Uma história do trip hop em 10 (+1) canções

A digressão de Ununiform traz novamente a Lisboa Tricky, uma das figuras cimeiras do trip hop, uma corrente musical nascida em Bristol que fazia a fusão de grooves derivados do hip hop com atmosferas de um onirismo sombrio
Tricky
©DR Tricky
Por José Carlos Fernandes |
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Época e local: surgiu nos primeiros anos da década de 1990, em Bristol, alastrou vertiginosamente, atingiu o seu cume de popularidade em 1996 e declinou rapidamente no início do novo século.

Origem do nome: a partir de “hip hop” e “trip”, no sentido de viagem mental alimentada por substâncias psicotrópicas. Primeira ocorrência registada em 1994. Sinónimos: “downtempo”, “Bristol sound”.

Se a associação do grunge a Seattle não reflectia a dispersão geográfica das bandas que o praticavam, os primeiros anos do trip hop tiveram o seu epicentro claramente localizado em Bristol, antes de o género ganhar cultores no resto da Inglaterra e de atravessar o Canal da Mancha (com os belgas Hooverphonic) e o Atlântico (com o primeiro disco das Cibo Matto, um duo de japonesas radicadas em Nova Iorque).

Uma prova de que a designação trip hop está longe de ser pacífica é o facto de a banda tida como fundadora do género, os Massive Attack, a rejeitar.

Características: Como acontece com qualquer outro género do pop-rock, os requisitos para que uma banda ou uma canção seja catalogada no trip hop são vagos e subjectivos. Entre os ingredientes mais frequentes estão um groove gerado por máquinas de ritmos ou outras programações e aparentado com o hip hop e drum’n’bass, mas desacelerado para um balanço hipnótico (por vezes a roçar a letargia); uma voz (quase sempre feminina) que tanto pode ser etérea e como dar expressão a mágoas profundas e irremediáveis e que está quase sempre envolta numa aura onírica; influências de soul, funk e dub; recurso abundante a electrónica, loops e samples (por vezes complementados por uma opulenta secção de cordas), de forma a criar um tapeçaria densa e envolvente; é também usual o recurso a ritmos quebrados e a experimentação com electrónica e efeitos de estúdio. O protagonismo individual dos instrumentos e da voz é preterido em favor da criação uma atmosfera global enfeitiçante, quase sempre sombria e opressiva – esta é, senão uma “bad trip”, pelo menos um viagem por paragens inquietantes.

Não assumindo os instrumentos individuais papel determinante – e sendo amiúde substituídos por electrónica e samples – não é de estranhar que os discos de trip hop sejam filhos do estúdio de gravação e não da sala de ensaios e que as bandas de trip hop se resumam na maior parte das vezes ao duo voz + produtor/multi-instrumentista, que recorre a músicos de estúdio para intervenções pontuais e espectáculos ao vivo.

Tricky, 27 de Fevereiro no Lisboa ao Vivo. 25€

Uma história do trip hop em 10 (+1) canções

“Unfinished Sympathy”, dos Massive Attack

Ano: 1991

O grupo desenvolveu-se a partir do Wild Bunch, um grupo de músicos, DJs e engenheiros de som, muito activo no fervilhante meio dos sound systems de inspiração jamaicana que medrou em Bristol no final da década de 1980. O núcleo central do Wild Bunch, formado por Robert Del Naja (“3D”), Grant Marshall (“Daddy G”) e Andy Vowles (“Mushroom” ou “Mush”), assumiu o nome de Massive Attack em 1988 e lançou o seu primeiro álbum, o seminal Blue Lines, em 1991. Nos primeiros tempos, os Massive Attack contaram com a colaboração próxima de Tricky e Geoff Barrow – que depois formaria os Portishead – estagiava como engenheiro de som no estúdio em que foi gravado Blue Lines.

Em Blue Lines, o trio de criadores distribuiu as canções pelas vozes de Horace Andy, Shara Nelson e Tricky, prática que se manteria nos quatro soberbos álbuns – muito espaçados entre si – que se seguiram e por onde desfilam “celebridades” como Nicolette, Tracey Thorn (Everything But The Girl), Liz Fraser (Cocteau Twins), Sinnead O’Connor, Tunde Adebimpe (TV on the Radio), Hope Sandoval (Mazzy Star), Damon Albarn (Blur, Gorilaz), Guy Garvey (Elbow) e Martina Topley-Bird.

[O videoclip, realizado por Baillie Walsh consiste num único travelling que acompanha a cantora Shara Nelson numa caminhada por um subúrbio de Los Angeles]

“Sour Times”, dos Portishead

Ano: 1994

Os Portishead começaram, em 1991, por ser um duo formado pela cantora Beth Gibbons e pelo produtor e multi-instrumentista Geoff Barrow, tendo a cidade natal deste, não muito distante de Bristol, fornecido o nome da banda. O produtor e multi-instrumentista Adrian Utley, que teve papel decisivo na composição e gravação de Dummy, o álbum de estreia, tornar-se-ia depois no terceiro membro permanente.

Soul music esvaziada de calor e luxúria, torch songs pós-apocalípticas, bandas sonoras para um film noir rodado em tempos azedos e atmosferas rarefeitas em oxigénio, confluem em canções a que a voz magoada de Gibbons empresta uma dimensão trágica e só não se tornam desesperadas, porque marinam na atmosfera narcoléptica gerada pelos loops e samples de Barrow e Utley.

[O videoclip inclui excertos da curta-metragem To Kill a Dead Man, realizada pelos Portishead em 1994]
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“Overcome”, de Tricky

Ano: 1995

O lançamento, em 1994, de Dummy e de Protection, o segundo álbum dos Massive Attack, afirmou Bristol como a capital do trip hop, estatuto reforçado no ano seguinte pela edição do álbum de estreia de Adrian Thaws. Thaws, nado e criado num bairro desfavorecido de Bristol, era um adolescente cheio de ardis e expedientes, cuja vida se repartia entre o rap e a delinquência e que era conhecido, no meio dos gangs da cidade, como “Tricky Kid”. Pouco a pouco, Tricky começou a deixar de aplicar o seu engenho e iniciativa à pequena criminalidade e redireccionou-os para a música: após colaborar com os Massive Attack em Blue Lines e Protection, fez sair o seu primeiro álbum, Maxinquaye, em 1995. O nome do álbum homenageia a sua mãe, Maxine Quaye, falecida quando Tricky tinha quatro anos, e conta em quase todas as canções com a voz de Martina Topley-Bird, ainda adolescente à data das gravações e que viria a tornar-se numa cúmplice recorrente de Tricky.

O segundo álbum de Tricky surgiu em 1996 sob o nome do colectivo Nearly God (é também este o título do álbum) e embora conte com as colaborações de gente tão distinta como Björk, Neneh Cherry, Alison Moyet e Terry Hall, é, basicamente, um produto da mente de Tricky. O pródigo ano de 1996 viu surgir outra obra-prima, Pre-Millennum Tension, que consolidou Tricky como um dos nomes cimeiros do trip hop. Entre os pioneiros do género é ele que se tem revelado mais prolífico, tendo lançado um total de 13 álbuns, o mais recente dos quais é Ununiform, saído em Setembro passado.

[”When We Die”, de Ununiform, com as vozes de Tricky e Martina Topley-Bird. A digressão de Ununiform passa pelo Lisboa ao Vivo, a 27 de Fevereiro, bilhete 25€]

“Nefisa”, dos Earthling

Ano: 1995

O ano de 1995 assistiu também à estreia de outra banda de Bristol, o duo formado pelo rapper Mau e o produtor Tim Saul, com o álbum Radar (no qual colaborou Geoff Barrow, dos Portishead). O radar da imprensa musical não detectou estes “terráqueos”: Radar ficou-se pelo 66.º lugar do top britânico e o segundo álbum, Human Dust, gravado em 1997, acabou por ficar na gaveta (só seria lançado em 2004) e o duo dissolveu-se em 1997. Voltou a juntar-se em 2008 e lançou um álbum no Bandcamp.

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“Gorécki”, dos Lamb

Ano: 1996

O duo de Manchester formado por Lou Rhodes (voz) e Andy Barlow (instrumentos, produção) estreou-se em 1996 com o álbum homónimo, mas não passou do 109.º lugar do top britânico; o segundo, Fear of Fours (1999), teve um desempenho um pouco melhor – n.º 37 – mas o terceiro, What Sound (2001), e quarto, Between Darkness and Wonder (2003), voltaram a mergulhar na zona crepuscular do top britânico – n.º 54 e n.º 96. Contrastando com a indiferença a que foram votados no país natal, os Lamb encontraram um apreciável número de fãs em Portugal, onde Between Darkness and Wonder chegou ao lugar 13 do top. A estima em que são tidos por cá não impediu que a banda suspendesse actividade em 2004; regressou em 2011 e lançou dois novos álbuns.

[“Górecki” recebeu este nome por empregar um sample do II andamento (Lento e largo – Tranquilissimo) da Sinfonia n.º 3 “Sinfonia das Canções de Pesar” (1977), do compositor polaco Henryk Górecki (1933-2010)]

“Tape Loop”, dos Morcheeba

Ano: 1996

Os Morcheeba nasceram em Londres em resultado da associação da voz escura e sedosa de Syke Edwards aos irmãos Paul Godfrey (DJ, produtor) e Ross Godfrey (multi-instrumentista). Estrearam-se em 1996 com Who Can You Trust?, seguido, dois anos depois, por Big Calm. A popularidade da banda dilatou-se no início do século XXI, mas tensões internas levaram à saída de Edwards em 2003, sendo substituída por um painel rotativo de cantores – até ao seu regresso em 2009. Os Morcheeba, que se tinham afastado da estética trip hop no terceiro álbum, Fragments of Freedom (2000), reaproximaram-se do trilho original com Charango (2002), mas acabaram por assumir definitivamente um novo rumo após a saída de Edwards, pelo que, para a história do trip hop ficam sobretudo os dois primeiros álbuns.

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“6 Underground”, dos Sneaker Pimps

Ano: 1996

O duo Liam Howe e Chris Corner formou-se em Hartlepool, no Nordeste de Inglaterra; porém, após algumas demos com a voz de Corner concluíram de que as canções pediam uma voz feminina e recrutaram a cantora Kelli Dayton. Foi com ela que gravaram o álbum de estreia, Becoming X, surgido em 1996.

Quando começaram a trabalhar no segundo álbum, chegaram à conclusão de que Corner seria o cantor adequado, pelo que dispensaram os serviços de Dayton (que prossegue hoje carreira como Kelli Ali): Corner assumiu as funções vocais em Splinter (1999) e Bloodsport (2002). O terceiro álbum já se afastava claramente do trip hop e o material para um quarto álbum, nunca editado, ainda divergia mais – seria depois reciclado para o projecto de música electrónica IMAX, de Chris Corner.

[“6 Underground” contém samples da banda sonora de John Barry para o filme Goldfinger (1964), da série James Bond – a harpa que se ouve no início e que volta a surgir mais tarde, vem de lá]

“Inhaler”, dos Hooverphonic

Ano: 1996

Um dos primeiros lugares em que o trip hop ganhou raízes fora das Ilhas Britânicas foi a cidade flamenga de Sint-Niklaas, onde Alex Callier (teclados, programações), Raymond Geerts (guitarra) e Frank Duchêne (teclados), com a cantora Liesje Sadonius, gravaram A New Stereophonic Sound Spectacular, lançado em 1996 sob o nome de Hoover, que depois trocariam por Hooverphonic, para evitar conflitos legais com o fabricante de aspiradores.

Sadonius partiria após o primeiro álbum, sendo substituída por Geike Arnaert, que asseguraria a voz até 2008. Após um interregno, o posto foi assumido em 2010 por Noèmie Wolfs, que, deixou a banda em 2015. Entretanto, o som da banda foi afastando-se progressivamente dos moldes trip hop do seu início.

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“Somewhere Not Here”, dos Alpha

Ano: 1997

Mais uma banda de Bristol, assente essencialmente em Corin Dingley e Andy Jenks, que têm recorrido a diversos cantores – Martin Barnard, Wendy Stubbs, Helen White, Kelvin Swaby, Horace Andy – para dar corpo às suas canções. Estrearam-se em 1997 com Come From Heaven, publicado pela Melankolic (editora dos Massive Attack) e que, nalgumas faixas, como “Somewhere Not Here”, se aproxima mais do jazz do que qualquer outro grupo de trip hop (entenda-se aqui “jazz” no sentido mais planante e sedado possível).

Apesar da baixa visibilidade (e da saída de Andy Jenks em 2007), os Alpha são dos poucos grupos de trip hop que se tem mantido em actividade ininterrupta, tendo gravado uma dezena de álbuns até à data.

[Com a voz de Wendy Stubbs]

“Utopia”, dos Goldfrapp

Ano: 2000

Felt Mountain, o álbum de estreia do duo londrino formado por Alison Goldfrapp (voz, teclados) e Will Gregory (teclados), estava na órbita do trip hop, ainda que “contaminado” por outras influências, como seja a canção francesa. No segundo álbum, Black Cherry, a banda derivou para o terreno da música de dança e deitou mão a sintetizadores estridentes, rumo que se tornaria mais marcado nos discos seguintes, pelo que, para a história do trip hop conta apenas o álbum de estreia.

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Época e local: Grã-Bretanha, finais dos anos 70 a meados de 80, com principais pólos em Manchester, Liverpool e outras cidades industriais. Um dos eventos fundadores do movimento foi um concerto dos Sex Pistols no Lesser Free Trade Hall, em Manchester, em Junho de 1976: não foi muito concorrido, mas muitos dos miúdos que lá foram ficaram tão impressionados que decidiram formar uma banda – entre eles estavam futuros elementos dos Joy Division. 

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