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Música, Pop, Ana Bacalhau
©Tomás MonteiroAna Bacalhau

Ana Bacalhau: “Tenho tanto para dar”

No segundo álbum a solo, Ana Bacalhau mostra várias facetas enquanto mulher e artista. Falámos com ela.

Escrito por
Ana Patrícia Silva
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É impossível falar com Ana Bacalhau sem ficar com um sorriso nos lábios. Quem a vê em cima de um palco, toda lampeira, de mão na anca e cabeça erguida, não adivinha os vultos de vulnerabilidade que agora canta no novo disco a solo, Além da Curta Imaginação. Com o tempo, conseguiu descolar-se do universo Deolinda e mostrar que dentro dela há muito que merece ser ouvido. São canções que a fazem amar e dançar, que lhe lavam a alma e limpam os filtros. “Eu tenho uma facilidade enorme de me exprimir através da música”, conta. “Fora do palco, sou o contrário. É tudo para dentro, não consigo dizer a maior parte das coisas que tenho para dizer no momento certo e com as palavras certas. Atrapalho-me toda, gaguejo.”

É disso que fala “Não é Nada”, uma das duas letras que aqui assina. A outra, Que Me Interessa a Mim”, é uma canção sobre as expectativas que os outros põem em cima de nós. Ao longo do disco, surgem várias mensagens de auto-aceitação, de não querer deixar a sua validação nas mãos dos outros. “Isso é Que Era Bom”, da autoria de Jorge Cruz, é inspirada no bullying que sofreu quando era pequena. “É muito difícil lidar com isso. Muda um bocadinho quem se é, deixa marcas. Eu fiquei mais fechada, passei a ser um bicho-do-mato. Mas nessa altura eu ia para casa e acabava o bullying. Agora não, com o computador ou o telemóvel ainda é pior, é mais complicado gerir.” Aquilo que a preocupava quando era pequena, preocupa-a ainda mais agora com a sua filha. “Não quero que ela me sinta ansiosa, mas estou vigilante a alguns sinais porque passei por eles. Vou dar-lhe ferramentas e a minha opinião de como deverá reagir para desencorajar o outro – no meu caso, eles percebiam o que eu sentia e nunca mais largaram o osso.”

Hoje em dia também não é fácil lidar com o escrutínio nas redes sociais. “Já lidei muito mal com isso, houve alturas em que me arrasou. Agora lido um pouco melhor, mas nunca se lida completamente bem. Quem disser que isto lhe passa ao lado, está a enganar-se a si próprio. Sentimos sempre. Temos é de aprender a ter algumas armas cá dentro para encaixar isso da melhor forma possível. A forma de estar nas redes é muito rápida, muito leviana, muito à superfície. Tento escudar-me e não mudar a minha forma de estar. Mas parece que continuamos no recreio da escola...”

O avançar dos anos traz-lhe alguma tranquilidade, mas também novas preocupações – numa indústria musical que não é propriamente simpática para as mulheres, sobretudo a partir de uma certa idade. “Eu falo com outras colegas e todas sentimos o mesmo. A partir dos 50 anos, é muito rarefeito o universo feminino nos media mainstream. Há muitas mulheres a trabalhar, mas são poucas as que têm essa visibilidade. Isso preocupa-me porque estou quase a fazer 43 e sinto que estou na melhor fase como intérprete, como performer. Tenho tanta coisa para dar... Estou mais madura, consigo dizer mais coisas acerca de mim, consigo ligar-me melhor aos outros, estou mesmo em pico de forma. E agora que tenho tanto para dar, não quero que me fechem, que me calem, que me comece a tornar invisível só porque envelheço. A minha geração está a tentar estilhaçar os telhados de vidro para continuarmos com o nosso trabalho, para sermos visíveis e termos voz.”

O valor de uma mulher continua a estar centrado na sua beleza. Uma mulher, em cima de um palco, é vista como um adorno. “Se um homem for para cima do palco com umas calças rasgadas e sujas, com o cabelo oleoso, é óptimo, é rebelde. Se for uma mulher... é um escândalo. A forma como eu canto não tem nada a ver com o meu peso, a minha cara, o meu corpo. Eu canto da mesma maneira, tendo mais ou menos rugas. Quer dizer, com mais rugas até canto melhor! [risos] Porque há uma maturidade. Temos de ir provando que somos cada vez mais interessantes.” Também por causa disso, é importante que as mulheres cantem mais músicas escritas por mulheres. Neste disco, além da própria Ana Bacalhau, há letras de Francisca Cortesão, Mafalda Veiga e Tainá. “É muito importante esta questão da sororidade, da irmandade, de nos apoiarmos umas às outras, de nos puxarmos umas às outras para cima, para estarmos todas bem. A minha formação foi feita a partir do trabalho de muitas mulheres. Eu ouço-as, aprendo com elas, portanto eu quero muito cantá-las.”

O álbum conta ainda com autores como os D'Alva, Átoa ou Nuno Prata, e com Luís “Twins” Pereira, que produziu e tocou quase todos os instrumentos, ajudando a orientar um disco que nasceu de um desejo de fazer algo mais electrónico. Ao procurar um produtor que pudesse movimentar-se num registo electrónico, mas que também estivesse à vontade com instrumentos, Ana encontrou-o em Twins, que conhecia de trabalhos com os Átoa, Fernando Daniel, Dengaz e Murta. As primeiras canções começaram a nascer em Janeiro de 2020, até que o mundo parou. “Caiu tudo a toda a gente. Foi um choque muito grande. Isso mudou-me e mudou um pouco o disco. Um disco que começou com uma ideia bastante electrónica, foi-se despindo à medida que fomos trabalhando. Nota-se na progressiva construção das canções, dos arranjos e da minha interpretação.”

O pior já parece ter passado e o melhor vem agora. No dia 12 de Novembro, Ana Bacalhau leva este disco ao palco do Capitólio, em Lisboa, num espectáculo também visual, com as ilustrações de Mariana a Miserável. E está com ganas de o tocar ao vivo, com uma “bandona maravilhosa” – “tenho a Eugénia Contente na guitarra eléctrica, já não sou a única miúda na estrada! Ela é espectacular e toca que se desunha”. Depois de um período tão proibitivo, cada concerto é como se fosse o primeiro. “Hoje é o primeiro concerto do resto da tua vida...”, desata a cantar, embalada na melodia de Sérgio Godinho, antes de brincar, entre gargalhadas: “Estamos prontos para mandar o Capitólio abaixo. Desculpem-me as pessoas que vão tocar a seguir no Capitólio, mas vão tocar no meio de escombros. A minha intenção é mandar aquilo abaixo!”.

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Conversa afinada

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Camané avisa que costuma dispersar-se. Fala de grandes tradições e de pequenas revoluções, de como o cânone apenas se muda por dentro, com pinças, e do que uma canção precisa afinal para se poder dizer fado. Fala de encontros, de ontem e de hoje, do quanto o fascina a maneira que as coisas têm de lhe acontecer na vida, de passar dos 50, de perder amigos e fazer-se pai. Fala, enfim, de como isto anda tudo ligado, se quisermos parafrasear Sérgio Godinho, que é apenas um entre uma dúzia de compositores que o rodeiam no novo disco.

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Opus musical, literário e cinematográfico, 20.000 Éguas Submarinas é um mergulho no imaginário imenso de Rui Reininho, nas suas inquietações e deslumbramentos – e nas suas lutas. É um álbum como nenhum outro em que o tenhamos ouvido. Sentámos com o cantor numa mesa de Lisboa para falar do mar, de vibrações, viagens ao Nepal e, claro, também dos GNR. Uma conversa aberta em que até se desvenda a origem copiada de uns dos versos memoráveis de “Pronúncia do Norte”.

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