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Bandas de grunge: uma história em 10 canções

Em Seattle, os adolescentes fecharam-se nas caves e garagens e juntaram-se em bandas de grunge

Nirvana
© Steve Double
Por José Carlos Fernandes |
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Época e local: Seattle, estado de Washington, EUA, finais dos anos 80 até meados dos anos 90

Origem do nome: “Grunge” significa “sujidade, imundície, sebentice”. Consta que foi Mark Arm, que viria a ser vocalista dos Green River e dos Mudhoney, o primeiro a empregar a palavra em contexto musical, em 1981, quando dava os primeiros passos na cena rock de Seattle. O termo colou-se aos Green River e outras bandas afins activas em Seattle no final dos anos 80, mas manteve-se em circulação local durante anos, até o sucesso de Nevermind, dos Nirvana, lhe ter dado curso planetário. O termo tem, à primeira vista, um cunho depreciativo, mas como as bandas de grunge pioneiras se afirmavam em contraposição ao rock polido e tecnicamente imaculado, à música fabricada em série, aos valores burgueses e à sociedade de consumo e comungavam do espírito punk, não é de estranhar a identificação com uma palavra evocativa de desleixo, desordem e desalinhamento. Isto não quer dizer que todas as bandas catalogadas como grunge aceitassem tal designação: por um lado porque, na verdade, o termo é vago e acabou por ser aplicado a bandas com sonoridades muito diversas, por outro porque tendo muitas dessas bandas um posicionamento anti-sistema tenderiam, quanto mais não fosse por pirraça, a rejeitar o rótulo empregue pelos media do sistema para os arrolar colectivamente.

Como é usual no mundo do pop-rock o termo inglês acabou por impor-se a nível global e em Portugal não foi excepção, embora seja legítimo pensar que se as luminárias da Academia das Ciências de Lisboa, acaso estivessem atentos à cultura juvenil, poderiam ter sugerido “bedum” como equivalente português.

Código de vestuário: Embora o grunge tenha herdado algumas das atitudes do punk (o Do It Yourself, a oposição ao sistema), o código de vestuário é muito diferente: em vez da busca deliberada de bizarria e confrontação do punk, o grunge escolheu ser o mais banal e displicente possível, recorrendo a peças baratas, surradas e amarrotadas (o recurso a items comprados em lojas de segunda mão é incentivado), combinadas a esmo, com absoluto desprezo por critérios cromáticos.

A floresta é uma das bases da actividade económica no estado de Washington, o que explica a presença de elementos do guarda-roupa dos lenhadores, com particular destaque para as camisas de flanela aos quadrados. Como a costa de região dos EUA conhecida como Pacífico Noroeste beneficia de um clima sob pronunciada influência marítima, com Verão ameno e húmido, os calções (largueirões) são populares (mesmo que possam parecer incongruentes quando combinados com camisas grossas de flanela e espessas sweatshirts de lenhador) e as calças de ganga devem ser ventiladas através de numerosos rasgões. Mesmo quando o calor aperta, as camisas de flanela continuam a ser imprescindíveis: atam-se à cintura e fazem a vez de kilts. As T-shirts devem ostentar os nomes de bandas ignotas, slogans anti-sistema ou frases desconcertantes e irreverentes que denunciem o absurdo das convenções sociais e da existência e podem ser vestidas umas sobre as outras (três ou quatro é perfeitamente aceitável). Nos pés, botas de lenhador e Doc Martens, que, para reforçar o aspecto de desmazelo, podem ter os atacadores soltos. Toda a roupa deverá ter vários números a mais (é normal que as camisas de flanela desçam até meio da coxa).

O que é irónico é que o tão detestado sistema conseguiu – como sempre – aproveitar-se da rebeldia do grunge: as marcas de luxo Marc Jacobs, Calvin Klein, Armani, Dolce & Gabbana e Versace não tardaram a promover o grunge chic, com réplicas em materiais requintados e dispendiosos das peças compradas por dois chavos nas lojas de segunda mão de Seattle, e o mundo da moda viu surgirem calças de ganga cientificamente surradas e artisticamente rasgadas. Hoje, a tendência grunge chic não esmoreceu completamente, mesmo que já não use um rótulo associado a um género musical fora de voga, e há poucos meses a Nordstrom pôs à venda uns jeans pré-enlameados (fabricados em Portugal) por 425 dólares, para quem não tenha tempo nem disposição para se sujar por si mesmo. Resta saber que parte do preço corresponde ao algodão e que parte corresponde a imundície e se esta última é lama DOP portuguesa ou vem do Pacífico Noroeste.

Cabelo: comprido, desgrenhado e pouco limpo. Os cabelos compridos, associados ao head banging violento, ajudam à dinâmica de palco das bandas e reforçam visualmente a energia da música. Nas partes calmas, o cabelo ajuda, como no shoegaze, a evitar contacto visual com o púbico, pois os rapazes do grunge, mesmo quando exuberantes em palco, são, lá no fundo, sensíveis e ensimesmados. São aceitáveis bonés de baseball desbotados e esfiapados e gorros de lenhador, que deverão ser descartados logo que comece o head banging.

Bandas de grunge: uma história em 10 canções

“This Town”, dos Green River

Ano: 1986

Faltavam ainda alguns anos para a explosão do grunge, mas parte da fórmula musical e dos seus protagonistas já estavam presentes nos Green River, formados em 1984. Este registo tem imagem e som de péssima qualidade, mas é um documento raro da pré-história do grunge. A receita juntava a fúria e frontalidade do punk com os riffs do heavy metal e distorção maciça e a banda era formada (da esquerda para a direita) pelo guitarrista Bruce Fairweather (quase invisível), pelo baixista Jeff Ament (futuro Pearl Jam), pelo vocalista Mark Arm (futuro Mudhoney), pelo guitarrista Stone Gossard (futuro Pearl Jam) e pelo baterista Alex Vincent (quase invisível). “This Town” faria parte do segundo EP dos Green River, Dry As a Bone, editado em 1987 pela SubPop, editora independente de Seattle que se tornaria na grande promotora das bandas do Pacífico Noroeste e do grunge. Os Green River só lançaram um álbum, Rehab Doll, em 1988, e dissolveram-se nesse mesmo ano.

[Ao vivo em Seattle, 1986]

“Hunger Strike”, dos Temple of the Dog

Ano: 1991

Em 1988, três ex-Green River – Jeff Ament, Stone Gossard e Bruce Fairweather – juntaram-se ao vocalista Andrew Wood e ao baterista Greg Gilmore, nos Mother Love Bone, que também teriam carreira breve, devido à morte por overdose de Wood em 1990, poucos dias antes do lançamento do seu único álbum, Apple. Chris Cornell (dos Soundgarden), que fora colega de quarto de Wood, formou uma banda para lhe prestar homenagem, com Ament, Gossard e o guitarrista Mike McCready (outro futuro Pearl Jam) e Matt Cameron, baterista dos Soundgarden: nasciam os Temple of the Dog, que lançaram um único álbum, homónimo, em 1991 (A&M). Algumas faixas – como “Hunger Strike” – contaram com um cantor que tinha acabado de chegar a Seattle, vindo da Califórnia, para se juntar à banda que Ament e Gossard estavam a tentar formar: chamava-se Eddie Vedder.

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“Even Flow” dos Pearl Jam

Ano: 1991

O álbum dos Temple of the Dog foi lançado em Abril de 1991 e quatro meses depois surgia Ten (Epic), o álbum de estreia dos Pearl Jam – Vedder, Gossard, McCready, Ament e o baterista Dave Kreuse – uma mistura altamente combustível à base de riffs de hard rock e de letras intimistas e torturadas sobre o lado mais sombrio da vida, incendiada pela voz expressiva e dúctil de Vedder. A matéria musical não era exactamente nova, mas a sensação de locomotiva a caminho do abismo da maioria das canções causava arrepios na espinha. A princípio, as vendas de Ten não foram excepcionais, mas a longa tournée que a banda empreendeu – já com Dave Abbruzzese nas baquetas, pois os problemas de bebida de Kreuse revelaram-se insolúveis – e a histeria em torno do grunge e de qualquer banda que viesse de Seattle, decorrente do sucesso de Nevermind, dos Nirvana, foram fazendo o álbum subir imparavelmente no top de vendas, chegando a n.º 2 no final de 1992.

“Smells Like Teen Spirit”, dos Nirvana

Ano: 1991

É tempo de apanhar outro dos fios da narrativa: os Nirvana – dois rapazes de Aberdeen, Washington, Kurt Cobain (voz e guitarra), Krist Novoselic (baixo) e um baterista flutuante – existiam desde 1987 e já tinham lançado um álbum na Sub Pop, Bleach (1989), que fora gravado por Jack Endino (por apenas 606 dólares) e passara despercebido. Em Setembro de 1991, com Dave Grohl a substituir Chad Channing na bateria e a produção cuidada e hiper-musculada de Butch Vig, surgiu o álbum Nevermind. E, puxado pelo single “Smells Like Teen Spirit”, Nevermind subiu como um foguete nas tabelas de vendas até que – impensável – destronou Dangerous de Michael Jackson do n.º 1.

Mais uma vez, não há aqui nada de substancialmente novo no plano estritamente musical: “Smells Like Teen Spirit” reproduz a alternância entre estrofe calma, desanuviada e despojada e refrão vociferado, tenso e denso que era imagem de marca dos Pixies (Kurt Cobain admitiu numa entrevista a pilhagem aos Pixies), mas alguma coisa na canção tocou os adolescentes e tornou-se no “hino revolucionário de uma geração”. Cobain explicaria mais tarde que a canção troçava da ideia de fazer uma revolução e embora não faltem exegeses rebuscadas sobre o seu significado, é de crer que pouco mais haverá nela do que ironia. Cobain era suficientemente esperto e cínico para saber que a teen angst, a frustração, a revolta e a confusão do seu público nunca seriam capazes de operar uma revolução ou de mudar o mundo.

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“Touch Me, I’m Sick”, dos Mudhoney

Ano: 1988

Há que fazer um recuo cronológico para repescar outra figura central do grunge: após a dissolução dos Green River, Mark Arm formou os Mudhoney, que se estrearam em 1988 como single “Touch Me I’m Sick”, na Sub Pop, seguido pelo EP Superfuzz Bigmuff (1989), um título que junta os nomes de dois pedais de distorção emblemáticos do som grunge. Os álbuns Mudhoney (1989) e Every Good Boy Deserves Fudge (1991), que cultivam um som sujo, cru e rudimentar, alicerçado no punk e no garage rock, acabaram por ganhar fãs para lá das fronteiras do Pacífico Noroeste, com a ajuda do fenómeno Nirvana – sobretudo depois de, em 1993, Kurt Cobain ter listado Superfuzz Bigmuff entre os discos que mais o tinham influenciado. Acompanhando o aumento de popularidade, os Mudhoney saltaram da editora independente Sub Pop para a major Reprise, onde se estrearam com Piece of Cake (1992).

“Jesus Christ Pose”, dos Soundgarden

Ano: 1991

Mais um recuo no tempo para reencontrar Chris Cornell, vocalista e guitarrista dos Soundgarden, formados em Seattle em 1984 e que já tinham dois álbuns em crédito – Ultramega OK (1988) e Louder Than Love (1989) – quando Cornell montou o projecto Temple of the Dog. Mas foi só com Badmotorfinger, lançado no climáctico ano de 1991 e já com Ben Shepherd no lugar do baixista original, Hiro Yamamoto, que obteriam o merecido reconhecimento. Entre as grandes canções de Badmotorfinger estão “Rusty Cage”, “Outshined” e este tenso, impiedoso e alucinado “Jesus Christ Pose”. Os Soundgarden iriam ainda mais longe com Superunknown (1994) e Down on the Upside (1996), cuja abertura a influências pop e psicadélicas desiludiria alguns dos fãs do grunge mais puro e duro (para saber mais sobre os Soundgarden e Chris Cornell ver Chris Cornell: Uma vida em 12 canções).

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“Rooster”, dos Alice in Chains

Ano: 1992

Entre as bandas de Seattle, os Alice in Chains eram, com os Soundgarden, os mais impregnados da linguagem do metal, como atesta este “Rooster”, um dos hit singles do seu segundo álbum, Dirt. A banda existia desde 1987 e estreou-se com Facelift (1990), mas foi Dirt que lhe conferiu maior projecção.

As letras do vocalista e guitarrista Layne Staley tinham por temas recorrentes a depressão e a toxicodependência e não foi de todo inesperada sua morte por overdose em 2002. A letra de “Rooster” é do guitarrista Jerry Cantrell e assume o ponto de vista do pai como soldado na Guerra do Vietname.

“Dollar Bill”, dos Screaming Trees

Ano: 1992

Quando Sweet Oblivion, o álbum que contém “Dollar Bill”, saiu em 1992, os Screaming Trees, nascidos em Ellensburg, Washington, em 1985, já tinham atrás de si cinco álbuns – Clairvoyance (1986), Even If and Especially When (1987), Invisible Lantern (1988), Buzz Factory (1989) e Uncle Anesthesia (1991) – o que faz deles um dos pioneiros do grunge. A banda não se afastava muito dos moldes hard rock e tinha como principal valia a voz de Mark Lanegan, que construiria uma bem mais interessante carreira a solo (hoje com uma dezena de álbuns) e estabeleceria profícuas colaborações com músicos tão diversos quanto os Queens of the Stone Age e Isobel Campbell (dos Belle & Sebastian).

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“Creep”, dos Stone Temple Pilots

Ano: 1992

Os Stone Temple Pilots são a primeira banda nesta lista a não provir de Seattle e arredores: formaram-se em San Diego, Califórnia, em 1986 (inicialmente sob os nomes Swing e Mighty Joe Young), e estrearam-se com o álbum Core (1992, Atlantic), onde se inclui o single “Creep”. O seu som está, como o dos Alice in Chains, ancorado no metal e glam rock da década de 1970 e houve quem os acusasse de saltar para o comboio do grunge. É verdade que nunca foram vistos de camisas de flanela, calções XXL e botas de lenhador.

“Cherub Rock” de The Smashing Pumpkins

Ano: 1993

Outro salto na geografia até Chicago, para encontrar os Smashing Pumpkins, do vocalista e guitarrista Billy Corgan. O arrolamento dos Smashing Pumpkins no grunge é discutível: Corgan passou certamente boa parte da juventude a sacar riffs dos Black Sabbath e dos Deep Purple, mas a sua música também tem fortes influências de shoegaze e dream-pop e doses maciças de psicadelismo e imaginário sci-fi e a sua voz magoada e frágil nada tem a ver com o modelo viril, áspero e agressivo das restantes bandas grunge. A banda caracterizava-se por uma imponente massa de guitarras, impelida pela bateria avassaladora de Jimmy Chamberlin, e por solos de guitarra hiper-venenosos, saturados de efeitos.

O álbum de estreia, Gish (1991), passou (injustamente) despercebido, mas Siamese Dream (1992, Virgin), um álbum atestado de obras-primas, entre as quais está “Cherub Rock”, catapultou a banda para a linha da frente do grunge. A letra de “Cherub Rock” é um ácido comentário sobre a indústria musical e a sua máquina de fabricar êxitos e ídolos e dos difíceis compromissos que os artistas fazem entre autenticidade e retorno financeiro: “Who wants honey as long as there is some money?”.

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