é que sente que trouxe ao fado?
Desde logo, ponho rigor e exigência em tudo o que faço. Há pessoas que não têm estaleca para este tipo de exigência. Se a gente se mete a fazer uma coisa destas tem de ser bom. E o que é que significa ser bom? Ser verdade. O que eu disse da Kátia: dar o que se tem para dar. Podemos ter pouco para oferecer, só uma florzinha do campo, uma coisa singela. Tem é de ser verdade. É o “Fado da Tristeza”, que eu pus no Ser Solidário em 1981. “Não cantes alegrias a fingir / se alguma dor existir”... e depois: “canta com aquilo que és / canta da cabeça aos pés / só podes dar o que é teu”. É isto.

 

 

Esse é o seu primeiro fado.
Exactamente. O meu primeiro fado. Para chatear os camaradas.

Para chatear?
É. Mas não assim no sentido prosaico que a frase parece indicar. Sou de uma geração que cresceu contra o fado. Nós éramos muito influenciados pelo Lopes Graça, contra uma visão do fado como a grande canção nacional, que era apanágio do regime fascista. Atenção: a primeira coisa que o António Ferro e os seus colaboradores fizeram foi acabar com o fado social do princípio do século, o fado de crítica social, de protesto, proletário, digamos assim. O fado passou a ser a impotência perante o destino, a inferioridade da mulher perante o homem, tudo está na mão de deus, portanto deixa estar que está bem. O Salazar, aliás, diz isso num discurso seu, uma frase espantosa já não me lembro onde foi. "Tudo está bem assim e não pode ser de outra maneira". O fado foi um instrumento para isto, para esta papa cinzenta social em que eu nasci e cresci. No primeiro semestre de 74 estava em Paris a trabalhar com um jovem cineasta francês a fazer um disco contra o Fado. Chateava-me pá.

O que é que o fez mudar de opinião?
Manuela de Freitas. Um grande amor.

Isso merece um fado.
Oh, já mereceu tantos! (Riso) De repente ela, muito conhecedora do verdadeiro mundo do fado que já não existe muito, levou-me pelas casas de fado onde se ia a altas horas , com mesas de toalhas aos quadradinhos, vinho tinto, pão de trigo, guardanapos de papel onde se escreviam bocados de letras. Isto a Manuela conhecia bem. E começou a explicar que não era bem assim. Que o fado desde logo é como tudo o resto: há o bom, o mau, o assim-assim, a maior parte se calhar é mesmo assim-assim, uma parte considerável é o mau e depois há umas coisas muita boas. “Ora anda cá ouvir”. Pronto, é uma golfada de bom senso. E isto porquê? Ela é actriz. E uma pessoa depois percebe que aquilo tem muito mais a ver com o teatro do que com a música.

Explique-me.
É uma coisa de presença. Para mim é a coisa que mais me seduz no fado é o desplante. “E agora, vou cantar o fado do esticadinho”... peito para a frente, “toca aí ó Xico, em sol”. “Ora oiçam lá”. É este desplante que faz o fado. E isto não muda quando começam a cantar poetas a sério, David Mourão Ferreira, Camões, Vasco de Lima Couto. Isto não muda. Ou seja, se muda é uma merda. Que é o que a gente ouve aí a toda a hora, agora que o fado é património e grande negócio, é só tralha por todos os lados. Estarem lá ou estarem a serrar presunto é a mesma coisa. Não acontece nada.

Voltemos atrás. Os camaradas…
Tens razão, fugi (riso). Havia aquela coisa, em pleno PREC, de me dizerem que a “Queixa das Almas Jovens Censuradas” era uma cantiga derrotista. “Isso é pequeno-burguês, pouco revolucionário pá! Já o camarada Lenine dizia que só a alegria é revolucionária”. E pensei, espera aí…  (começa novamente a trautear o “Fado da Tristeza”) “Não cantes alegria a fingir / se alguma dor existir / a roer dentro da toca…” Ai é? Só a alegria é que é revolucionária? Então pega lá o “Fado da Tristeza”. Aí já há o dedinho da Manuela Freitas, mesmo nessa letra. E eu sempre gostei de esgrimir com os clichés das músicas típicas - fado, marcha popular, a chula, o corridinho, o vira. Perceber quais são as regras da coisa e depois esgrimir com o cliché para ver se faço uma coisa suficientemente fora e para cima em relação ao interesse melódico, ao uso das palavras, etc. Para ver se quem está dentro do cliché começa a ouvir e a gostar de umas coisas melhores

Sente que fez isso com o fado?
Completamente.

O Camané foi o projecto que lhe permitiu fazer isso?
Sim. Trabalho com ele há 20 anos. A coisa deu-se também pelo grande talento que ele tem. Quando a gente o ouve parece que é fácil. É como o Sinatra. Parece que é fácil porque foram eles que inventaram! Um copo de whiskey, um cigarro, encostado ao piano… como é que se canta? Canta-se assim. Sinto o mesmo com o Carlos do Carmo. A malta que inventou a coisa. Parece fácil, mas é mentira. É difícil, muito difícil.

 



Qual foi o maior dificuldade em esgrimir com o fado? A sua maior batalha para elevar o cliché?
Espaço para a voz. Ainda hoje, pá. Já se nota a pegada desse trabalho, admito. Mas a maior parte das vezes é uma barulheira. Nem se consegue ouvir o desgraçado ou a desgraçada debaixo de guitarras e violas, às vezes violinos e tudo mais. A Ana Moura, que tem imenso talento, ali a lutar com as escovas da bateria. Para quê?! Aquilo não é preciso para nada pá!   

A sua inquietação criativa hoje é a mesma?
É, claro.

Então continuo sem perceber. Se não tem dificuldade em perceber o que é importante para o mundo, o que tem de ser contrariado, o que é que está a travar novas canções?
Oh pá! Mas o que queres tu que eu cante João Pedro? Que cante que não sei o que cantar?! Experimenta lá.

A “Inquietação”, por exemplo, fala do quê?
Pois… a inquietação é o “e agora?”.

“Há sempre qualquer coisa que eu devia perceber”...
Está bem. Mas quase ao mesmo tempo eu fiz o “Eu Vim de Longe”, fiz o “Fado Penélope”, fiz éne aspectos da vida, do olhar sobre aquele tempo. Eu fiz o "FMI", desculpa lá! Eu agora não sei. Estou aqui a falar-te só de coisas pela negativa. Estamos sem futuro pá. Roubaram-nos o futuro. Não temos projecto. Ou melhor, temos mas é uma coisa muito vaga. Justiça, Liberdade, Igualdade, Amor… parece que estamos no tempo do Jesus da Nazaré. Se isto vale? Claro que vale, não há valores maiores que estes. Agora, como é que isto se põe na prática? Eu sei lá!

Até parece que o derrotaram.
Pela idade, por eu andar mais calado, por já não haver punho no ar e o carago, pensam que eu estou mais inofensivo. Sou mais perigoso do que em qualquer outro momento da minha vida! Porque agora não há aquele discurso panfletário, mas por dentro eu estou mais radicalizado do que nunca. Ou antes, mais realista. O que ainda não há são condições - para voltar à tua interpelação - de isto me sair sob forma de novas canções. Como é que eu digo no "FMI"? “Eles tratam, eles decidem tudo por ti, eles estudam os problemas. E estão neste momento a decidir o que vais fazer amanhã.” E tu pensas: “então mas eu sou só um joguete, não sou um ser humano, não sou autodeterminado, não penso e faço o que me apetece?” Sim, o que tu achas que te apetece. O sistema convence-te de que não há alternativa possível e não podes querer outra coisa, não porque é proibido, mas porque não há outra coisa. “Mas ó Zé Mário, você está para aí com essa conversa, diga-me lá então, como é que você quer organizar esta sociedade?” Não sei pá! Estou muito atrasado, ainda estou na fase do José Régio, só sei que não quero ir por aí. A minha geração aprendeu bastante bem o que não quer. Mas não sabemos o que queremos… Não fiques com essa cara pá … é lixado, mas é assim (riso).

Estava só a pensar como rebater isso... Falta-lhe então um projecto político para voltar a cantar?
Num sentido muito lato, sim. Já te disse que não sou político. Ainda não está lá o que quero dizer. Desde 2004 que não está lá. Agora… pode acontecer. Estou à procura, não estou recostado à espera que a Humanidade resolva o assunto. E agora perguntas tu: então e tens feito canções?

Tem?
Eh pá, não me sai nada... (sussurra) ainda é só inquietação, inquietação.

Conversa com música

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Fotografia: Arlindo Camacho
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António Zambujo: “Os discos são o reflexo daquilo que vivemos”

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Manuel Manso
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Márcia: "A música é o meu divã"

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