Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Sete cantatas de Bach para musicar o calendário religioso
Christiane Eberhardine
Christiane Eberhardine de Brandenburg-Bayreuth, por Louis de Silvestre (1675-1760)

Sete cantatas de Bach para musicar o calendário religioso

A apresentação na Gulbenkian de uma cantatas de Bach serve para recordar algumas jóias entre as duas centenas que chegaram aos nossos dias.

Por José Carlos Fernandes
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Durante a maior parte da sua carreira, a principal atribuição de Johann Sebastian Bach (1685-1750) foi a composição e execução de música sacra – e na região da Alemanha em que viveu, a principal forma que esta assumiu foi a da cantata, pelo que é natural que seja o género de que nos chegaram mais obras de Bach – duas centenas –, cobrindo os períodos em que desempenhou cargos de organista na Igreja Nova de Arnstadt (1703-1707), e na Igreja de São Blásio (Divi Blasii), em Mühlhausen (1707-08), de mestre de capela na corte de Weimar (1708-17) e de Thomaskantor, ou seja, director musical da Thomaskirch (Igreja de S. Tomé), em Leipzig (1723-50).

Embora tenha viajado até Dresden e composto algumas obras para esta corte, que lhe valeram o título (meramente honorífico) de “compositor da corte”, Bach acabou por ficar em Leipzig até ao fim da vida. Só o período em que foi mestre de capela em Cöthen (1717-23) não regista produção de cantatas, uma vez que a corte professava a fé calvinista e esta não previa música nos ofícios religiosos. De qualquer modo, a sua produção de cantatas em Leipzig não se distribui homogeneamente no tempo: após um frenesim de actividade em 1723-29, em que andou perto de compor uma cantata por semana, Bach, desmotivado pelos atritos com o mesquinho e rígido conselho municipal, reduziu acentuadamente o ritmo de composição ao longo da década de 1730, até porque nesses primeiros anos vertiginosos lograra produzir cantatas apropriadas para todas as datas do calendário religioso.

As cerca de 200 cantatas sacras que chegaram aos nossos dias não representam toda a sua produção, pois perderam-se muitas das cantatas compostas em 1727-29, perfazendo possivelmente mais de uma centena.

Bach e Perez por Leonardo García Alarcón

Fundação Gulbenkian. Qui (31 de Outubro) 21.00 e Sex (1 de Novembro) 19.00. 14-28€.

Sete cantatas de Bach que precisa de ouvir

Gottes Zeit Ist die Allerbeste Zeit (Actus Tragicus) BWV 106

Data e local de estreia: 1707-08, Mühlhausen

A cantata BWV 106 é uma reflexão sobre a transitoriedade da vida e a aceitação da morte e está entre as primeiras que Bach compôs, numa altura em que tinha 22/23 anos e ocupava o posto de organista em Mühlhausen. A juventude do compositor não se reflecte na obra, que revela absoluta maturidade e domínio dos códigos e recursos da música sacra da época – o modelo seguido na BWV 106 é o de Dieterich Buxtehude (c.1637-1707), então o mais influente compositor do Norte da Alemanha, e a instrumentação emprega, não violinos, violas e violoncelos, como se tornaria corrente nas suas obras posteriores, mas flautas e as “arcaicas” violas da gamba, que em breve “passariam de moda”.

A cantata foi composta para um ofício fúnebre (possivelmente do presidente da câmara municipal), mas o tom dominante é de serenidade e confiança. As palavras de abertura deixam-no claro: “Gottes Zeit Ist die Allerbeste Zeit” (“O tempo de Deus é o melhor dos tempos”). Para lá de aceitar a morte – “Este é o antigo pacto: Homem, tens de morrer” – há que encará-la como esperança e não como punição. A música, embaladora, não descreve um mergulho no abismo infernal, mas um tranquilo deslizar para o repouso eterno.

[Por Dorothee Mields (soprano), Alex Potter (contratenor), Charles Daniels (tenor), Tobias Berndt (baixo) e Sociedade Bach da Holanda (Nederlandse Bachvereniging), com direcção de Jos van Veldhoven, ao vivo na Oostkerk, Middelburg, Holanda, 2015. A interpretação recorre a instrumentos de época e segue os princípios da “interpretação historicamente informada”, tal como todas as que se seguem]

Du Hirte Israel, Höre BWV 104

Data e local de estreia: 23 de Abril de 1724, Leipzig

A BWV 104 estreou no 2.º domingo após a Páscoa, a que o calendário litúrgico faz corresponder, no Evangelho, a parábola do Bom Pastor, pelo que Bach criou uma obra de ambiente pastoril, recorrendo, excepcionalmente, a toda a família dos oboés (oboé, oboe d’amore e oboe da caccia), instrumento convencionalmente associado aos pastores.

A obra abre em toada serena e luminosa, com o coro “Du Hirte Israel, Höre” (“Escuta, pastor de Israel, tu que conduziste José como um rebanho, surge, tu que és transportado pelos querubins”), em que se destacam, no meio do tecido polifónico, as duas palavras-chave: “höre” (escuta) e “erscheine” (surge). Na ária para tenor “Verbirgt Mein Hirte Sich Zu Lange” (com dois oboe d’amore), a confiança do crente vacila: “Quando o meu pastor se afasta durante muito tempo e o receio toma conta de mim no deserto, todavia prossigo no meu passo vacilante, a minha boca grita por ti, e tu, meu pastor, a exclamação fiel de Abba pela tua palavra”. Mas é plenamente restabelecida na magnífica ária para baixo “Beglückte Herde, Jesu Schafe”, com dois oboe d’amore e cordas e impelida por um ritmo embalador: “Feliz rebanho, cordeiros de Jesus, o mundo é para vós o Reino dos Céus, saboreais já a bondade de Jesus e esperais ainda pela recompensa da vossa fé após o doce sono da morte”.

[Por Paul Agnew (tenor), Klaus Mertens (baixo) e Coro & Orquestra Barroca de Amesterdão, com direcção de Ton Koopman (Challenge Classics)]
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Eine Fest Burg Ist Unser Gott BWV 80

Data e local de estreia: 31 de Outubro de 1724, Leipzig

O dia 31 de Outubro é um dos principais feriados das igrejas luterana e calvinista – o Dia da Reforma – e assinala a data em que, em 1517, Martinho Lutero, professor de teologia na Universidade de Wittenberg, enviou ao Arcebispo de Mainz (Mogúncia) uma carta desafiadora, que incluía um “manifesto” contestando a prática pela Igreja Católica de atribuir “indulgências” (reduções do tempo de penitência dos pecadores no Purgatório) a troco de dinheiro.

Foi para a celebração do Dia da Reforma de 1724 que Bach compôs a cantata BWV 80. Para tal, reciclou e expandiu a componente musical de uma cantata que apresentara em Weimar em 1715 (e cuja partitura não chegou aos nossos dias), adaptando-a a um novo texto – e, para uma nova apresentação em 1735, voltou a rever a cantata, desenvolvendo o seu coro de abertura. Este assenta num hino de Lutero que proclama que “O nosso Deus é um forte castelo” e o texto do resto da cantata afina pelo mesmo diapasão: “Tudo o que provém de Deus/ Está fadado à vitória”, “Ainda que o mundo estivesse tomado pelo diabo/ E este quisesse devorar-nos/ Ainda assim, nada recearia/ Pois estaria seguro do nosso triunfo”.

Na batalha entre o Bem o Mal, quem tem Deus por si tem a certeza da vitória: “Que nos tirem a vida/ Os nossos bens, honra, filhos e esposa/ Que tudo levem consigo” – ainda assim, o Reino dos Céus será nosso.

[Por Wilhelm Wiedl (rapaz soprano), Paul Esswood (contratenor), Kurt Equiluz (tenor), Ruud van der Meer (baixo), Tölzer Knabenchor e Concentus Musicus Wien, com direcção de Nikolaus Harnoncourt (Teldec/Warner)]

Ich Habe Genug BWV 82

Data e local de estreia: 2 de Fevereiro de 1727, Leipzig

A Cantata Ich Habe Genug (“Já tenho quanto baste”) dá voz a um sentimento de desprendimento das coisas terrenas, inspirando-se no episódio bíblico em que o velho Semião, a quem fora anunciado que veria o Messias antes de morrer, reconhece este no Jesus ainda criança que os pais levam ao Templo.

A cantata requer uma única voz solista – que na versão original era um baixo, mas que Bach transpôs para soprano numa revisão c.1731 – mas convoca também um oboé que se enleia de forma magnífica na linha vocal.

[Por Peter Kooij (baixo) e La Chapelle Royale, com direcção de Philippe Herreweghe, 1991 (Harmonia Mundi)]
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Lass, Fürstin, Lass Noch Einen Strahl BWV 198

Data e local de estreia: 17 de Outubro de 1727, Leipzig

A cantata BWV 198, mais conhecida como Trauer-Ode (Ode Fúnebre), foi composta para uma cerimónia de homenagem a Christiane Eberhardine, esposa do príncipe-eleitor da Saxónia, Augusto II o Forte, falecida a 4 de Setembro de 1727. Christiane Eberhardine gozava de grande estima na Saxónia, por se ter mantido fiel à fé luterana, ao contrário do marido, que se convertera ao catolicismo para poder ser coroado rei da Polónia, cerimónia que nem sequer contou com a presença da esposa.

A obra foi encomendada a Bach pela Universidade de Leipzig e estreou na capela da universidade, não nas igrejas nas quais Bach exercia a função de Kantor, como aconteceu com a maioria das cantatas. O texto, que é de natureza secular e consiste num louvor à falecida e na profunda dor que a sua morte causou entre os seus súbditos, foi providenciado por Johann Christoph Gottsched, professor de filosofia e poesia na dita universidade. Embora, devido a estas circunstâncias, não seja, do ponto de vista formal, uma cantata sacra, acaba, na prática, por não se distinguir dela.

[Coro de abertura, pelo Coro e Orquestra de La Chapelle Royale, com direcção de Philippe Herreweghe, numa gravação de 1987 (Harmonia Mundi)]

Jauchzet Gott in Allen Landen BWV 51

Data e local de estreia: 17 de Fevereiro de 1730, Leipzig

Entre as 200 cantatas sacras sobreviventes, apenas duas se destinam a soprano solista, sem intervenção de coro: a BWV 51 e a BWV 199. A BWV 51 prevê também a intervenção de uma trompete solista e Bach exige a ambos um virtuosismo extremo – a parte de soprano da ária inicial “Louvai o Senhor por toda a Terra” (“Jauchzet Gott in Allen Landen”) faz pensar, remotamente, na famosa ária “Der Hölle Rache”, cantada pela Rainha da Noite em A Flauta Mágica, de Mozart. Na Leipzig daquela época a presença de cantoras na igreja não era permitida e as exigências da partitura excedem largamente as capacidades da maioria dos rapazes sopranos, o que leva a que paire a dúvida sobre quem a terá então cantado.

Quanto à parte de trompete, há que considerar que o instrumento em uso no tempo de Bach não dispunha de pistões, pelo que as notas tinham de ser produzidas apenas com a boca – o que torna o trabalho do músico muito mais espinhoso.

[Por Sabine Devieilhe (soprano) e Ensemble Pygmalion, com direcção de Raphaël Pichon, ao vivo na Philharmonie de Paris, 2017]
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Wachet Auf, Ruft Uns Die Stimme BWV 140

Data e local de estreia: 25 de Novembro de 1731, Leipzig

O texto da BWV 140, que se inspira na epístola de S. Paulo aos tessalonicenses, exorta-nos a estarmos despertos para a segunda vinda de Cristo – “Despertai, grita-nos a voz do vigia do alto da torre” é a exortação do coro de abertura. Recorrendo a uma analogia que surge recorrentemente noutras cantatas de Bach, Cristo é comparado ao Noivo, sendo a Noiva a alma humana. A alma e Cristo acabam por unir-se no dueto final, para soprano e baixo, entre “as rosas do Paraíso, onde o prazer e o deleite serão completos”.

[Por Lisa Larsson (soprano), Lothar Odinius (tenor), Klaus Mertens (baixo) e Coro & Orquestra Barroca de Amesterdão, com direcção de Ton Koopman, ao vivo na Grote Kerk de Naarden, Holanda]

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