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Buba Espinho
Warner Music Buba Espinho

Buba Espinho, cantador e fadista

Buba Espinho tem dois amores e não sabe de qual gosta mais – se do cante alentejano com que cresceu, se do fado com que o ficámos a conhecer. Fomos averiguar se são felizes os três.

Por Hugo Torres
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Habituado a cantar ombro com ombro, Buba Espinho deixou a sua calorosa Beja natal para arriscar na turbulenta solidão de Lisboa. Arriscou e venceu: sozinho ao microfone, fez-se voz do fado e encantou a noite alfacinha com o seu afectuoso sotaque alentejano. Cinco anos depois, estreia-se num disco homónimo, com o selo da Warner, no qual é incapaz de se circunscrever a um único género. Buba é tudo o que sempre foi. Falámos com ele via Skype, logo no início do confinamento – e publicámos originalmente esta entrevista na edição da Time In Portugal de 1 de Abril. Mas a pandemia obrigou a adiar o lançamento do álbum, que é finalmente editado nesta sexta-feira, 10 de Julho. Vamos à conversa.

O disco faz a cartografia de todo o teu percurso, do cante ao fado. Não teria sido mais vantajoso aproveitar o embalo da vitória na Grande Noite do Fado [2016] e seguir por aí?
Não teria sido vantajoso lançar o disco nessa altura. Neste momento estou muito mais maduro. E, mais do que nunca, sei muito bem aquilo que quero.

Assumires-te só como fadista não te passou pela cabeça?
Passou, mas foram impulsos da minha tenra idade. Sinto que nunca poderia definir-me apenas como fadista, ou cantador alentejano. A minha música é a união das várias influências. Se lançasse um disco de fados ou um disco de cante, estaria a contar apenas um capítulo da minha história.

António Zambujo é uma referência evidente nesta dança entre géneros. Tanto que é quase um padrinho deste trabalho, cantando no single “Roubei-te um beijo” e compondo “Jardim Paraíso”. É uma figura tutelar?
E musicou ainda a “Zefa”. O António é uma das minhas grandes referências enquanto artista e ser humano. Tenho o prazer de ser amigo dele. Para mim, é uma figura paternal. Dá-me conselhos que certamente também dará aos seus filhos. É um homem com um grande coração, tão grande ou maior que o seu talento.

Foi o Zambujo que te incitou a deixar o Alentejo e a arriscar em Lisboa.
Foi uma das pessoas que me incentivou a conhecer outras realidades. Quando o conheci, trabalhava apenas nos projectos tradicionais alentejanos. E ele fez-me acreditar que podia escrever a minha história. Para isso, tinha que conhecer a realidade do mercado. Tive a sorte de ter o meu irmão, que também seguiu o seu caminho musical, partindo para Lisboa.

Como foi esse embate com Lisboa?
Ao início não foi fácil. Não tinha muito trabalho e já tinha contas para pagar. Ninguém me conhecia, mas fui à luta. Fui começando a cantar em casas de fado e adaptando-me. O maior choque foi o ritmo da cidade, que nada tem a ver com o meio onde nasci e cresci. O trânsito ainda me faz confusão [risos].

Em que altura surge o interesse pelo fado – e sobretudo em cantá-lo?
O meu pai sempre nos passou os grandes valores da música: a mensagem, o amor, a partilha. Ensinou-nos a respeitar acima de tudo a música tradicional. E o fado não fugia a isso. Mas o grande interesse pelo fado aparece quando sinto a necessidade de trilhar o meu caminho a solo. O cante alentejano é um estilo de música colectivo, e eu sentia que conseguia fazer muito mais sozinho. E comecei a ouvir e a aprender fados para começar a cantar. Seguidamente venho para Lisboa, onde começo a beber nas fontes fadistas. Adaptei-me facilmente ao estilo e comecei depois a cantar em muitas casas de fado. E passou a ser a minha rotina diária.

Atrai-te mais o fado melancólico de “Quem sabe um dia”, ou o fado vadio de “Zé de Alfama”?
Sou atraído de igual forma. Gosto muito de interpretar as várias expressões do fado: alegrias, tristezas, melancolias, raiva. É quase como ser actor, e ter de vestir [a pele de] várias personagens, com características opostas. Esse é um dos grandes desafios da música.

“Zefa” leva o disco para a bossa nova. Quando convidaste o Tiago Nacarato e o Diogo Brito e Faro para participar, era já com essa intenção?
Sim. Esse tema transportou-me de imediato para o Brasil. Adoro música brasileira. Assim que comecei a pensar o que faria com a canção, lembrei-me do Tiago e do Diogo, que são experts no género. Estivemos três dias a ouvir referências da bossa nova. No último dia, fomos até ao estúdio e gravámos esta linda canção. Foi um dos meus grandes momentos de estúdio. Nada melhor do que poder partilhar a nossa música com os amigos.

Este é ainda um disco familiar, em que o teu pai [Luís Espinho] e o teu irmão [Eduardo] estão envolvidos. Qual é a ligação deles à música?
Cá em casa, a música teve sempre presença assídua. O meu pai é músico há mais de 40 anos. É um apaixonado da música. E passou todo o seu amor e conhecimento aos filhos.

O Armando Torrão, autor do “Roubei-te um beijo”, vem dessa realidade.
O Armando é amigo do meu pai desde que se lembram. As minhas primeiras memórias de cante são na casa do Armando, em Serpa, nas famosas tertúlias alentejanas até altas horas, a cantar, a beber a inspiração do maravilhoso vinho tinto produzido nas nossas terras, aliado à inigualável gastronomia alentejana. E tentei retratar essas mesmas memórias, num videoclipe com o António [Zambujo], num ambiente aproximado a essas tertúlias.

É apropriado, porque quase parece que não fizeste um disco, mas um serão musical lá em casa. Mesmo o diminutivo Buba sugere intimidade.
Não diria melhor. Tento sempre “falar” com o público de forma muito íntima. Espero que as pessoas se sintam como se estivessem connosco, à mesa, a ouvir-nos tocar e cantar. Faço o mesmo nos espectáculos.

Isso é que vai ser difícil agora...
Temos que chegar às pessoas de outra forma. Participei no festival #EuFicoEmCasa, através do Instagram, e foi excelente. Recebi inúmeras mensagens a agradecer, por ter mudado o dia de quem está a viver entre quatro paredes. Sinto mais do que nunca o peso e a responsabilidade da minha profissão. É nestes momentos que temos de estar junto do público, passando uma mensagem de amor. Para que acreditem que tudo vai passar e que, mais tarde, estaremos juntos.

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