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Adriana Sá
©Vera Marmelo

O posto de escuta de Adriana Sá

'Agora', de Adriana Sá, inaugura a programação online de música da Culturgest. Falámos com a artista e compositora

Por Tiago Neto
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Há, no som, uma força poderosíssima, nem sempre perceptível. Não porque não a possamos ouvir, ou que não nos incomode, mas porque aprendemos a aceitá-la, chegue ela da forma que chegar. Reconhecemos de igual modo o golpear das rodas metálicas de um comboio na ferrovia e o enrolar das ondas numa praia. A trepidação que um trólei faz na calçada e o som que uma árvore faz ao ser sacudida pelo vento.  

Adriana Sá, artista multidisciplinar, performer e compositora musical, dedica-se ao estudo dos sons, explorando múltiplas interligações da música com outras artes e contextos. Numa altura em que a cidade viu a circulação diminuir, percebeu que algo mais se transformava; a relação das pessoas com o espaço alterou-se, não há dúvida, mas algures no medo estavam partículas que, anteriormente dissolvidas na poeira do caos, voltavam agora a emergir.

Levou um gravador, foi de casa até ao Tejo e captou o que pôde, num dos passeios “higiénicos” que diz ter feito. O resultado vai ser apresentado esta quinta-feira, num espectáculo que vai ser transmitido em streaming, a partir das 21.00, no Youtube e no Facebook, e que inaugura a programação online de música da Culturgest. Retrato de um presente não muito distante que nos quer deixar em contacto não só connosco, mas com o espaço, e que marca o regresso. Afinal, e no meio de tudo isto, o que é Agora?  “É uma peça sonora que eu, enquanto música, trabalho com a musicalidade da cidade.”

Esta peça começou com diários sonoros, feitos em passeios.
Sim.  

Foi um exercício de hábito ou fê-lo em virtude das circunstâncias?
Não o faço sempre, foi em virtude das circunstâncias. Houve uma alteração radical na paisagem sonora, com esta situação do confinamento. Isso permitiu que sons de que eu já não me lembrava, reemergissem. Ainda por cima vivo na Bica. Não sei se me tinha habituado aos sons ou à necessidade de os cancelar mas isto foi uma coisa boa.

Como é que os voltou a ouvir?
Os sons não desapareceram de forma nenhuma, tornaram-se mais nítidos, alteraram-se. O som dos tróleis desapareceu, o dos carros diminuiu. Isso permitiu escutar mais as vozes, os sons das portas abertas. Quis cristalizar isso. Na verdade não foi um diário sonoro a acontecer no que diz respeito à escuta.

Voltando aos passeios, fê-los sozinha?
Nem sempre.

Mas foi, de alguma forma, uma experiência introspectiva ou solitária?
Acho que a peça explora precisamente essa pergunta e a resposta é ambivalente; por um lado sim, passeava sozinha, por outro lado, era o estar sozinha que me fazia estar consciente da relação com os outros, com os sons, com o espaço, e como esses sons caracterizam o espaço. E eu quis cristalizar isso.

E como é que chega ao produto final dessa cristalização?
O que resolvi foi estabelecer regras de jogo para a composição final da peça e uma delas foi: com isto em mãos, vou querer acentuar a musicalidade desta peça sonora? Não. Quero, sim, manter a identidade de um percurso sonoro mas simultaneamente dialogar com a musicalidade desse percurso. Procurei criar um diálogo entre o individual e o colectivo tal como já tinha explorado o interior/exterior.

Tendo em conta o carácter da peça, e a altura em que foi feita, houve alterações na forma como compreendia a relação pessoa/espaço?
Sem dúvida. Como disse, vivo na Bica e a paisagem sonora foi mudando. Uma das primeiras coisas que me ocorreu quando me apercebi dessa mudança radical foi que os sons que conhecia e que tinha deixado de ouvir, afinal, estavam lá. O excesso de estímulos é que me levou a cancelá-los.

Mas já se tinha apercebido da presença desses sons antes.
Teoricamente já tinha, mas era uma coisa intelectual, mais do que sensorial. Tinha a sensação de que cancelava muita coisa, evitava multidões, excesso de ruído, ocupava imensa energia nesse cancelamento. E isso mudou. Fiquei com vontade e capacidade de alargar a minha percepção o mais possível.

Há em Agora alguma vertente educativa? No sentido de alargar a percepção das pessoas da mesma forma que o fez consigo.
Qualquer trabalho artístico pode ter essa capacidade. Mas se foi a minha intenção? Não. A minha intenção foi e será sempre o fazer por fazer. Espero, sim, que o trabalho possa ser experienciado de muitas maneiras e uma das repercussões desse trabalho pode ser educativa.

O som tem a capacidade de nos salvar?
Não sei se usaria salvar mas acredito profundamente que a música é um meio de expandir a nossa percepção. Activa uma percepção do mundo muito maior do que aquela que temos quando trabalhamos apenas a um nível intelectual. A música convida-nos a concentrar na própria dinâmica da percepção.

O confinamento também nos abriu essa percepção?
Espero mesmo que sim. E há muitas pessoas que pensam desse modo. Estamos todos conscientes da forma como a poluição diminuiu, não só a sonora. Permitiu que as espécies voltassem, criou um desaceleramento das actividades que eu penso que levou a maior parte das pessoas a rever a forma como lidam com as coisas. Que, por exemplo, comecem a fazer coisas só por fazer. Eu pergunto-me o que vai acontecer à actividade musical e artística em Portugal. E esta coisa das peças online, estou muito curiosa para ver como funciona.

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