Bob Dylan em Lisboa: 15 canções para a fama do Nobel

Um concerto de Bob Dylan é um acontecimento. Mesmo hoje. Mesmo para quem pensa que depois de 1970 a sua música é só fumaça. Pois todo o seu trabalho anterior é uma preciosidade lírica e musical exemplarmente revolucionária.
Bob Dylan
Bob Dylan © Stanley Bielecki/ASP
Por Rui Monteiro |
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Um prémio, nada singelo por se se chamar Nobel da Literatura, e de repente, entre o fumo espesso da polémica, Bob Dylan voltou a ser o poeta genial que as últimas três décadas de composição não mostraram, ou recordaram apenas ocasionalmente.

Não há injustiça no Nobel. Espanto, sim; e o sinistro rilhar das dentaduras dos puristas como ruído de fundo. Porém, convém não esquecer que o poeta e compositor agora laureado criou o essencial do seu cancioneiro em pouco mais de uma década. Depois do impacto inicial, levou mais 30 anos a ser reconhecido, de facto, e com a pompa e circunstância devida. Pelo meio atravessou o seu deserto, raramente musical e poeticamente criativo. Contudo, as melhores canções mostraram a sua qualidade e a sua importância lírica, musical, política, cultural e social, e, em certos casos, o seu carácter premonitório, sobrevivendo ao tempo, isto é, mantendo-se belas e fundamentais para lá das tendências, das modas, das revoluções, do gosto.

Por experiência digo que não há dois espectáculos de Bob Dylan iguais e que o reportório é uma incógnita. Depende do estado de espírito. Uma experiência, portanto, que, aqui, em Lisboa, se incluir estas 15 canções (e, pronto, mais a mão-cheia de que o artista gosta e insiste em impingir), não mostra tudo, contudo explica bem a razão de Bob Dylan ser Bob Dylan – o que, bem vistas as coisas, talvez seja ainda melhor do que Nobel da Literatura.

Bob Dylan em Lisboa: 15 canções para a fama do Nobel

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A Hard Rain’s a-Gonna Fall (The Freewheelin, 1963)

Alguém pediu um exemplo de canção apocalíptica? Aí está. A Hard Rain’s a-Gonna Fall, realmente, pode ser sobre um tremor de terra, uma inundação, uma chuva de sapos ou outro tipo de catástrofe (mais ou menos como Sunday, Bloody Sunday, dos U2, é uma canção de amor), mas em plena Guerra Fria tornou-se um símbolo do pacifismo que se opunha à loucura nuclear em construção por americanos e soviéticos. Levando essa demência destrutiva mais longe, para o terreno da injustiça e do sofrimento social, para ele, e por outras e melhores palavras, caminho de destruição da humanidade.

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Masters of War (The Freewheelin, 1963)

Alguém pediu um exemplo de canção anti-belicista? Pois aqui está, no mesmo álbum que a anterior (o que ajuda a compreender a sua popularidade entre a esquerda antes da escandaleira criada pelas acusações musicalmente puristas e politicamente ideológicas de Peter Seeger no Festival de Newport, uns anos depois). Aqui, Dylan não tem qualquer hesitação em colocar a sua mira sobre o complexo militar-industrial americano. Ao contrário de outras canções de protesto incluídas em The Freewheelin não há, em Masters of War, qualquer tipo de ambiguidade ou esperança. O compositor dá lugar à vítima, ao juiz e ao júri e ao cangalheiro e remata, sem piedade, com uma promessa: “I’ll stand over you grave/ ‘Til I’m sure that you’re dead.

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Blowin’ in the Wind (The Freewheelin, 1963)

É uma das canções mais conhecidas deste vasto reportório, mais uma vez desse seminal segundo álbum de 1963, tanto que foi através de Blowin’ in the Wind que muitos conheceram Bob Dylan. O autor, no seu estilo peculiar de negar o evidente, que alia a uma espécie de humor auto-destrutivo e várias versões do mesmo acontecimento, diz que a composição levou uns 10 minutos a fazer. Seja. Todavia, nessa dezena de minutos criou uma canção que ecoa permanentemente, mais quando uma crise está em curso, de tal maneira que, para muitos estudiosos (Dorian Lynskey, em 33 Revolutions per Minute, por exemplo), este tema criou um novo tipo de canção de protesto, ao ponto de se tornar o hino do Movimento dos Direitos Cívicos na América.

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The Times They Are a-Changin’ (The Times They Are a-Changin, 1964)

A grande concorrente de Blowin’ in the Wind, pondo as coisas de maneira escandalosamente comercial, é, sem dúvida, The Times They Are a-Changin’. Digamos que leva uma pequena vantagem, porque como todas as grandes canções, esta assenta sobre uma verdade, a de que não importam tecnologias nem políticas nem evoluções sociais…, porque algumas ideias são eternas. Nos seus versos encontra-se uma chamada à acção que tem de ser permanente, pois, como é evidente, os tempos estão a mudar e cabe a cada geração entender o seu propósito e cumprir o seu dever. E olhando para o mundo de hoje, frases poéticas (e proféticas?) como The battle outside ragin’/ Will soon shake your windows and rattle your walls/ For the times they are a-changin', fazem, sem dúvida, o seu sentido e o desejo de muitos.

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It Ain’t Me Babe (Another Side of Bob Dylan, 1964)

Por esta altura, perante a consternação de muitos seguidores, Bob Dylan começara já a emigrar da canção folk de protesto procurando novos ares e outras formas de expressão entre a música popular. Assim, neste álbum, assiste-se, por um lado, a um grande apuramento da sua escrita, agora com maiores liberdades e preocupações poéticas que podem ser resumidas, temática e simploriamente, na atenção ao desejo e ao amor. Daí, embora haja quem veja – vá-se lá saber porquê? – em It Ain’t Me Babe uma declaração de patriotismo absurdo, que esta seja o anúncio, sincero e brutal, de uma separação – o que talvez diga mais sobre a relação do autor com as mulheres.

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Like a Rolling Stone (Highway 61 Revisited, 1965)

Já tanto se escreveu sobre Like a Rolling Stone que bem podia estar quieto e alinhar algumas citações. Seja como for, isso não impede que a pele fique tipo galinha mal soam os primeiros acordes da canção (provavelmente a mais utilizada por outras vozes ao longo do tempo) e se começa a imergir na brilhante rebeldia expressa através de uma poesia eléctrica e contagiante enquanto se tenta decifrar a interrogação do refrão.

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Desolation Row (Highway 61 Revisited, 1965)

A canção que encerra Highway 61 Revisited, um dos mais extraordinários álbuns de Bob Dylan, Desolation Row, é como uma parada de seres grotescos, embora as personagens escolhidas pelo poeta sejam umas vezes históricas, outro bíblicas e, principalmente, ficcionais. Voltando por um momento à raiz folk na música, os tipos que traça são tão encantadores e fascinantes como estranhos e, mesmo, bizarros, para mais porque descritos como figuras de um romance dadas as suas profundas características literárias.

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Mr. Tambourine Man (Bringing It All Back Home 1965)

Aqui chegados, convém lembrar que o material reunido no seu delicioso trio de álbuns, Bringing It All Back Home, Highway 61 Revisited e Blonde on Blonde, foram gravados em escassos 14 meses. Ouvindo de novo é, agora, ainda mais clara a evolução musical e poética de Dylan ao longo deste ano. Uma dessas canções é Mr. Tambourine Man, um tema a dar para o simples (parece que escrito depois de uma animada participação no Mardi Gras, o Carnaval de Nova Orleães) sofisticado pelo impecável (e notável, para quem tem o seu fio de voz) fraseamento dos versos. O que levou David Crosby, que, com os Byrds, levou a canção ao primeiro lugar do top americano, a dizer que o compositor introduziu a poesia na música de rádio.

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It’s Alright Ma (I’m Only Bleeding) (Bringing It All Back Home, 1965)

É por estas, e felizmente por muitas outras canções que, de quando em quando, alguém pergunta onde vai Bob Dylan, como se costuma dizer, buscar inspiração. O próprio, na sua falsa modéstia, ou verdadeiro alheamento do mundo, nunca se sabe, mais de uma vez disse não saber. Nem onde nem porquê. O que realmente não interessa nada quando se está perante uma canção que junta uma lista de críticas, com avisos e frases feitas que acabam, inevitavelmente, com a afirmação de que vai tudo ficar bem – e ainda assim consegue hipnotizar e fazer sentido.

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Positively 4th Street (Single, 1965)

Aquele órgão volteante, na verdade, faz lembrar um bocadinho Like a Rolling Stone, mas é uma ilusão. O coro nunca aparece, o refrão faz-se caro, e a canção acaba por revelar-se mais como uma carta aberta onde o autor expressa uma indignação ferida sabe-se lá porquê. A teoria mais divulgada defende que Positively 4th Street é uma mordidela no pessoal (trendy, diz-se agora) gravitando à volta da cena folk de Greenwich Village, embora outros, eventualmente mais terra a terra, vejam neste tema uma simples arenga contra a indústria discográfica.

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